A estratégia estadunidense de projetar seu poder imperial por meio de fundamentalistas islâmicos de aluguel chegou a ponto sem retorno.






Glen Ford, do Black Agenda Report

BAR
O Exército Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) proclamou seu califado e o mundo jamais será o mesmo.

Embora o alcance territorial da entidade jihadista mude - talvez desapareça - a depender das sortes dos combatentes, a emergência de um "Estado Islâmico" é sinal do colapso da estratégia imperialista norte-americana para o mundo muçulmano – mais exatamente nas regiões árabes do islã.

"A legalidade de todos os emirados, grupos, estados e organizações torna-se nula pela expansão da autoridade do califa e de suas tropas”, disse Abu Mohamed al-Adnani, porta-voz dos que lutam pelo Estado Islâmico do Iraque e da Síria. "Escutem o califa e obedeçam-no. Apoie o Estado que a ele pertence e que cresce a cada dia".

Receba isso como uma declaração de independência salafista – não só em relação à al-Qaeda, cuja marginalidade na região foi atestada quando sua seção síria, al-Nusra, jurou fidelidade ao EIIL – mas em relação às monarquias árabes e às agências ocidentais de espionagem que nutriram a rede jihadista internacional por quase duas gerações.

O Califado ameaça não somente seus adversários mais imediatos – os governos majoritariamente xiitas da Síria e do Iraque - mas também os potentados dos Emirados Árabes, Qatar, Kuwait e a mãe de toda corrupção monárquica no coração da arábia sunita: a família real saudita. A ameaça é literal: contra "todos os emirados, grupos, estados e organizações" que não reconhecem que o EIIL é a encarnação do islã em forma de guerra.

A estratégia estadunidense de projetar seu poder imperial por meio de fundamentalistas islâmicos de aluguel chegou a ponto sem retorno. A rede jihadista internacional - que não existia antes da CIA, a Arábia Saudita e o Paquistão criarem-na para enfraquecer o esquerdista governo secular afegão em 1979 – tornou-se incontrolável.

Qualquer que seja a resposta militar norte-americana, o plano traçado em 2011 para a Líbia, a Síria e o Iraque está arruinado, baseado como estava na implementação de confiáveis jihadistas de aluguel para a Otan e a realeza árabe.

Pior, os potentados petroleiros árabes entendem perfeitamente que seus regimes estão em grave perigo. Os sauditas, em particular, justificam o monopólio das riquezas da Península Arábica como uma recompensa por salvaguardar o terreno sagrado do islã. Não há dúvida que o “Estado Islâmico”, com suas fronteiras móveis e sua massa pan-arábica, mesmo pan-islâmica, adoraria assumir responsabilidade sobre os corpos dos príncipes sauditas que não fugiram para Londres, Paris ou Nova Iorque. O mesmo vai para toda a realeza alinhada ao Ocidente e, evidentemente, Israel.


Autoridades norte-americanas não têm ideia de como reposicionar-se na região
É verdade que os Estados Unidos detêm poder quase ilimitado para criar o caos na região. O caos é útil para prevenir governos e sociedades civis de realizarem metas nacionais inimigas do imperialismo. Mas o caos não é um vazio; é o caldeirão em que contradições podem emergir explosivamente.

Jihadistas são, por essência, anti-imperialistas: inalteravelmente contra a dominação seja dos “cruzados” ocidentais, seja dos sionistas. A jihad fundamentalista, embora profundamente reacionária, comporta-se com uma espécie de nacionalismo – o que para alguns tem a ver com o vazio político deixado pelo pan-arabismo secular de outrora. O EIIL reivindica-se a expressão dessa ânsia nacionalista: o “Estado Islâmico”.

Se você pensa que isso tudo é trabalho da CIA, agradeça-os copiosamente por acelerar o épico desenlace do imperialismo norte-americano no mundo muçulmano.

Como aconteceu nos dias em que Mubarak, o fantoche estadunidense no Egito, caiu. Quando a Primavera Árabe ameaçava derrubar as monarquias petroleiras, as autoridades norte-americanas não faziam ideia de como reposicionar-se na região.

Os jihadistas não serão soldados de infantaria do imperialismo estadunidense. Portanto, começa agora um período marcado por puro improviso, que certamente envolverá ostensivas aparições da "valentia" norte-americana quando os ianques recordarem a si mesmos e a todo o mundo que uma superpotência supera um califado.
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Jornalista, Glen Ford é diretor executivo do Black Agenda Report.

A tradução é de André Cristi.

Carta Maior






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