Em uma dessas tardes do meio de semana, em que tive a sorte de estar em casa, assisti, no Canal Brasil, ao programa “Faixa Musical”, que apresentou um show de Zizi Possi, em comemoração dos seus 30 anos de carreira, com direito a convidados ilustres como Roberto Menescal, Alcione, Ana Carolina, Ivan Lins, Alceu Valença, e músicas de Vinícius, Cartola e outros do gênero.
Um espetáculo! Um verdadeiro festival da nossa música popular que, anos atrás, atravessou fronteiras e afirmou o cancioneiro nacional como acervo cultural de admiração universal. Como pode uma cantora como Zizi estar hoje tão distante da mídia brasileira?
E vieram outras chamadas, mencionado outros musicais e/ou clips da programação do canal, com a presença de Lenine, Rita Lee e outros, e incluindo o filme de Jorge Mautner, um dos ícones da ambiência musical daqueles tempos, e o programa “Som do vinil”, destinado a contar a história dos grandes discos de vinil produzidos na nossa história musical.
Quando a magia da música parecia ter se despedido do canal 66, alguns minutos depois, surgiu o documentário “Maria Bethania – Música é Perfume”, de 2005, sobre a vida e o processo criativo de uma das mais expressivas musas da nossa MPB
Desde o início do documentário – com Betânia recitando o poema “Minha Pátria” , de Vinícius – foram momentos de enlevo, que passaram pela voz da baiana cantando “Gente Humilde” (Vinícius e Chico) “Tarde em Itapoã” (Vinícius e Toquinho), “Luar de Sertão” (Catulo) “As pastorinhas” (Braguinha e Noel), “Olhos nos olhos” (Chico Buarque), “Negue” (Adelino Moreira) “Samba da Bênção “ (Vinícius e Toquinho). E houve mais: Betânia reverenciando Villa-Lobos, revivendo o canto africano de nossas origens ou celebrando o aniversário de Dona Canô ao lado do irmão e do povo, ao som de “Se todos fossem iguais a você”. E muitos, muitos depoimentos interessantes sobre a cantora, vindos de Caetano, Chico, Gil. Miúcha, Nana Caymmi e outros, inclusive da própria Dona Canô, tendo como pano de fundo Santo Amaro da Purificação.
Por que resolvi trazer para a coluna uma simples tarde de lazer musical, em meio a tantos problemas que o país enfrenta, no campo político, econômico ou social? A que vem tudo isso? É que essa tarde de encantamento me convidou não apenas a retornar a um passado glorioso da música nacional - um tempo em que a gente se dividia entre as vozes desses monstros da MPB, e mais Elis Regina, Nara Leão, Milton, Djavan e tantos outros, mas também a refletir sobre como nós, os brasileiros, estamos cada vez mais – dentro de padrões que parecem planetários - absorvendo a ideia do descartável, que não apenas se refere às coisas materiais – feitas para perecerem rapidamente e/ou para serem substituídas de imediato – mas também às imateriais, culturais , que durante muito tempo marcaram o nosso espírito, a música entre elas.
Tudo isso me recolocou com os pés no chão, ou fora dele – como costumam pedir as atuais celebridades musicais ao seu público. Lembrei-me que , queiramos ou não, o tempo é das Anitas e dos Telós, dos Luans, do funk vulgar que desmerece suas origens. Um tempo em que música virou “som”, muitas vezes sinônimo perfeito de “barulho” e em que a beleza das letras e das melodias que invadiam o nosso íntimo ou fervilhavam nas ruas como denúncia social foram substituídas por gritinhos histéricos, rebolados sensuais e, aproveitando o que disse Ruy Castro em outro contexto, música feita nas coxas... Difícil não perceber, depois dessa tarde no Canal Brasil, como o nosso verdadeiro DNA musical está longe dessa coisa pasteurizada, pré-fabricada e vulgar que é impingida aos brasileiros em geral.
Pensei nos nossos canais abertos de tevê que, na ânsia única provocada pelo “mercado” da audiência e do lucro, naquele mesmo horário invadiam os lares brasileiros com baboseiras de todo o gênero, quando poderiam – e deveriam – nas tardes como nas noites, reservar ao menos alguns de seus espaços para a valorização da nossa cultura, garantindo, por um lado, a perpetuação de nossas verdadeiras celebridades, e por outro, ajudando a construir a indispensável memória nacional e o crescimento cultural do povo.
Previno-me contra a acusação de saudosismo, fazendo eu mesmo uma reflexão sobre se essa visão melancólica não teria a ver com o passar do tempo e com ideias românticas dessas que sempre fazem a gente buscar no passado uma certa compensação para as eventuais coisas ruins do presente, seja em que campo for. Mas não é isso, seguramente não é isso, não se trata de valorizar o passado pelo passado, mas de querer enriquecer o presente. Repetindo uma frase de Mário de Andrade que já citei outras vezes aqui no DR, ninguém pode (eu diria, ninguém deve) se libertar das teorias-avós que bebeu, pois é isso que faz a alma de um povo, é isso que constrói o espírito nacional. Condenar as coisas do passado a ser apenas passado, não fazer com que elas se mantenham no presente e se perpetuem no futuro, é uma forma perversa de, em tempos globalizados, matar a cultura.
É claro que há bastiões, redutos que resistem e persistem em manter iluminados os caminhos de nossa verdadeira música popular. O lamentável é que essas vozes estão em um campo alternativo que não é amplificado por quem podia (e, na minha opinião, tinha obrigação de) fazê-lo. Mais um dos tanto males que essa coisa de mercado e de consumo descartável trouxe para os nossos tempos.
Sobre o autor deste artigo
Rodolpho Motta Lima
Advogado formado pela UFRJ-RJ (antiga Universidade de Brasil) e professor de Língua Portuguesa do Rio de Janeiro, formado pela UERJ , com atividade em diversas instituições do Rio de Janeiro. Com militância política nos anos da ditadura, particularmente no movimento estudantil. Funcionário aposentado do Banco do Brasil.

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