do ODiario.info
Acompanhar e compreender a admirável resistência do povo grego à ingerência da troika é indispensável. Envolve aspectos que são comuns à luta geral dos trabalhadores e dos povos contra a exploração. Mas assenta também em especificidades sociais, culturais e históricas que este texto ajuda a conhecer. E, no quadro actual, começa a assumir formas autónomas e parcelares de poder muito interessantes.
Pavlo e Akis estão cheios de pressa. Vieram à sede do sindicato, mas por pouco tempo. Correm para o tribunal, onde vão depor como testemunhas em dois casos. Nas últimas semanas têm feito isto todos os dias. É a principal actividade do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Naval, secções de Aço, Gruas, Electricidade e Madeiras, situado nos estaleiros de Perama, nos subúrbios do Pireu.
É uma povoação muito pobre e particularmente afectada pela crise. A maioria da população trabalha nos estaleiros, onde a taxa de desemprego atinge 95%. «As pessoas não têm dinheiro para comer, quanto mais para pagar impostos», diz Pavlo Pountidas, um dos líderes sindicais. Portanto não pagavam. Mas agora surgiu um dado novo.
O Governo decidiu, e o Parlamento aprovou introduzir um novo imposto sobre a propriedade que será colectável directamente na conta da electricidade de cada casa. Foi a solução encontrada para obrigar os contribuintes a pagar, já que a máquina fiscal se tem revelado totalmente incapaz. Mas para isso foi preciso também convencer as pessoas a pagarem a conta da electricidade, o que implicou obrigar a empresa fornecedora a cortar o serviço a quem não paga.
Até aqui havia uma tolerância tácita. Era possível passar anos sem pagar, impunemente, no sistema de desobediência concertada que tem permitido aos gregos manter um mínimo de condições de sobrevivência, apesar dos cortes de salários e rendimentos e da subida dos preços dos impostos.
Nas últimas semanas, por pressão indirecta da troika, a electricidade começou a ser cortada em muitas das casas pobres construídas na encosta frente ao mar, em Perama. Foi a catástrofe. Em breve todas as famílias da cidade ficariam às escuras, sem poder cozinhar ou aquecer-se. Mas o sindicato reuniu-se e tomou uma decisão.
Criaram piquetes que vão de prédio em prédio fazer ligações directas a quem foi cortada a luz. «Já que não conseguimos garantir emprego aos trabalhadores, pelo menos garantimos que não lhes tirem tudo», explicou Akiz Antoniou, dirigente sindical.
Depois, quando, caso a caso, os utentes são processados e chamados a tribunal, elementos do sindicato acompanhados por advogados, vão testemunhar a seu favor e assumir a responsabilidade.
Pagar a Otomanos? Não
Este tipo de medidas, decididas pelos sindicatos da Central PAME, ligada ao Partido Comunista da Grécia, está a multiplicar-se por todo o país. No estádio avançado a que a crise chegou, é visto como a única forma possível de resposta.
Pressupõe uma atitude de hostilidade e desconfiança em relação ao Estado, visto como uma entidade exterior e inimiga do povo. Ao nível individual, esta atitude traduz-se numa série de comportamentos dos quais o mais relevante para a economia é a fuga aos impostos.
Para muitos gregos, não os pagar é uma necessidade, mas também um orgulho. E o contrário seria uma vergonha. Sempre foi assim, explica Alexandre Yannakis, professor de História da Grécia na Universidade de Atenas. «A Grécia passou a maior parte da sua História ocupada por potências estrangeiras. Eram situações de opressão inexorável, mas que chocavam com o sentido de grandiosidade e superioridade cultural que os gregos sempre tiveram. O resultado era a humilhação. O caso mais evidente é o do Império Otomano. O seu domínio era exercido principalmente através da cobrança de impostos. Por isso, para um grego, era sinal personalidade e de honra não pagar esses impostos. Era a única resposta possível à humilhação. Ninguém queria assumir a vergonha de pagar impostos aos Otomanos. Hoje em dia, as pessoas têm em relação ao Estado grego a mesma atitude».
A desobediência assume muitas formas. Algumas são visíveis por todo o lado. Por exemplo, fuma-se em todos os cafés, bares e restaurantes. Há uma lei que o proíbe, mas ninguém cumpre.
