Preconceito contra jovens da periferia e uma visão distorcida do país são uma coisa só

O Brasil está sempre discutindo o rolezinho -- mesmo quando não percebe.

Temos o rolezinho conjuntural, dos garotos e garotas da periferia que decidiram fazer concentrações em shopping centers. Quem nunca experimentou a condição de oprimido poderia fazer um exercício de empatia social para imaginar como é entrar num ambiente estranho, ser olhado como estranho, ouvir palavras estranhas.

Claro que se você puder levar 20, 50, 500, e até 1000 pessoas a seu lado, irá sentir-se melhor. Menos ameaçado, pelo menos.

Uma coisa é ser humilhado sòzinho por policiais que identificam o perigo pela cor da pele e pela grife do tênis. Outra é rir e vaiar atos desse tipo.

Mas temos o rolezinho estrutural. É um pensamento organizado, partilhado por aquele da turma que ainda não acordou para as mudanças do Brasil recente.

Duvida que temos um desemprego baixo. Torce para que a inflação seja mais alta do que é. Diz que o colapso econômico está na próxima curva. Afirma que em breve o Brasil está virando uma Argentina.
Não sabe como é viver num país que constrói um mercado de massa -- porque detesta gente.

Estamos falando do preconceito transformado em projeto de país. Nosso país tem um limite de crescimento, dizem. Tem vocação agricola, garantem. Não tem maturidade para a democracia, murmuram. Não pode seguir distribuindo renda.


O preconceito contra os meninos pobres e contra o país em que nascemos, vivemos e criamos nossos filhos é uma coisa só. Um encarna o outro, expressa o outro.
 
Como nação e como indivíduos, querem nos excluir do progresso e da civilização.
Mesmo nossos shopping centers - que uma perversidade consumista apresenta como ápice do convivio
social e da cultura -- devem continuar para poucos.

Mas as vitrines são vitrines, ensinava Gilberto Gil.

Paulo Moreira Leite
Diretor da Sucursal da ISTOÉ em Brasília, é autor de "A Outra História do Mensalão". Foi correspondente em Paris e Washington e ocupou postos de direção na VEJA e na Época. Também escreveu "A Mulher que Era o General da Casa".


ISTOÉ Independente


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