Os Estados Unidos agiram ativamente para derrubar João Goulart da Presidência e cogitaram até mesmo invadir o país caso o golpe fracassasse
Yan Boechat (yan@istoe.com.br)
A noite já havia caído sobre a Guanabara naquela sexta-feira de outono que marcava o fim de uma semana especialmente tensa no país quando o embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon, iniciou a transmissão de um longo telegrama ao Departamento de Estado Americano. Classificado como “Top Secret”, o documento era dividido em cinco partes e tinha como destinatários figuras do primeiro escalão do governo dos Estados Unidos, como o secretário de Defesa, Robert McNamara, e o secretário de Estado, Dean Rusk. Gordon ainda estava sob o impacto do incendiário discurso do então presidente João Goulart realizado duas semanas antes na Central do Brasil, no Rio, e impressionado com o imenso apoio popular à Marcha da Família com Deus. Ele acreditava na ameaça concreta de uma guerra civil no Brasil. Para ele, Jango estava determinado a dar um golpe e assumir poderes ditatoriais com o apoio de comunistas dispostos a transformar o País em uma espécie de China maoista da América do Sul. “Se eles tiverem sucesso”, escreve Gordon a seus superiores, “é bastante provável que o Brasil fique sob total controle comunista”.
O documento enviado no dia 27 de março de 1964 tinha intenções mais complexas do que o simples relato do estado das coisas no maior país da América Latina. Com a descrição alarmista, Lincoln Gordon pedia, também, autorização para colocar em prática um plano arriscado, porém ambicioso, conhecido como Brother Sam, que tinha como objetivo depor João Goulart da Presidência e entregar o poder a militares fiéis à ideologia americana de luta contra o comunismo. No telegrama enviado da embaixada americana no Rio, Gordon é explícito: “Recomendo que todas as medidas para preparar o envio clandestino de armas de origem não americana aos apoiadores de Castelo Branco em São Paulo sejam feitas o mais rápido possível (...) A entrega deve ocorrer à noite por submarino em uma área isolada ao sul de Santos, provavelmente próximo a Iguape ou ‘Gananeia’ (sic)”.
O pedido para envio de armas para apoiadores do general Castelo Branco era apenas uma, talvez a mais simples e a menor, de uma série de ações que os Estados Unidos pretendiam tomar caso o golpe de 1º de abril não saísse como se esperava. A operação de apoio aos militares golpistas brasileiros começou a ser desenhada dois anos antes com o apoio do presidente americano John F. Kennedy. Em gravações feitas no Salão Oval da Casa Branca em 1962 e 1963, Kennedy fala abertamente com Gordon sobre um golpe no Brasil (leia diálogos na página anterior). No último registro de conversa entre os dois, um mês e meio antes de o presidente americano ser assassinado no Texas, Kennedy pergunta a Gordon: “Você vê a situação caminhando para um ponto em que seria desejável interferir militarmente nós mesmos?”
A morte do mais carismático líder americano do pós-guerra não afetou os planos de intervenção no Brasil. Sob o comando de Lyndon Johnson, Gordon continuou com carta branca para conspirar contra o presidente brasileiro. Ele já vinha fazendo isso desde 1961, quando assumiu a embaixada americana no Brasil. Para apoiá-lo na missão, o Departamento de Estado enviou o coronel Vernon Walters, ainda em 1963, para ser o adido militar americano no Brasil. Walters, um poliglota que falava sete idiomas, havia sido o responsável, quase 20 anos antes, por fazer a interlocução entre os militares brasileiros e os americanos na campanha da FEB na Itália durante a Segunda Guerra Mundial. Na ocasião, tornou-se amigo de Castelo Branco, que comandava o efetivo de 20 mil pracinhas na Europa.
Ao longo de todo o ano que antecedeu a tomada de poder pelos militares, os americanos fizeram de tudo para enfraquecer o governo de João Goulart. Seja por meio de cancelamento de empréstimos via FMI ou Banco Mundial, seja financiando grupos que eram abertamente contra o presidente brasileiro, como o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, o Ipes. Ao mesmo tempo, Gordon e Walters tramavam com os militares brasileiros a melhor maneira de assumir o poder.
Foi no início da tarde do dia 31 de março que o embaixador americano finalmente recebeu uma resposta formal dos pedidos que havia feito quatro dias antes. Por meio de um telegrama enviado diretamente do Departamento de Estado, a Casa Branca informava que havia autorizado o envio de um porta-aviões, seis destróieres, petroleiros abastecidos com 130 mil litros de combustível, além de aviões, helicópteros e tropas para as proximidades da costa do Rio de Janeiro. As 100 toneladas de armas seriam enviadas para Campinas, e não para o litoral, por meio de seis aviões cargueiros. Cerca de 12 horas depois, o general Mourão Filho iniciou a marcha com suas tropas de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro disposto a tomar o poder. O resto é história.