Quando a lei foi promulgada na sequência das directivas europeias nesse sentido, muitos disseram que seria o grande teste à autoridade do então primeiro-ministro, Giorgio Papandreou. Se ele conseguisse fazer os gregos deixar de fumar nos recintos fechados, então haveria uma esperança para o país dentro da União Europeia. Não o conseguiu. Papandreou já se demitiu, e os gregos continuam a fumar.
Outra pequena desobediência ostensiva é a recusa dos motociclistas em usar capacete. As motos são um dos meios de transporte mais populares nas cidades gregas, mas quase ninguém coloca o capacete. Na melhor das hipóteses trazem-no debaixo do braço.
Um anúncio publicitário a uma marca de capacetes exibe um fotografia com um motociclista nessa pose e a frase : «Pode também usá-lo como mala».
Sem dinheiro não há vícios
Este tipo de insubordinação não é de agora. Já outras formas de desobediência surgiram no início do Verão, quando se percebeu que a crise não era brincadeira.
Grupos de cidadãos de um bairro, de uma aldeia, uma empresa ou de uma ilha começaram a reunir-se e a tomar decisões. Em conjunto imaginavam o que poderiam fazer para escapar à avalanche que se aproximava. Em muitos casos, decidiu-se não consumir produtos que não tivessem origem na própria comunidade. Noutros comprometeram-se a não usar serviços bancários. Noutros ainda, mais radicais, optou-se ainda por não usar mais o dinheiro. Já que não o tinham, cada um produzia apenas o que produzia ou o que os vizinhos produziam num sistema de trocas directas, sem utilização de moeda.
Noutros meios, o boicote ao sistema consegue ainda ser mais radical. As pessoas entreajudam-se sem sequer fazerem trocas directas. Num bar da zona de Monastiraki, em Atenas, ninguém paga pelas bebidas. «Aqui, nós, os empregados não recebemos salário», explica Ibrahim, que trabalha ao balcão do bar, que não tem nome. «O patrão deixou de pagar, porque diz que não pode, mas deixa-nos estar cá, e não exige lucros, ou dinheiro algum. Há pessoas que vêm aqui e oferecem garrafas de bebidas. Nós servimos de graça a quem quiser beber. Quem não quiser, não bebe.»
É como se o bar não existisse. Mas existe, está aberto e cheio de «clientes». «Convenceram as pessoas de que não é possível viver fora deste sistema capitalista», diz Joanna, jornalista desempregada, cliente do bar sem nome. «Mas é mentira. Se sairmos do sistema, a vida continua. É essa a grande descoberta de muitos gregos, neste momento. E essa foi a grande lição desta crise. Depois disto, nada será coo antes».
Esta convicção está na origem de muitos comportamentos desobedientes e anti-sistema. As pessoas começaram a acreditar que a crise não tem solução, e que apenas tenderá a piorar. «Isto é apenas o início», diz Violeta, estudante de arte. «No próximo ano, daqui a dez anos, tudo estará muito pior. É um caminho sem retorno. A Grécia nunca mais será um país rico, como pensava que era».
«Eu sei que vou ser pobre», diz Giannis Papatriantafiloy, músico de Salónica. «Serei pobre porque vivo num país pobre. E não me importo. Não preciso de grandes coisas. Só do básico. De comida e de música. E isso eu posso ter sozinho, plantando uns legumes num quintal, com uns amigos. Não preciso do Estado, nem da UE, nem dos bancos».
«O Estado é o caos»
Fotis Sioutas, também músico, acredita no nascimento de uma sociedade grega fora do Estado. «Aquilo que a Angela Merkel e os alemães dizem de nós, que somos indisciplinados, sem capacidade de trabalhar, é verdade em relação ao Estado grego, não aos cidadãos deste país. A Europa desconfia dos gregos por causa do Estado. E nós comportamo-nos como desobedientes e desrespeitadores por causa do Estado. Nas nossas relações pessoais não somo assim. Se eu marco um ensaio com os meus colegas, ou um encontro com amigos não chego atrasado. Na minha música, levo o meu trabalho muito a sério. A maioria dos gregos tem esta atitude. O Estado é que é o caos. Os gregos, se lhes derem uma oportunidade, irão mostrar que têm outra natureza».
