Direto da Redação


Não quero entrar no mérito da validade da reivindicação dos jovens nas ruas de São Paulo e do Rio (principalmente), envolvendo o preço das passagens dos ônibus e a qualidade do nosso sistema de transporte popular,  e propiciando, de quebra,   um interessantíssimo debate sobre a relação entre o lucro capitalista e os serviços de interesse público. O dado mais relevante nesses episódios , cá para nós, é que os jovens foram para as ruas, revivendo, simbolicamente, ainda que em doses pequenas,  momentos significativos da história da participação política no país.

É obvio que a espontaneidade da maioria dos participantes, que se foram convocando através da internet, aliada, possivelmente, a uma certa infiltração não desejada, trouxe para a manifestação alguns episódios que não podem ser aplaudidos, inteiramente desvinculados do foco das reivindicações. Mas esse é o ônus que tem que pagar a inexperiência de um movimento ainda sem organização, feito por uma geração que ainda não tinha participado ativamente de atos políticos de ocupação das ruas.  

É muito interessante verificar como ficam em cima do muro determinados “analistas” da mídia. Eles estão divididos entre a vontade de atribuir às manifestações , de forma oportunista, um caráter  de crítica voltada para o Governo Federal e seus aliados e  o medo de que o movimento se estenda a um universo bem maior , colocando em cheque outros aspectos sistêmicos que caracterizam a desigualdade social  no país.

É sintomático que a turma da manipulação tente tirar casquinhas indevidas das escaramuças ocorridas. Na edição deste sábado, 15.06, o Globo coloca como manchete: “Após semana de batalha, Haddad pede negociação”. E abaixo, sem grandes destaques, informações como “Alkmin defende PM”, “232 pessoas detidas”, “ mais de uma centena de feridos”, “fotógrafo atingido por bala de borracha em ação policial pode ficar cego”. Esse é o jeito usual de “informar deformando”, bem ao gosto desse jornalismo subserviente. A manchete em letras garrafais vincula a “batalha” ao “Haddad”,mas a polícia que praticou barbaridades é do Alkmin, o que “defende PM”.  Sutil , não?  Registre-se que Haddad tem sido, em toda a ocorrência, uma voz lúcida, buscando entendimentos.

É também oportuno não ignorar o recrudescimento de posturas ideológicas de um certo tipo de gente que simplifica o movimento como sendo apenas coisa de “vândalos” , justifica a desmedida e desproporcional violência da tropa de choque da polícia em nome da “ordem social” – como nos velhos tempos da ditadura -  e não percebe, ou não quer perceber, que talvez se esteja, aqui no Brasil, e felizmente (por que não?),  seguindo a canção que se vem entoando no mundo inteiro,  que  convida as pessoas a caminharem  e protestarem, não contra esse ou aquele governo, mas a favor de marcantes interesses coletivos.

Na esteira da manifestação tendo os transportes como foco, já surgiu outra, questionando os elevados gastos dos diversos entes governamentais com a Copa das Confederações. Já me manifestei sobre esse assunto.  Adoro futebol, já o declarei muitas vezes aqui. Mas o meu prazer começa no primeiro minuto do jogo e acaba quando se transcorrem os noventa minutos de cada partida. Gosto das táticas, da técnica, da criatividade e até da malandragem dos jogadores. Gosto do sentido coletivo que o jogo impõe. Fora das quatro linhas do gramado, porém, quase tudo é abominável:  as negociatas que cercam o esporte, dentro dos clubes e fora deles, nas entidades nacionais ou internacionais; o processo de alienação imposto subliminarmente aos brasileiros com a malfadada expressão “pátria de chuteiras”; essa avalanche de propagandas e exortações na mídia, todos querendo bicar um pouquinho nessa irônica  “festa do povo”; tudo isso me faz recordar as incontáveis vezes em que tinha que lembrar a um dos meus filhos que, enquanto ele chorava a derrota do seu clube, provavelmente os milionários jogadores derrotados comiam e bebiam à farta e divertiam-se com as periguetes de plantão. Afinal, ninguém é de ferro e paixão sincera pelo futebol é coisa pra torcedor, de preferência pobre, que está sendo, aliás, desconvidado para a  festa...

Sempre me preocupo em distinguir aquilo em que acredito – e que me leva  a formular críticas a setores políticos que usualmente aplaudo - das posturas dessa  oposição demotucana que, sem qualquer outra linha programática que não a da cartilha neoliberal, não perde oportunidade de exercitar seu mau agouro,  alternando dados estatísticos colhidos casuisticamente aqui e ali, para tentar  decretar  o insucesso das políticas governamentais da presidenta Dilma e a volta dos que já foram (ou já eram...).   Dilma foi muito feliz ao evocar a figura do velho do Restelo, referência aos que torcem ansiosamente pela derrocada do país...  Eu, sem qualquer preocupação diplomática, atualizo a imagem: trata-se das hienas, dos corvos e urubus de sempre...

Ao criticar certos aspectos no âmbito do governo, o que eu quero é mais ações que redundem na minimização das desigualdades e mais canais para as vozes do povo. Bem diferente dos ideais golpistas da oposição. Não sou petista – e já o revelei muitas vezes - , mas penso  que Dilma – por sua determinação no combate à pobreza e o seu DNA de ativismo político – pode e deve conduzir esse processo, da mesma forma que sei que os tucanos e companhia limitada estarão sempre dispostos a suprimi-lo. Simples assim... Se as reivindicações de rua aumentarem, não se iludam os golpistas de plantão, isso jamais virá a favor dos seus propósitos conspiratórios. E, como inimigos declarados das conquistas populares,  pode até  chegar a hora deles...

Sobre o autor deste artigo
Rodolpho Motta Lima
Advogado formado pela UFRJ-RJ (antiga Universidade de Brasil) e professor de Língua Portuguesa do Rio de Janeiro, formado pela UERJ , com atividade em diversas instituições do Rio de Janeiro. Com militância política nos anos da ditadura, particularmente no movimento estudantil. Funcionário aposentado do Banco do Brasil.

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