Os governos europeus não conseguem entender-se sobre a constituição da nova Comissão Europeia. Depois da designação de Jean-Claude Juncker como presidente com a bênção de Angela Merkel - chanceler da Alemanha e suporte natural de toda a direita e da maioria dos sociais-democratas - ainda não foi possível acordo sobre qualquer comissário.

Por Pilar Camacho, de Bruxelas para o Jornalistas sem Fronteiras



François Lenoir / ReutersO nome que parece mais próximo de uma posição de comissário, ou de presidente do Eurogrupo, é o do ministro espanhol da Economia, Luis de Guindos. que contribuiu para que o governo catapultasse um quarto dos espanhóis para o desemprego.O nome que parece mais próximo de uma posição de comissário, ou de presidente do Eurogrupo, é o do ministro espanhol da Economia, Luis de Guindos. que contribuiu para que o governo catapultasse um quarto dos espanhóis para o desemprego.


O presidente do Conselho em exercício assegura que dentro dos próximos 55 dias, até ao fim de agosto, tudo estará em ordem.

“Houve quem comparasse a formação da Comissão a um jogo de xadrez”, diz um funcionário espanhol do Conselho. “Nada mais incorreto e insultuoso: o xadrez é um jogo de inteligência, aquilo a que estamos assistindo para formar a Comissão Europeia é uma guerra de interesses financeiros, políticos, geográficos e pessoais, um regateio que despreza a democracia e os direitos dos cidadãos europeus”, acusou.

Ao que consta, o nome que parece mais próximo de uma posição de comissário, ou de presidente do Eurogrupo, é o do ministro espanhol da Economia, Luis de Guindos.

“Decisão muito adequada”, ironiza o mesmo funcionário. “Luís de Guindos representa tudo aquilo a que chamam União Europeia mas que nada tem a ver com aquilo que deveria ser. Contribuiu para que o governo de Mariano Rajoy catapultasse um quarto dos espanhóis para o desemprego, para o agravamento da miséria e, como se não bastasse, prepara-se para emigrar deixando atrás de si a maior dívida pública espanhola, criada no âmbito do processo de combate à dívida”.

A mesma fonte sublinhou que, porém, “De Guindos tem um pedigree inultrapassável: traz a chancela Lehman Brothers, um dos bancos que mais contribuiu para a crise de 2008 e 2009, sem dúvida a escolha certa para combater uma crise que continua a resistir em todo o espaço europeu”.

Se em relação a esta escolha parece não ser de esperar uma reviravolta, o mesmo não se pode dizer quanto a todo o resto que se passa neste mercado de comissários.

Para o lugar agora ocupado pelo belga Van Rompuy, o de presidente do Conselho, a lista é nutrida. A principal favorita chegou a ser a primeira-ministra dinamarquesa Helle Thorning-Schmidt. Teria a seu favor as virtudes necessárias para equilibrar um presidente da Comissão de direita, homem e de um país pertencente à moeda única: ser social-democrata, mulher e de um país fora da Zona Euro.

Acontece que o presidente da Comissão não está convencido desta necessidade de compensar, uma vez que fez saber que lhe será difícil trabalhar com tal escolha. Neste cenário começaram a surgir outros nomes, por sinal nenhum mais de uma mulher: o ex-primeiro ministro italiano Enrico Letta, o chefe do governo polaco Donald Tusk, o homólogo holandês Mark Rutte, o irlandês Enda Kenny, o finlandês Jyirki Katainen.

Letta parece uma carta fora do baralho porque o seu correligionário e primeiro-ministro Matteo Renzi se opõe, tal como o designado presidente da Comissão. Juncker parece aliás opor-se a todos os outros nomes que surgiram em cima da mesa, segundo consta nos bastidores deste rateio de cargos.

Matteo Renzi ainda mal chegou a primeiro ministro de Itália e, “através do seu discurso fácil, de um populismo bem disfarçado e embrulhado numa demagogia elegante”, segundo um quadro italiano da Comissão, “tornou-se uma espécie de farol para os seus parceiros socialistas e social democratas”.

É certo, segundo a mesma fonte, “que num cenário tão pobre que vai de Hollande aos sociais democratas alemães submissos a Merkel, não seria difícil surgir alguém a dar nas vistas aparentando diferenças. Renzi, de fato, consegue temperar o seu neoliberalismo com uma oratória renovada que rapidamente fez o seu caminho”.

Renzi “tirou da cartola uma versão sua no feminino, Federica Mogherini, com tal eficácia que quase fazia dela chefe da política externa europeia e sucessora da baronesa Catherine Ashton antes de o ser”, sublinhou o funcionário da Comissão. Porém, os ventos de Leste congelaram o rápido êxito da quase ilustre desconhecida até ser designada ministra dos Negócios Estrangeiros de Itália.

“Num momento em que a Rússia é uma ameaça para toda a Europa, sobretudo com as suas ambições e intervenção na Ucrânia, não se pode correr o risco de entregar a política externa da União Europeia a uma desconhecida que ainda não se revelou como ministra italiana dos Estrangeiros e pode muito bem ser uma esquerdista”, segundo Aniela Nowak, funcionária dos serviços governamentais de Varsóvia. “É preciso ser firme com a Rússia e não parece que a atual ministra italiana esteja à altura disso”, sublinhou a funcionária polaca.

De acordo com a mesma fonte, “sobretudo nesse cargo e com uma Europa enfrentando perigos tão grandes, é preciso alguém de peso como Radoslaw Sikorski, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Polônia, com provas dadas e a quem muito se deve o facto de a Ucrânia continuar a ser independente”. Sikorsi, de fato polaco e britânico, chegou a ser o principal favorito, mas algumas palavras mal medidas em relação ao chefe do governo de Londres ensombraram o caminho.

Outros nomes, também de Leste, estão sendo ventilados, mas esbarram todos no mesmo obstáculo, segundo se conta nos bastidores do Conselho Europeu: desagradam a Jean-Claude Juncker.

“O novo presidente da Comissão Europeia invoca os tratados por tudo e por nada mas, pelo seu comportamento até agora, a melhor forma de aplicar os tratados era ignorá-los e ser ele a nomear todos os comissários com quem vai trabalhar”, considera um alto e veterano funcionário do Conselho Europeu.

Fonte: Jornalistas sem Fronteiras


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