do NÁUFRAGO DA UTOPIA

Na Arábia Saudita os relógios estão permanentemente atrasados em... um milênio.
Este bizarro despacho é da Agência France Presse:
"Uma mulher, condenada à morte por bruxaria, foi decapitada nesta segunda-feira, anunciou o ministério saudita do Interior...
Amina bent Abdelhalim Nassar foi executada na província de Jawf (norte).
A prática de bruxaria é estritamente proibida pelo Islã.
Esta decapitação eleva a 73 o número de execuções na Arábia Saudita desde o mês de janeiro.
O estupro, o homicídio, a apostasia, o roubo a mão armada e o tráfico de drogas são passíveis de pena capital na Arábia Saudita, que aplica estritamente a sharia (lei islâmica)".
Ou seja, ao lado dos piores crimes, os bárbaros sauditas colocam a apostasia (renúncia de uma religião ou crença, abandono da fé, renegação).
Se um saudita praguejar à maneira dos espanhóis anticlericais --os quais, usando linguagem mais crua, diziam (dizem?) defecar no Todo Poderoso--, isto lhe custará a vida.
A existência desses bolsões intocados pelo iluminismo, onde até hoje perduram as trevas medievais, colocam um dilema para as nações e povos que seguiram galgando os degraus da civilização --da qual o respeito aos direitos individuais (liberdade religiosa inclusa) é um dos principais pilares, uma condição sine qua non.
Há os que pregam a conivência com a barbárie para que seja preservada a integridade cultural dos povos primitivos --o que, em última análise, implicaria permitir-se aos indigenas continuarem praticando o canibalismo e a algum Vlad Dracul redivivo, empalar à vontade os inimigos derrotados (o cambojano Pol Pot não ficava longe disto...).
Há os que consideram ser dever dos civilizados lutar contra a barbárie.
Que, portanto, devem ser multiplicadas as pressões para forçar os bárbaros a abandonarem as práticas intolerantes e desumanas.
E que não deve haver omissão quando governos impopulares exterminam seus cidadãos para sustentar-se no poder por meio da intimidação e do terror, como faz Bashar al-Assad, o açougueiro de Damasco.
Infelizmente, as nações que deveriam defender a civilização têm-se apresentado divididas por seus interesses mesquinhos em tais ocasiões.
Algumas se omitem, o que impede o problema de ser resolvido por um simples embargo econômico --o qual, se fosse total, certamente teria prostrado a Líbia e agora prostraria a Síria, sem necessidade do recurso às armas.
Algumas querem ir além da mera defesa de cidadãos massacrados, incorrendo em excessos como os cometidos na campanha contra Muammar Gaddafi.
O mandato conferido pela ONU às forças da Otan era apenas para impedir um genocídio em Benghazi, a cidade rebelde.
Quando extrapolaram sua missão, tornando-se as principais responsáveis pela reviravolta militar e consequente derrubada do tirano, deram péssima imagem às intervenções desse tipo, reforçando a posição dos que defendem o sagrado direito ao canibalismo.
Quando extrapolaram sua missão, tornando-se as principais responsáveis pela reviravolta militar e consequente derrubada do tirano, deram péssima imagem às intervenções desse tipo, reforçando a posição dos que defendem o sagrado direito ao canibalismo.
Ruim de um jeito, ruim do outro. A racionalidade parece banida do planeta, tornando atual a soturna frase com que Edgar Allan Pöe iniciou seu conto "Metzengerstein":
"O horror e a fatalidade têm tido livre curso em todos os tempos. Por que então datar esta história que vou contar?"



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