Mauro Donato
Depois do leite derramado, todos sabem quem são os culpados. Agora Felipão tornou-se o pior técnico do planeta, Fred é unanimidade em sua condição de cone, Hulk é piada, a CBF é o câncer do futebol.
Não que discorde por completo, pelo contrário, mas me espanta que até ontem as opiniões dos fossem diametralmente opostas. Enquanto o time ganhava estava tudo bem.
Após a ocorrência e seu conhecido desfecho, é sempre fácil discorrer sobre o que estava nitidamente errado. Comentaristas de TV são os maiores especialistas nessa dissertação. Passam o jogo todo afirmando uma posição para, imediatamente após o revés, contradizerem-se candidamente. Até mesmo prever que Neymar seria atacado pelas costas e que portanto a culpa é do técnico por não te-lo sacado de campo antes tivemos que ouvir.
A grande maioria estava cética com relação à seleção antes do início do torneio, mas a aprovação a Felipão era maciça. Durante a primeira fase da Copa, o otimismo só fez crescer, o ceticismo deu lugar à alegria, o verde-amarelo vendeu bem na 25 de Março. O título parecia certo, o clima de Copa foi aumentando, as festas foram tomando as ruas.
Com a derrota acachapante para o time alemão, tudo passou a ser questionado. Até o futebol nacional como um todo, os celeiros dos craques, as leis, as dívidas dos clubes, sendo que na véspera a crença era de que seríamos campeões do mundo.
Por que vai-se do primeiro ao último em tão pouco tempo? Por que acreditavam que éramos os melhores do mundo mas no dia seguinte pregam que somos os piores?
Freud talvez explicasse. Nelson Rodrigues também. Mas ambos estão mortos e quem tem a palavra é Galvão Bueno.
Para além da Alemanha, que foi tomada ao longo da semana como exemplo a ser seguido, deveríamos olhar igualmente para a Costa Rica. Seu povo recebeu a seleção local com festa e manifestações de orgulho pela campanha. Afinal, o time fez o que podia com pitadas de superação. Houve reconhecimento.
E aqui? Também a seleção brasileira fez o que podia (capenga que era e refém da genialidade de um único jogador), mas tinha a obrigação de vencer. Não é preciso muita inteligência para saber que esse tipo de pressão dificilmente produz o efeito esperado. Depois da bonança vem a tempestade.
Os problemas do futebol brasileiro não podem ficar à mercê da oscilação de humor da torcida. Já existiam muito antes da Copa e não poderiam ficar sob o tapete caso hoje Thiago Silva estivesse levantando a taça. Assim como não se pode agora sair correndo em caça às bruxas que todos sabiam que existiam. Soa ridículo.
Que é preciso aproveitar o momento para os ajustes e correções necessários está claro. Fazer jogo de cena para depois ficar tudo na mesma, como sempre ocorreu após cada eliminação em Copas passadas, é uma sina brazuca.
O futebol brasileiro precisa de gestões profissionais e transparentes. Mas isso nada tem a ver com os 7X1 nem com os 3X0 de ontem. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
Sobre o Autor
Jornalista, escritor e fotógrafo nascido em São Paulo.
Diário do Centro do Mundo
Depois do leite derramado, todos sabem quem são os culpados. Agora Felipão tornou-se o pior técnico do planeta, Fred é unanimidade em sua condição de cone, Hulk é piada, a CBF é o câncer do futebol.
Não que discorde por completo, pelo contrário, mas me espanta que até ontem as opiniões dos fossem diametralmente opostas. Enquanto o time ganhava estava tudo bem.
Após a ocorrência e seu conhecido desfecho, é sempre fácil discorrer sobre o que estava nitidamente errado. Comentaristas de TV são os maiores especialistas nessa dissertação. Passam o jogo todo afirmando uma posição para, imediatamente após o revés, contradizerem-se candidamente. Até mesmo prever que Neymar seria atacado pelas costas e que portanto a culpa é do técnico por não te-lo sacado de campo antes tivemos que ouvir.
A grande maioria estava cética com relação à seleção antes do início do torneio, mas a aprovação a Felipão era maciça. Durante a primeira fase da Copa, o otimismo só fez crescer, o ceticismo deu lugar à alegria, o verde-amarelo vendeu bem na 25 de Março. O título parecia certo, o clima de Copa foi aumentando, as festas foram tomando as ruas.
Com a derrota acachapante para o time alemão, tudo passou a ser questionado. Até o futebol nacional como um todo, os celeiros dos craques, as leis, as dívidas dos clubes, sendo que na véspera a crença era de que seríamos campeões do mundo.
Por que vai-se do primeiro ao último em tão pouco tempo? Por que acreditavam que éramos os melhores do mundo mas no dia seguinte pregam que somos os piores?
Freud talvez explicasse. Nelson Rodrigues também. Mas ambos estão mortos e quem tem a palavra é Galvão Bueno.
Para além da Alemanha, que foi tomada ao longo da semana como exemplo a ser seguido, deveríamos olhar igualmente para a Costa Rica. Seu povo recebeu a seleção local com festa e manifestações de orgulho pela campanha. Afinal, o time fez o que podia com pitadas de superação. Houve reconhecimento.
E aqui? Também a seleção brasileira fez o que podia (capenga que era e refém da genialidade de um único jogador), mas tinha a obrigação de vencer. Não é preciso muita inteligência para saber que esse tipo de pressão dificilmente produz o efeito esperado. Depois da bonança vem a tempestade.
Os problemas do futebol brasileiro não podem ficar à mercê da oscilação de humor da torcida. Já existiam muito antes da Copa e não poderiam ficar sob o tapete caso hoje Thiago Silva estivesse levantando a taça. Assim como não se pode agora sair correndo em caça às bruxas que todos sabiam que existiam. Soa ridículo.
Que é preciso aproveitar o momento para os ajustes e correções necessários está claro. Fazer jogo de cena para depois ficar tudo na mesma, como sempre ocorreu após cada eliminação em Copas passadas, é uma sina brazuca.
O futebol brasileiro precisa de gestões profissionais e transparentes. Mas isso nada tem a ver com os 7X1 nem com os 3X0 de ontem. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
Sobre o Autor
Jornalista, escritor e fotógrafo nascido em São Paulo.
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