Marco Antonio Araujo
Em 27 anos ininterruptos da campanha Criança Esperança, o recorde de arrecadação foi de R$ 18,5 milhões, em 2011. Para minha conta bancária, seria uma revolução. Mas para os cofres das cinco mil instituições cadastradas, isso significa que, em média, cada uma recebe esmolentos R$ 3700 anuais — o equivalente ao borderô de um jogo do Ibis. E Se levarmos em conta que dizem ser beneficiadas quatro milhões de crianças, o valor per capita dessa monumental mobilização seria de centavos. E ainda tem gente que fala que o Bolsa-Família é um engodo.Até aí, quem vai reclamar de gente de bom coração que doa 7, 20 ou 40 reais, fora os impostos das ligações? De grão em grão, a galinha enche esse papo (furado). Tudo gente fina.
Mas, recentemente, algo envolvendo as Organizações Globo desmoralizou de forma definitiva essa suposta grande ação de solidariedade que, durante o próximo mês, vai entupir sua programação de artistas bem intencionados e crianças bem nutridas com seus depoimentos lacrimejantes.
Já furou a blindagem da Polícia Federal, do Ministério Público e da própria imprensa servil, a informação de que Família Marinho é acusada (e não negou) de ter sonegado do Fisco estimados R$ 600 milhões, por ocasião das transmissões da Copa de 2002. Dinheiro público, mermão. Ou, para efeito de comparação, 32,5 edições do Criança, isso levando em conta o teto de arrecadação.
Haja esperança, não é mesmo? Mais do que tudo que em três décadas foi arrecado por iniciativa das almas imaculadas que todo ano ligam para o tal 0800. Na minha humilde avaliação, é o maior estelionato da história desse País. Equivale a quatro “mensalões”, usando como cálculo o maior dos polêmicos e ainda imprecisos valores atribuídos ao esquema petista. Nada mal.
De forma nenhuma estou insuflando um boicote ao show de pieguice e solidariedade que todo ano mobiliza anunciantes, estrelas e asteroides da Velha Senhora. Cada um faz do seu dinheiro o quem bem entende. Mas sugeriria que aqueles trabalhadores que chacoalham em ônibus, trens e metrôs que pensassem melhor na hora de investir sua cota suada de bom mocismo. Sai mais barato, e com certeza é mais eficiente, somar esforços às multidões que saem às ruas para carregar mais uma das tantas faixas de reivindicações urgentes e indiscutíveis. O meu slogan eu já criei: “O povo não é bobo, o meu eu quero em dobro!”
O Provocador
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