Se olhamos debaixo do capô, vemos sinais preocupantes. A produção industrial diminui. As exportações baixam. Os salários estancam. No terceiro trimestre do ano, a Alemanha pode entrar em recessão. 

Por Matthew Lynn, El Economista


Cameron e Merkel: recessão à vista? Foto de The Prime Minister's Office

A sua seleção de futebol passou por cima das opiniões contrárias e acabou por ganhar o Mundial de Futebol. A sua chanceler, Angela Merkel, reina sobre o continente europeu. A sua poderosa máquina exportadora mantém as fábricas em laboração, acumula grandes excedentes comerciais e senta as bases do que muitos consideram a economia de maior sucesso no mundo.

Hoje em dia, não há muitas coisas más na Alemanha e sim muitas boas. Ainda assim, se olhamos debaixo do capô, vemos sinais preocupantes. A produção industrial diminui. As exportações baixam. Os salários estancam. O tipo de inflação é tão baixo que poderia cair proximamente numa deflação pura e dura. No terceiro trimestre do ano, a Alemanha poderia entrar em recessão.


Até agora, a moeda única, apesar de ter sido catastrófica para as nações periféricas do sul de Europa, foi boa para a Alemanha, que é de longe a potência mais forte da União Europeia.

E isso mudará a dinâmica da eurozona, não precisamente para melhor. Até agora, a moeda única, apesar de ter sido catastrófica para as nações periféricas do sul de Europa, foi boa para a Alemanha, que é de longe a potência mais forte da União Europeia. Não surpreende que tenha feito todo o possível por manter a moeda, mas assim que se vir prejudicada por ela, como ocorreu a tantos outros, isso mudará irremediavelmente.

Com uma Alemanha debilitada, o euro será bem mais frágil do que esteve neste último ano. Os sinais de uma recessão na economia alemã estão à vista. Na semana passada soubemos que a produção industrial (bem mais importante para Alemanha que para quase todas as demais grandes economias avançadas) encolheu 1,8% em maio, com relação a abril. A construção, que costuma ser um bom indicador do rumo da economia, baixou 4,9%.

Tanto as importações como as exportações reduziram-se em maio, o que não aponta precisamente para uma economia em auge. Em base mensal ajustada, as exportações minguaram 1,1% mensal, à medida que outros países deixavam de comprar tantos carros e químicos alemães, e as importações afundaram 3,4%, já que as fábricas verificaram os seus livros de encomendas e decidiram que não precisavam de tanta matéria prima, enquanto os consumidores, apressados, compravam menos. O país continuou a recolher um grande excedente comercial, mas não é boa notícia porque reflete que as importações encolhem mais depressa que as exportações.

Os outros indicadores não são muito melhores. A inflação se desmorona, como no resto da eurozona. Em junho, situava-se num valor anualizado de 1% e em maio mal chegava a 0,6%. Por norma geral, as empresas não moderam as subidas de preços quando a procura é demasiado forte, mas sim quando é demasiado fraca. Isso refletiu-se nos números das vendas a retalho em maio, que tinham baixado 0,6%, após uma queda de 1,5% em abril.

A maioria dos economistas continua a prever um crescimento razoável de cerca de 2% este ano na Alemanha. Mas não todos. High-Frequency Economics prevê que a economia alemã vai-se contrair um segundo trimestre no ano. Se continuar durante dois trimestres seguidos, poder-se-á falar de recessão. Os mercados de títulos, que normalmente são bem mais rápidos que os outros na hora de detetar problemas, já se deram conta de que alguma coisa está a acontecer.

O rendimento de um bund de dez anos, como se chamam os títulos do Estado alemão, caiu sem parar durante todo o ano e já baixou 1,2%, muito próximo ao mínimo de todos os tempos. Os rendimentos dos títulos não caem quando uma economia se expande com força mas sim quando o dinheiro inteligente acha que a recessão e a deflação estão à espera na esquina.

Não é difícil averiguar o que está a acontecer. Fala-se muito da formidável máquina industrial alemã que, apesar de ter muitas grandes empresas, basicamente é a oficina do resto de Europa. Das suas exportações, 69% vão parar ao continente. O seu maior sócio comercial é França, que por si só representa 9,2% das exportações alemãs. A Ásia tem crescido, mas ainda representa só 16% do que o país está a vender no estrangeiro.

E a Europa, evidentemente, é um mercado péssimo neste momento e não tem perspetivas de melhorar num futuro próximo. Vejamos a França, por exemplo. Como 40% do PIB alemão é composto pelas exportações e uma décima parte cruza a fronteira da França, a sua vizinha representa por si só 4% do PIB alemão. A economia francesa está estancada, com as vendas e a confiança a desmoronar-se a cada mês. O mesmo acontece com muitos outros mercados da Alemanha, como a Finlândia ou a Holanda. Entre os seus vizinhos, só o Reino Unido cresce a um ritmo respeitável, mas por muito que os britânicos gostem dos carros alemães, não vão poder resgatar a economia sozinhos.

Efetivamente, a crise da eurozona atingiu a sua maior economia. E isso vai mudar a dinâmica da moeda única que, até agora, funcionou bastante bem para a Alemanha. Após reformar a sua economia nos anos noventa, estava numa posição ideal para recolher os frutos da moeda única e prosperou graças a um amplo mercado exportador, com um tipo de câmbio fixo. Antigamente, a vizinha França e a Itália desvalorizavam periodicamente as suas moedas contra o marco alemão para continuarem a ser competitivas.

Com essa opção fora da mesa, a indústria alemã deu um salto adiante. O emprego era sólido, como os lucros das empresas. É verdade que os alemães se queixavam dos resgates aos europeus do sul mas, em geral, sabiam que o euro beneficiava-os e suportá-lo-iam enquanto continuasse assim. Dentro da UE, a Alemanha é mais importante do que qualquer outro país. É a nação maior e mais rica. Enquanto continuar a beneficiar-se, o euro podia sobreviver. Não é igual numa recessão.

Se a crise do euro atingir a Alemanha com a mesma dureza que a Europa periférica, pode acontecer alguma coisa. A moeda única voltará a parecer muito frágil e a sua sobrevivência a longo prazo começará a ser posta em dúvida. O euro pode sobreviver a uma crise grega ou portuguesa mas, com uma alemã, as coisas mudam.

Publicado em Jaque al Neoliberalismo

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net


Esquerda.net

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