Para quem tem esta atitude, desobedecer, ignorar as regras, sair do sistema, pode ser a solução para a crise. Principalmente quando nas vésperas do anúncio de mais um pacote de austeridade, não se vislumbra mais nenhuma.
* Jornalista do “Público”
Pavlo e Akis estão cheios de pressa. Vieram à sede do sindicato, mas por pouco tempo. Correm para o tribunal, onde vão depor como testemunhas em dois casos. Nas últimas semanas têm feito isto todos os dias. É a principal actividade do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Naval, secções de Aço, Gruas, Electricidade e Madeiras, situado nos estaleiros de Perama, nos subúrbios do Pireu.
É uma povoação muito pobre e particularmente afectada pela crise. A maioria da população trabalha nos estaleiros, onde a taxa de desemprego atinge 95%. «As pessoas não têm dinheiro para comer, quanto mais para pagar impostos», diz Pavlo Pountidas, um dos líderes sindicais. Portanto não pagavam. Mas agora surgiu um dado novo.
O Governo decidiu, e o Parlamento aprovou introduzir um novo imposto sobre a propriedade que será colectável directamente na conta da electricidade de cada casa. Foi a solução encontrada para obrigar os contribuintes a pagar, já que a máquina fiscal se tem revelado totalmente incapaz. Mas para isso foi preciso também convencer as pessoas a pagarem a conta da electricidade, o que implicou obrigar a empresa fornecedora a cortar o serviço a quem não paga.
Até aqui havia uma tolerância tácita. Era possível passar anos sem pagar, impunemente, no sistema de desobediência concertada que tem permitido aos gregos manter um mínimo de condições de sobrevivência, apesar dos cortes de salários e rendimentos e da subida dos preços dos impostos.
Nas últimas semanas, por pressão indirecta da troika, a electricidade começou a ser cortada em muitas das casas pobres construídas na encosta frente ao mar, em Perama. Foi a catástrofe. Em breve todas as famílias da cidade ficariam às escuras, sem poder cozinhar ou aquecer-se. Mas o sindicato reuniu-se e tomou uma decisão.
Criaram piquetes que vão de prédio em prédio fazer ligações directas a quem foi cortada a luz. «Já que não conseguimos garantir emprego aos trabalhadores, pelo menos garantimos que não lhes tirem tudo», explicou Akiz Antoniou, dirigente sindical.
Depois, quando, caso a caso, os utentes são processados e chamados a tribunal, elementos do sindicato acompanhados por advogados, vão testemunhar a seu favor e assumir a responsabilidade.
Pagar a Otomanos? Não
Este tipo de medidas, decididas pelos sindicatos da Central PAME, ligada ao Partido Comunista da Grécia, está a multiplicar-se por todo o país. No estádio avançado a que a crise chegou, é visto como a única forma possível de resposta.
Pressupõe uma atitude de hostilidade e desconfiança em relação ao Estado, visto como uma entidade exterior e inimiga do povo. Ao nível individual, esta atitude traduz-se numa série de comportamentos dos quais o mais relevante para a economia é a fuga aos impostos.
Para muitos gregos, não os pagar é uma necessidade, mas também um orgulho. E o contrário seria uma vergonha. Sempre foi assim, explica Alexandre Yannakis, professor de História da Grécia na Universidade de Atenas. «A Grécia passou a maior parte da sua História ocupada por potências estrangeiras. Eram situações de opressão inexorável, mas que chocavam com o sentido de grandiosidade e superioridade cultural que os gregos sempre tiveram. O resultado era a humilhação. O caso mais evidente é o do Império Otomano. O seu domínio era exercido principalmente através da cobrança de impostos. Por isso, para um grego, era sinal personalidade e de honra não pagar esses impostos. Era a única resposta possível à humilhação. Ninguém queria assumir a vergonha de pagar impostos aos Otomanos. Hoje em dia, as pessoas têm em relação ao Estado grego a mesma atitude».
A desobediência assume muitas formas. Algumas são visíveis por todo o lado. Por exemplo, fuma-se em todos os cafés, bares e restaurantes. Há uma lei que o proíbe, mas ninguém cumpre.
Quando a lei foi promulgada na sequência das directivas europeias nesse sentido, muitos disseram que seria o grande teste à autoridade do então primeiro-ministro, Giorgio Papandreou. Se ele conseguisse fazer os gregos deixar de fumar nos recintos fechados, então haveria uma esperança para o país dentro da União Europeia. Não o conseguiu. Papandreou já se demitiu, e os gregos continuam a fumar.
