ACERTO DE CONTAS
Esta semana o Governo Dilma anunciou a mais importante medida para conter o vale-tudo do oligopólio bancário no Brasil: a utilização do Banco do Brasil e da Caixa Econômica para aumentar a concorrência bancária.
A proposta é simples: utilizar uma estratégica de baixo custo de taxas nos dois bancos federais, forçando uma diminuição no custo final ao consumidor nas taxas de juros.
Como se sabe, se observarmos pelo lado da oferta, de forma reduzida a taxa de juros final ao consumidor seria função das seguintes variáveis:
Custo de oportunidade na ausência de risco: o que o banco faria com o dinheiro caso quisesse comprar títulos do Governo. Neste caso a SELIC seria uma proxy razoável, observados os encargos.
Custos bancários: custo com a operação de intermediação, como agências, salários, etc.
Impostos
Risco da inadimplência: a taxa final deve ser suficiente para cobrir possíveis devedores duvidosos
Lucro bancário: afinal, ninguém é de ferro.
Como a variável 1 pode se aproximar do custo da captação do recurso por parte do banco, podemos considerar que a diferença entre a taxa final (a soma das variáveis) e o custo de oportunidade seria o spread bancário.
Esta estrutura (reduzidíssima) de análise, nos leva a algumas comparações curiosas.

Enquanto a taxa de juros do crédito consignado ficou em média por volta de 24%, a do financiamento de veículos ficou em torno de 30%, a do financiamento à pessoa física gira na casa dos 50% e a do cheque especial pula para exorbitantes 150% ao ano.
Do ponto de vista conceitual, a única variável que difere significativamente nos três tipos de operação de empréstimo é o risco da inadimplência, já que o devedor de cheque especial representa mais risco de não pagamento.
Mas mesmo assim, não há modelo que justifique uma passagem de 5% (financiamento à PF) para 150% (cheque especial).
É como se o banco considerasse mais arriscado oferecer cheque especial a seu correntista do que ser assaltado voltando a pé do Bairro do Recife até Boa Viagem, no meio da madrugada.
Obviamente não existe econometria no mundo capaz de explicar uma diferença de spread como essa.
No fundo a taxa de juros é determinada pela demanda do produto financeiro, e aí os bancos sempre contaram com a complacência do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal para cobrarem o valor que desejassem.
Isso vale para a taxa de juros cobrada pelos bancos, e também pelas tarifas bancárias.
O BB e a CEF sempre fizeram de conta que estimulavam a concorrência, e a patuléia acreditava.
Plutocracia brasileira sonha com mercado livre,
mas gosta mesmo de oligopólio
Na verdade os dois bancos públicos cobravam sempre um pouco menos que os bancos privados. Enquanto um DOC saia R$ 8,00 no Bradesco, na CEF saía por R$ 7,50. Enquanto a taxa de cheque especial do Citibank era de 160% ao ano, no BB ficava em 155%.
Esse círculo nunca foi rompido. o BB e a CEF nunca cumpriram realmente seu papel dentro do sistema financeiro, que era o de regular o sistema via aumento de concorrência.
Na verdade do jeito que estavam atuando, não fazia o menor sentido continuarem como públicos, já que não faziam nada de efetivo.
Ao contrário de outros setores, os bancos precisam de regulação via mercado. E o BB e a CEF podem jogar um papel relevante nisso, já que hoje a concorrência nos bancos comerciais não é muito grande. Como o custo de captação dos grandes bancos é significativamente menor, estes acabam praticando as taxas que desejam.
A plutocracia brasileira fala em economia de mercado, mas gosta mesmo é de oligopólio. Isso se verifica em quase todos os setores de grande valor agregado, como as concessões públicas.
Mesmo passando despercebida, esta medida do Governo Dilma com certeza foi a mais importante decisão microeconômica já tomada no sistema financeiro.
O preço das ações dos bancos caiu imediatamente. Poderia ser ruim se isso representasse aumento de risco, mas na verdade representa diminuição de pagamento de dividendos aos acionistas, acostumados ao lucro fácil.
Postar um comentário
-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;