Autor: Luis Nassif
Ruy Mesquita morreu antes do Estadão. Vai-se embora um dos mais dignos representantes de um tipo de jornalismo que vive seus estertores.
Era um conservador assumido, um membro da elite, sim. Mas trazia do conservadorismo paulista as características mais legítimas, a generosoidade dos grandes homens, expressa na maneira como a família acolhia exilados políticos de todas as nacionalidades. Nos tempos bicudos da repressão, acompanhava ao DOPS todos os jornalistas da casa denunciados como subversivos. Bem diferentemente do que fazia, por exemplo, Roberto Civita.
Na greve dos jornalistas, em 1979, o Jornal da Tarde - que ele dirigia na época - foi o único veículo a não punir nenhum de seus jornalistas, apesar da adesão quase total à greve. A retribuição dos jornalistas foi o de tornar o JT, nos anos seguintes, o mais brilhante jornal da imprensa brasileira.
Dia desses, o Mino Carta recordou um episódio meu com ele, do qual nem me lembrava dos detalhes. Houve um evento no Teatro Ruth Escobar, de resistência à ditadura. Nele, Ruy, Mino, Severo Gomes, Raimundo Pereira. Houve censura. Repetiu-se o evento algumas semanas depois.
Na época, eu trabalhava na Veja. Moleque ainda, senti o Dr. Ruy (como era chamado) muito ríspido com Mino. Na hora das perguntas, reagi contra uma afirmação sua, de que todas as ditaduras eram perniciosas, mas as de esquerda mais ainda, por serem mais duradouras. Referia-se à ditadura implantada por Pinochet no Chile.
Petulante, pedi a palavra e fiz uma aposta com ele:
- O senhor quer apostar como a ditadura do Pinochet vai levar muitos anos?
Perguntou qual a aposta. Na cara de pau, respondi:
- Um emprego no seu jornal.
Anos depois, o Klebinho me convidou para ser chefe de reportagem da Economia. O diretor de redação Fernando Mitre levou o nome a Ruy Mesquita. De início, ficou com um pé atrás:
- Outro turco?
De um lado, preconceito em uns tempos de Atalla, Maluf, Lutfalla. De outro, ironia com Mitre, que é "brimo".
Mitre provocou:
- É aquele jornalista que fez uma aposta com o senhor no Teatro Ruth Escobar.
Fui contratado.
Sua morte marca o fim simbólico de uma era.
