Quando examinava uma foto ruim ou ouvia um parceiro de profissão se queixar de que não tinha conseguido o melhor ângulo, o húngaro Robert Capa, nascido André Friedmann em Budapeste, costumava responder:

- É porque você não chegou perto o suficiente.

Ninguém chegou tão perto quanto ele – e, por isso, virou um mito, o maior fotógrafo de guerra da história. Com suas Leikas e Contax penduradas ao pescoço, ele chegava à linha de frente, enfrentava bombardeios, parecia não temer o perigo. Chegava tão perto que morreu aos 41 anos ao pisar em uma mina na Indochina, em 1954.

R Capa
Deixou um legado inigualável, como mostra com clareza e didaticamente o livroSangue e Champanhe, a Vida de Robert Capa (Editora Record), o jornalista, pesquisador e roteirista Alex Kershaw. É um daqueles livros indispensáveis para se conhecer um personagem fundamental do século 20, no 60º aniversário de sua morte.

Capa estava misturado aos primeiros soldados aliados que chegaram à praia de Omaha, na Normandia. Desceu dos barcos e correu com eles em direção à areia, enquanto as metralhadoras dos alemães varriam o mar. Fez fotos de perto e mostrou como ninguém um dos dias mais violentos da II Guerra. Logo depois, voltou para um dos navios porque precisava cumprir o prazo e encontrar um modo de fazer com que seus filmes chegassem aos escritórios da Life para serem revelados e, de lá, enviados à sede da revista nos Estados Unidos. Os filmes esperados chegaram às 21h do dia 7 de junho de 1944, com um bilhete de Capa:

- John (Morris, editor da revista), a ação toda está nos 35 milímetros.

Os rolos foram logo para a equipe de plantão e o processo de revelação começou. Houve tanta pressa que um dos técnicos cometeu um erro terrível: usou calor demais e a emulsão dos filmes derreteu. Morris examinou os quatro rolos, quadro a quadro, e descobriu que restavam apenas 11 fotos. Das 11, apenas nove poderiam ser impressas – e foram elas que ocuparam sete páginas da edição de 19 de junho da Life. Apesar do erro do técnico e do desastre, as nove fotos entraram para a história. Foram suficientes para causar impacto e virarem uma espécie de tesouro para o jornalismo. Nunca se viu nada igual.

O livro fala da vida de Capa desde seus primeiros tempos, a escolha da profissão, a vida agitada por trabalho, bebedeiras e conquistas amorosas. Ele foi a paixão da deslumbrante Ingrid Bergman, por exemplo, e só não se casou com ela porque tinha convicção de que isso atrapalharia suas futuras coberturas. Dormiu em um quarto apertado, durante a guerra, ao lado de John Steinbeck (As Vinhas da Ira), Ernest Hemingway (Por quem os Sinos Dobram), Herbert Matthews (o repórter do New York Times que subiu a Sierra Maestra para entrevistar Fidel Castro nos primeiros meses da Revolução Cubana), entre outras lendas do jornalismo, todos eles trabalhando como correspondentes.

É um livro fascinante, especialmente por mostrar uma época em que os repórteres não se escondiam em carros blindados nem se limitavam a reproduzir boletins oficiais, como muitos fazem nestes tempos ao cobrir conflitos armados. Eles estavam no local, conferindo de perto o que acontecia. Eram imagens reais de guerras reais, nada que se parecesse com as cenas de videogame que se viu na invasão do Iraque, por exemplo. Sangue e Champanhe é uma viagem pela História – e pelo jornalismo puro-sangue.




Sul 21



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