CARTA CAPITAL
O socialista François Hollande tem boa chance de derrotar Sarkozy, ameaçando a 
“saída” germânica para a crise, onde a Alemanha preserva a sua competitividade. 
Foto: Foto:Philippe Wojazer/Reuters/Latinstock

A sociedade europeia está com a faca na garganta. Nós já estivemos na mesma situação, conhecemos o roteiro de cor. Quem ameaça a jugular dos europeus? Os suspeitos de sempre: bancos, hegde funds e corretoras. Não fosse assim, como explicar a queda generalizada das bolsas de valores nas principais praças da Zona do Euro ocorrida ontem, segunda 23? Ou a segunda recessão em três anos imposta à Espanha, acompanhada da escalada dos juros cobrados para financiar o governo espanhol, um evidente ataque especulativo assistido (nos dois sentidos) pelo Banco Central Europeu?

Os jornais de hoje. terça 24, trazem as justificativas dos “investidores”: a Holanda não parece disposta a desmontar o aparato de proteção social erigido durante décadas; na França, idem, o socialista François Hollande tem boa chance de derrotar Sarkozy, ameaçando a “saída” germânica para a crise, onde a Alemanha preserva a sua competitividade, dá a cartas e os demais ficam com os cortes orçamentários em salários, aposentadorias, saúde, segurança, educação.

O “não” holandês preocupa. Quando a sociedade se manifesta, é problema. Do ponto de vista “deles”, claro. E talvez de Miriam Leitão, a precursora do jornalismo econômico à pururuca, uma velhinha de Taubaté das estatísticas, a última a defender com unhas e dentes os interesses do mercado financeiro, como se falasse “em defesa da sociedade”. Mas há uma diferença: a personagem de Luis Fernando Verissimo tinha charme, é inegável.

Por meio de seus porta-vozes, a alta finança promete que mais três anos de desmonte resultarão em algo proveitoso. Eles têm a razão deles: tirarão nesse período proveito do empréstimo trilionário dado pelo BCE, a taxas de juros negativas. E farão o que sabem fazer: vão especular com os títulos espanhóis, logo mais com franceses, faturam com os títulos brasileiros, e assim por diante.

Na América do Sul, a bola da vez, no momento, é a Argentina, após o governo Cristina Kirchner encampar a petroleira YPF, sob o argumento de que a empresa não cumpriu o prometido em um segmento estratégico. Controlada pelos espanhóis, a companhia remeteria seus lucros, inclusive para fazer frente à dificuldade de fazer caixa na Espanha, em vez de investir na ampliação da sua capacidade produtiva, algo que implicaria assumir riscos.

Alinhada aos interesses do mercado financeiro, a agência de classificação de riscos Standard & Poor´s saiu na frente e rebaixou a nota argentina. Contribuiu assim para elevar a temperatura do ambiente especulativo, caro ao mercado financeiro. Logo mais tiram a faca da botina.

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