O PROVOCADOR
Como diria um comentarista enterrado vivo pelo seu preconceito: “Hoje, qualquer miserável pensa em ter a casa própria.”
É esse o recado que nos passa, de forma bem mais otimista e higiênica, uma recente pesquisa sobre a intenção de o brasileiro adquirir um imóvel nos próximos dois anos. Leia aqui.
O Instituto Data Popular constatou que o maior e mais distante sonho do brasileiro passou a ser um projeto de curto prazo para 11 milhões de famílias integrantes da chamada classe C.
Esse segmento social ascendente responde por 57,6% do total pesquisado.
As classes A e B respondem por 15,2% da intenção de compra, enquanto que 27,2% das famílias pertencentes às classes D e E têm o mesmo desejo. A pesquisa não informa quantos não alimentam essa perspectiva.
Isso não muda o essencial: em tese, mais de metade dos prováveis imóveis residenciais a serem vendidos em breve estão na mira de quem provavelmente só conhecia profundamente a lógica do aluguel.
Se somarmos as classes C, D e E teremos 84,8% dos potenciais futuros donos de escrituras fora da lógica que norteou nos últimos 512 anos o mercado imobiliário deste País. É um novo alicerce em construção.
A economia do Brasil não para de nos surpreender. Estamos prestes a nos tornar a quinta maior potência do planeta, já que a crise europeia deve permitir que ultrapassemos a França até o final de 2012.
Quem diria, ficaremos atrás apenas de EUA, China, Japão e Alemanha. Sei.
Como pode, em meio a esse estrondoso e recente cenário de crescimento, diante de tamanha revolução econômica, termos encerrado mais um verão soterrados por tragédias, enchentes, desabamentos e tantas pessoas mortas dentro de seus lares?
Não quero ser agourento, mas há algo de errado nisso tudo.
Todo ser humano merece um teto, é um direito universal. Mas, além de novas moradias, alguma esperança e muito esforço deveriam estar canalizados para garantir que não se construa um novo Brasil à margem e por cima de escombros. Isso já foi feito. E não deu certo.
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