Gordon acreditava – ou queria que seus superiores acreditassem – que haveria uma sangrenta guerra civil no país. Com o poder nas mãos dos militares já no dia 1º de abril, o embaixador informou ao secretário de Estado, Dean Rusk, que a intervenção não seria necessária. Tudo havia corrido melhor do que se esperava. Apenas os paulistas haviam pedido auxílio militar aos Estados Unidos.
ISTOÉ

A noite já havia caído sobre a Guanabara naquela sexta-feira de outono que marcava o fim de uma semana especialmente tensa no país quando o embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon, iniciou a transmissão de um longo telegrama ao Departamento de Estado Americano. Classificado como “Top Secret”, o documento era dividido em cinco partes e tinha como destinatários figuras do primeiro escalão do governo dos Estados Unidos, como o secretário de Defesa, Robert McNamara, e o secretário de Estado, Dean Rusk. Gordon ainda estava sob o impacto do incendiário discurso do então presidente João Goulart realizado duas semanas antes na Central do Brasil, no Rio, e impressionado com o imenso apoio popular à Marcha da Família com Deus. Ele acreditava na ameaça concreta de uma guerra civil no Brasil. Para ele, Jango estava determinado a dar um golpe e assumir poderes ditatoriais com o apoio de comunistas dispostos a transformar o País em uma espécie de China maoista da América do Sul. “Se eles tiverem sucesso”, escreve Gordon a seus superiores, “é bastante provável que o Brasil fique sob total controle comunista”.
REGISTRO
O presidente John Kennedy e o embaixador americano no Brasil,
Lincoln Gordon, no Salão Oval da Casa Branca
O pedido para envio de armas para apoiadores do general Castelo Branco era apenas uma, talvez a mais simples e a menor, de uma série de ações que os Estados Unidos pretendiam tomar caso o golpe de 1º de abril não saísse como se esperava. A operação de apoio aos militares golpistas brasileiros começou a ser desenhada dois anos antes com o apoio do presidente americano John F. Kennedy. Em gravações feitas no Salão Oval da Casa Branca em 1962 e 1963, Kennedy fala abertamente com Gordon sobre um golpe no Brasil (leia diálogos na página anterior). No último registro de conversa entre os dois, um mês e meio antes de o presidente americano ser assassinado no Texas, Kennedy pergunta a Gordon: “Você vê a situação caminhando para um ponto em que seria desejável interferir militarmente nós mesmos?”
A morte do mais carismático líder americano do pós-guerra não afetou os planos de intervenção no Brasil. Sob o comando de Lyndon Johnson, Gordon continuou com carta branca para conspirar contra o presidente brasileiro. Ele já vinha fazendo isso desde 1961, quando assumiu a embaixada americana no Brasil. Para apoiá-lo na missão, o Departamento de Estado enviou o coronel Vernon Walters, ainda em 1963, para ser o adido militar americano no Brasil. Walters, um poliglota que falava sete idiomas, havia sido o responsável, quase 20 anos antes, por fazer a interlocução entre os militares brasileiros e os americanos na campanha da FEB na Itália durante a Segunda Guerra Mundial. Na ocasião, tornou-se amigo de Castelo Branco, que comandava o efetivo de 20 mil pracinhas na Europa.
Ao longo de todo o ano que antecedeu a tomada de poder pelos militares, os americanos fizeram de tudo para enfraquecer o governo de João Goulart. Seja por meio de cancelamento de empréstimos via FMI ou Banco Mundial, seja financiando grupos que eram abertamente contra o presidente brasileiro, como o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, o Ipes. Ao mesmo tempo, Gordon e Walters tramavam com os militares brasileiros a melhor maneira de assumir o poder.
Foi no início da tarde do dia 31 de março que o embaixador americano finalmente recebeu uma resposta formal dos pedidos que havia feito quatro dias antes. Por meio de um telegrama enviado diretamente do Departamento de Estado, a Casa Branca informava que havia autorizado o envio de um porta-aviões, seis destróieres, petroleiros abastecidos com 130 mil litros de combustível, além de aviões, helicópteros e tropas para as proximidades da costa do Rio de Janeiro. As 100 toneladas de armas seriam enviadas para Campinas, e não para o litoral, por meio de seis aviões cargueiros. Cerca de 12 horas depois, o general Mourão Filho iniciou a marcha com suas tropas de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro disposto a tomar o poder. O resto é história.
Gordon acreditava – ou queria que seus superiores acreditassem – que haveria uma sangrenta guerra civil no país. Com o poder nas mãos dos militares já no dia 1º de abril, o embaixador informou ao secretário de Estado, Dean Rusk, que a intervenção não seria necessária. Tudo havia corrido melhor do que se esperava. Apenas os paulistas haviam pedido auxílio militar aos Estados Unidos.
Foto: Bettmann/Corbis/Latinstock
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