ISTOÉ Independente



Paulo Moreira Leite
Desde janeiro de 2013, é diretor da ISTOÉ em Brasília
Dirigiu a Época e foi redator chefe da VEJA, correspondente 
em Paris e em Washington. É autor do livro A mulher que 
era o general da casa -- Histórias da resistência civil à ditadura.

Sabemos desde a infância que nem a memória é neutra. Tem mais facilidade para guardar fatos agradáveis e esconder, em cantos obscuros do cérebro, episódios traumatizantes. Isso vale para todo mundo e também para a política.

Uma das falsas verdades de 2013 é dizer que Lula antecipou a campanha presidencial de 2014 ao falar que Dilma era candidata à reeleição. Falso. Inteiramente falso, como dizia um apresentador TV de antigamente. Basta consultar o calendário.

Lula lançou Dilma três meses depois de Fernando Henrique anunciar que Aécio era o candidato do PSDB.

O pronunciamento de FHC ocorreu em 4 de dezembro de 2012. O de Lula, em fevereiro de 2013.

Considerando que eu só precisei dar um Google para descobrir isso, cabe perguntar: por que ninguém reparou nisso antes?

Há três explicações. A primeira é uma ficção dentro da ficção. Depois de passar dois anos fingindo acreditar que  Lula pretendia voltar ao Planalto em 2014 – era uma forma de manter o ex-presidente na defensiva e constranger seus movimentos políticos –, a oposição é obrigada a aceitar a realidade de que Dilma será (como sempre foi) a candidata do PT à reeleição. Dizer que Lula “anunciou” a candidatura é uma tentativa de transformar em novidade uma notícia velhíssima, conhecida e confirmada pelos principais atores políticos.

Outro motivo está no piloto automático dos comentaristas e observadores ligados à oposição. Eles transformaram em mantra a tese de que tudo o que Lula e Dilma fazem tem como única e exclusiva finalidade preparar a vitória na próxima eleição. Medidas úteis e necessárias para o país, como a queda nos juros, o corte no ICMS da cesta básica e a preocupação com o emprego, são apresentadas como simples medidas eleitoreiras e, para empregar o adjetivo favorito dos desatualizados, populistas.

Sendo assim, quando Lula diz que Dilma é sua candidata, é porque resolveu “antecipar” um processo que estava resolvido com muita antecedência. Desde 1º de janeiro de 2011 se sabe que, apenas em caso de desastre, Dilma não poderia concorrer em 2014. Mas como isso não combina com o retrato de "fominha" que se tenta acoplar a Lula, a turma achou melhor dizer o contrário.

Mas é curioso tentar saber por que tanta gente acredita nessa versão de que Lula antecipou a campanha – e não FHC.

A resposta se encontra na dificuldade do PSDB de empolgar os eleitores com a mesma facilidade que exibe para animar os jornais e revistas. Apenas fatos relevantes podem alterar o curso de um processo político. E o PSDB tem dificuldades crescentes para produzir fatos relevantes no mundo das pessoas de carne e osso.

Na prática, ninguém reparou que FHC havia lançado Aécio no final de 2012. Por quê?

Porque ninguém sabe se a candidatura tucana é para valer. O candidato lançado por FHC não deixou a condição de político regional para se transformar em nome nacional.

Outro problema reside na articulação política. Além da monótona guerra interna contra José Serra, o futuro de Aécio depende, cada vez mais, da disposição e do fôlego de Eduardo Campos apresentar-se como concorrente da oposição. E este é o ponto.

Convém, então, acusar o PT de estar correndo na frente.

No fundo, parece até explicação de quem imagina que pode ser obrigado a achar uma desculpa mais adiante. Será? Ninguém sabe.

O que se sabe é que não está fácil enfrentar uma presidente com aprovação de 63%, vamos combinar.

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