PUBLICO.PT

386446_ighy30i1.jpg
"Parece não haver crime demasiado baixo para estes pinguins", escreveu 
George Murray Levick Foto: Foto: Museu de História Natural 


Hugo Torres

George Murray Levick foi um pioneiro no estudo dos pinguins-de-Adélia. Entre 1911 e 1912, acompanhou um ciclo inteiro de reprodução desta espécie, na Antárctida, algo que até hoje mais ninguém fez. Mas não publicou todas as suas descobertas: o capítulo sobre os hábitos sexuais destes pinguins foi deliberadamente escondido, devido aos “horrores” que continha.

No Verão que passou no Cabo Adare, a estudar estes animais, Levick começou a testemunhar algo de que não estava de todo à espera – e que muito o chocou. Os pinguins-de-Adélia apresentavam comportamentos sexuais absolutamente desviantes para a norma de gentleman eduardiano, que incluíam violações, pederastia e necrofilia.

Uma “depravação impressionante”, para usar as palavras do cientista, que fazia parte da segunda expedição do famoso Capitão Scott à Antárctida. Levick assistiu a relações homossexuais, a “machos arruaceiros” – os quais culpava pelos hábitos sexuais de toda a comunidade de pinguins-de-Adélia – a forçarem fêmeas e crias a fazerem sexo com eles, matando-os por vezes, e ainda a machos a copular com cadáveres (da mesma espécie).

Dada a sensibilidade da informação, Levick decidiu anotar todas estas observações em grego, para que apenas pudessem ser lidas por pessoas letradas e preparadas para o seu conteúdo. Quando voltou a Inglaterra, publicou o seu estudo numa comunicação em inglês a que chamou Natural History of the Adélie Penguin. Não toda a história natural dos pinguins-de-Adélia. O capítulo dos hábitos sexuais da espécie foi separado, para produzir um número restrito de cópias que foram distribuídas por algumas pessoas dos círculos mais educados.

O conhecimento pioneiro de George Murray Levick ficou assim circunscrito a um pequeno grupo de especialistas – e desapareceu com eles. Cinco décadas mais tarde, estudos idênticos revelaram ao mundo os “horrores” que o inglês pretendeu manter sob segredo, a fim de preservar a decência. O que
não se sabia na altura era que o inglês tinha sido o primeiro a descobri-los.

Até agora. Um curador do Museu de História Natural em Londres, Douglas Russell, descobriu uma cópia nos arquivos da instituição e decidiu publicá-lo no Polar Record, junto com uma nota analítica escrita pelo próprio Russell, e ainda por William Sladen e David Ainley. O trio de autores escreve que as observações de Levick eram “precisas, válidas e, em benefício da perspectiva histórica, publicáveis”, cita o Guardian.

Os comentários do cientista sobre o comportamento sexual da espécie, muitos deles datados, foram desvalorizados – sobretudo enquadrados no seu tempo e no contexto da viagem. A redescoberta do panfleto de Levick – que fundou em 1932 a British Schools Exploring Society, à qual presidiu até à sua morte, em 1956 – importa mais pelo conteúdo, apesar de algum dele estar já ultrapassado (hoje sabe-se, por exemplo, que a “necrofilia” nestes pinguins se deve ao facto de os animais reconhecerem a horizontalidade de um corpo como uma posição sexual).

Comentário(s)

-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;

Postagem Anterior Próxima Postagem

ads

ads