Outra pequena desobediência ostensiva é a recusa dos motociclistas em usar capacete. As motos são um dos meios de transporte mais populares nas cidades gregas, mas quase ninguém coloca o capacete. Na melhor das hipóteses trazem-no debaixo do braço.
Um anúncio publicitário a uma marca de capacetes exibe um fotografia com um motociclista nessa pose e a frase : «Pode também usá-lo como mala».
Sem dinheiro não há vícios
Este tipo de insubordinação não é de agora. Já outras formas de desobediência surgiram no início do Verão, quando se percebeu que a crise não era brincadeira.
Grupos de cidadãos de um bairro, de uma aldeia, uma empresa ou de uma ilha começaram a reunir-se e a tomar decisões. Em conjunto imaginavam o que poderiam fazer para escapar à avalanche que se aproximava. Em muitos casos, decidiu-se não consumir produtos que não tivessem origem na própria comunidade. Noutros comprometeram-se a não usar serviços bancários. Noutros ainda, mais radicais, optou-se ainda por não usar mais o dinheiro. Já que não o tinham, cada um produzia apenas o que produzia ou o que os vizinhos produziam num sistema de trocas directas, sem utilização de moeda.
Noutros meios, o boicote ao sistema consegue ainda ser mais radical. As pessoas entreajudam-se sem sequer fazerem trocas directas. Num bar da zona de Monastiraki, em Atenas, ninguém paga pelas bebidas. «Aqui, nós, os empregados não recebemos salário», explica Ibrahim, que trabalha ao balcão do bar, que não tem nome. «O patrão deixou de pagar, porque diz que não pode, mas deixa-nos estar cá, e não exige lucros, ou dinheiro algum. Há pessoas que vêm aqui e oferecem garrafas de bebidas. Nós servimos de graça a quem quiser beber. Quem não quiser, não bebe.»
É como se o bar não existisse. Mas existe, está aberto e cheio de «clientes». «Convenceram as pessoas de que não é possível viver fora deste sistema capitalista», diz Joanna, jornalista desempregada, cliente do bar sem nome. «Mas é mentira. Se sairmos do sistema, a vida continua. É essa a grande descoberta de muitos gregos, neste momento. E essa foi a grande lição desta crise. Depois disto, nada será coo antes».
Esta convicção está na origem de muitos comportamentos desobedientes e anti-sistema. As pessoas começaram a acreditar que a crise não tem solução, e que apenas tenderá a piorar. «Isto é apenas o início», diz Violeta, estudante de arte. «No próximo ano, daqui a dez anos, tudo estará muito pior. É um caminho sem retorno. A Grécia nunca mais será um país rico, como pensava que era».
«Eu sei que vou ser pobre», diz Giannis Papatriantafiloy, músico de Salónica. «Serei pobre porque vivo num país pobre. E não me importo. Não preciso de grandes coisas. Só do básico. De comida e de música. E isso eu posso ter sozinho, plantando uns legumes num quintal, com uns amigos. Não preciso do Estado, nem da UE, nem dos bancos».
«O Estado é o caos»
Fotis Sioutas, também músico, acredita no nascimento de uma sociedade grega fora do Estado. «Aquilo que a Angela Merkel e os alemães dizem de nós, que somos indisciplinados, sem capacidade de trabalhar, é verdade em relação ao Estado grego, não aos cidadãos deste país. A Europa desconfia dos gregos por causa do Estado. E nós comportamo-nos como desobedientes e desrespeitadores por causa do Estado. Nas nossas relações pessoais não somo assim. Se eu marco um ensaio com os meus colegas, ou um encontro com amigos não chego atrasado. Na minha música, levo o meu trabalho muito a sério. A maioria dos gregos tem esta atitude. O Estado é que é o caos. Os gregos, se lhes derem uma oportunidade, irão mostrar que têm outra natureza».
Para quem tem esta atitude, desobedecer, ignorar as regras, sair do sistema, pode ser a solução para a crise. Principalmente quando nas vésperas do anúncio de mais um pacote de austeridade, não se vislumbra mais nenhuma.
* Jornalista do “Público”
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