Blog da Boitempo
Por Emir Sader.
O poder de convencimento da palavra escrita foi uma das maiores conquistas da razão humana. Poder articular argumentos, abstratos e concretos, vincular premissas a conclusões, promoveu as maiores conquistas do conhecimento humano.
Mas a palavra separada da ação e da realidade concreta sempre trouxe embutida também o risco da autonomização da linguagem em relação ao mundo. Quando os que trabalham com a palavra se autonomizam da realidade, tornam a linguagem um fim em si mesmo, desnaturalizam o papel da palavra, de expressar o real, de desvendar seus significados, de descrevê-lo poética ou dramaticamente.
A manipulação midiática que preside os meios de comunicação dos nossos países tem nesses mecanismos seu instrumento essencial. Dizer qualquer coisa e não responder no dia seguinte pelo que se disse, dado que se trata de meios perecíveis em poucas horas. Prever catástrofes, fazer denúncias, difundir clichês – todas essas medidas desmoralizam o poder da palavra.
Prostituem a palavra, a linguagem, fazem dela instrumento de enganação, de ilusão. A quantidade de crônicas diárias na imprensa – nos editoriais de política, de economia, nos suplementos (supostamente) culturais – que vivem das palavras vazias, dos discursos fechados, que remetem a si mesmos, com lógicas redondas, que retornam sempre a premissas não demonstradas – é infinita.
Desmoralizar as palavras serve a quem não quer demonstrar nada, não quer decifrar nada. Ao contrário, se valem da linguagem para camuflar a realidade, os interesses que a articulam, de onde estão escrevendo, quem os paga, a quem devem o espaço público que tem.
É uma ilusão, então, crer que a palavra serve para expressar coisas. Ela pode servir para esconder as coisas, camuflar a realidade, como acontece tanto na mídia.
Recuperar o prestígio da linguagem, da palavra, é acopla-la à realidade, fazer dela instrumento de desvendamento do real, de expressão dos sentimentos e valores humanos, na contracorrente atual.
***
Emir Sader nasceu em São Paulo, em 1943. Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, é cientista político e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). É secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e coordenador-geral do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Coordena a coleção Pauliceia, publicada pela Boitempo, e organizou ao lado de Ivana Jinkings, Carlos Eduardo Martins e Rodrigo Nobile a Latinoamericana – enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (São Paulo, Boitempo, 2006), vencedora do 49º Prêmio Jabuti, na categoria Livro de não-ficção do ano. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quartas.
O poder de convencimento da palavra escrita foi uma das maiores conquistas da razão humana. Poder articular argumentos, abstratos e concretos, vincular premissas a conclusões, promoveu as maiores conquistas do conhecimento humano.
Mas a palavra separada da ação e da realidade concreta sempre trouxe embutida também o risco da autonomização da linguagem em relação ao mundo. Quando os que trabalham com a palavra se autonomizam da realidade, tornam a linguagem um fim em si mesmo, desnaturalizam o papel da palavra, de expressar o real, de desvendar seus significados, de descrevê-lo poética ou dramaticamente.
A manipulação midiática que preside os meios de comunicação dos nossos países tem nesses mecanismos seu instrumento essencial. Dizer qualquer coisa e não responder no dia seguinte pelo que se disse, dado que se trata de meios perecíveis em poucas horas. Prever catástrofes, fazer denúncias, difundir clichês – todas essas medidas desmoralizam o poder da palavra.
Prostituem a palavra, a linguagem, fazem dela instrumento de enganação, de ilusão. A quantidade de crônicas diárias na imprensa – nos editoriais de política, de economia, nos suplementos (supostamente) culturais – que vivem das palavras vazias, dos discursos fechados, que remetem a si mesmos, com lógicas redondas, que retornam sempre a premissas não demonstradas – é infinita.
Desmoralizar as palavras serve a quem não quer demonstrar nada, não quer decifrar nada. Ao contrário, se valem da linguagem para camuflar a realidade, os interesses que a articulam, de onde estão escrevendo, quem os paga, a quem devem o espaço público que tem.
É uma ilusão, então, crer que a palavra serve para expressar coisas. Ela pode servir para esconder as coisas, camuflar a realidade, como acontece tanto na mídia.
Recuperar o prestígio da linguagem, da palavra, é acopla-la à realidade, fazer dela instrumento de desvendamento do real, de expressão dos sentimentos e valores humanos, na contracorrente atual.
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Emir Sader nasceu em São Paulo, em 1943. Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, é cientista político e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). É secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e coordenador-geral do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Coordena a coleção Pauliceia, publicada pela Boitempo, e organizou ao lado de Ivana Jinkings, Carlos Eduardo Martins e Rodrigo Nobile a Latinoamericana – enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (São Paulo, Boitempo, 2006), vencedora do 49º Prêmio Jabuti, na categoria Livro de não-ficção do ano. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quartas.
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