A pergunta que o jornalismo de economia não fará a Marina e a seus operadores, e nem a si mesmo é: o que o Brasil tem a ganhar com uma receita de arrocho?
por: Saul Leblon
Exceto a fé cega nas propriedades curativas dos livres mercados, ninguém sabe, ao certo, o que os operadores de Marina Silva pensam sobre o chão mole da economia mundial.
A exemplo do colunismo especializado, sua visão sobre os flancos da economia brasileira é assertiva e doutoral.
Mas esse olhar de lince se torna míope quando se volta para o cenário externo.
O risco de abstrair determinações sistêmicas e desse modo jogar a economia brasileira em um ralo vulcânico existe. E não é pequeno.
Quem critica ‘o neodesenvolvimentismo do PT’ como autárquico, por resistir à purga benfazeja de uma drástica abertura comercial e financeira, deveria oferecer mais em troca do que mantras de um tatcherismo com prazo de validade vencido.
A ideia de que basta proceder à imersão do país em um banho de desregulação internacional para extrair daí uma sociedade capacitada para competir e promover a convergência da riqueza, envolve pressupostos discutíveis.
O principal deles diz respeito à capacidade terapêutica dessa jacuzzy global, na qual o PSDB quase afogou a nação nos anos 90, sem a pretendida conquista da ‘competitividade’ sustentável.
O fracasso levou o país ao FMI e os tucanos às sucessivas derrotas em 2002, 2006, 2010 e à liquefação em 2014.
Do que se depreende das propostas do PSB, agora –entre elas a de ceder a moeda, o câmbio e o juro à gestão independente dos mercados financeiros -- é justo presumir que derivam de um otimismo ainda mais excessivo que o dos antecessores.
A convalescença da maior crise do capitalismo desde 1929 não tem como atende-lo.
Há consequências dramáticas nesse erro de calibragem.
Mas elas não são honestamente debatidas pelo jornalismo especializado que, a exemplo dos bancos, enxerga em Marina uma candidata para chamar de sua.
Num mundo com 100 milhões de desempregados, demanda claudicante, baixo uso de capacidade instalada e apetites canibais aflorados na caça a novos mercados, o que dizer, por exemplo, da restauração em curso do espírito da Alca, o Acordo de Livre Comércio das Américas?
Namorado pelo PSDB nos anos 90, enterrado por Lula em 2003 ele ressurge agora nos planos dos operadores de Marina que não veem a hora de depenar o Mercosul em acordos bilaterais de um ‘comércio mundial onde tudo está acontecendo’.
Não é bem esse o cenário fotografado pela insuspeita Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE, em seu relatório de setembro.
Diferente do panglossiano neoliberal, a OCDE enxerga uma recuperação global anêmica, por isso mesmo desigual.
Mesmo os EUA, que vão bem, segundo o organismo, tiveram a previsão de seu crescimento ajustada de 2,6% para 2,1% este ano.
A zona do euro corre o risco de uma estagnação prolongada, diz o relatório.
Índia e China crescem, mas sem força para arrastar o mundo.
O Brasil, em linha com o baixo relevo do planeta, reverte a curva recessiva, mas também cresce pouco (0,3% este ano e 1,4% em 2015).
A própria boa vontade da OCDE com os EUA deve ser ponderada.
A indústria norte-americana patinou em agosto sem sair do lugar (queda de 0,1% em relação a julho).
As fábricas do país estão usando 79% da capacidade instalada.
O índice é idêntico ao do Brasil, onde o setor industrial também enfrenta dificuldades para exportar e não consegue concorrer com a manufatura chinesa que invade o mercado local.
O mercado de trabalho nos EUA cresce há seis meses gerando média superior a 200 mil vagas ao mês, é verdade.
Mas a qualidade do emprego deixa a desejar, com forte predomínio de trabalho precário.
Dos 407 mil vagas criadas em junho, por exemplo, mais de 270 mil foram parciais.
O contingente de norte-americanos trabalhando meio período soma 7,5 milhões. É quase o dobro do registrado antes de 2008.
Quando se agrega a esse universo os que desistiram de buscar uma colocação chega-se a 13% da força de trabalho. É mais que o dobro da atual taxa de desemprego de 6%.
Não é apenas uma etapa incremental do pós- crise.
O quadro reflete a perda de qualidade estrutural de uma economia que viu necrosar sua principal usina geradora de produtividade e bons salários: a indústria, deslocada para o ‘baixo custo chinês’, literalmente ou através de importações.
Não por acaso, a economia capitalista mais poderosa do planeta luta agora para se reindustrializar. E o faz, por exemplo, como lembrou a Presidenta Dilma, na sabatina ao Globo, semana passada, com medidas protecionistas.
Entre elas, vendendo internamente seu gás de xisto às fábricas a US$ 4 dólares a unidade, contra uma cotação internacional da ordem de US$ 12 a US$ 15 dólares. A defasagem é de causar urticária no colunismo nativo que exige da Petrobrás a vinculação de seus preços à instabilidade do Oriente Médio.
‘A que interesses isso serve?’, questionou a Presidenta, arguindo os porta-vozes da República dos Acionistas.
O otimismo dos operadores de Marina, portanto, omite um íngreme relevo internacional de onde dificilmente vai jorrar a seiva da prometida regeneração livre mercadista.
Mais arrojada que a OCDE, a Unctad (Conferência Mundial das Nações para o Comércio e o Desenvolvimento) sugere, ademais, que a convalescença inconclusa do colapso de 2008 transitou direto para um ciclo de baixo desempenho global. Uma espécie de estagnação sistêmica, fundida em desemprego, arrocho fiscal e inexistência de crédito.
Desse torniquete, o comércio mundial não emergirá tão cedo em sua plena capacidade.
Se antes da crise ele crescia a taxas de 6% a 8%, a perspectiva agora é de que avance, no máximo, modestos 2% ao ano, diz a Unctad.
Emparedadas entre a moderação da demanda e a alta inercial da oferta, as cotações das commodities já sentem o baque.
A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, a FAO, prevê, por exemplo, que os próximos dois anos serão de quedas nos preços dos cereais no mercado mundial.
A deriva europeia adiciona gravidade a esse conjunto: o PIB das três maiores economias da zona euro –Alemanha, França e Itália-- fechou o mês de junho com um pé na estagnação, o outro na recessão.
A pergunta responsável que o glorioso jornalismo de economia não fará a Marina e a seus operadores, e nem a si mesmo é: o que o Brasil tem a ganhar com uma receita de arrocho fiscal, choque de juro e corrosão dos salários, que destrói o mercado interno e atira a economia nos braços de uma estagnação sistêmica?
Ao contrário dos xamãs do lacto purga recessivo, a Unctad recomenda cautela aos governos nesse horizonte embaçado da história.
Num quadro de esfriamento do comércio mundial, o melhor a fazer, indica seu ‘Relatório de Comércio e Desenvolvimento, 2014’, é transformar o mercado interno num chão firme de resistência para reordenar o crescimento e aprimorar a futura capacidade de competição.
A Unctad afirma que para romper a armadilha do baixo crescimento é necessário fortalecer a demanda agregada através do ganho real dos salários e da distribuição de renda.
Mas não é uma empreitada fácil, admite a organização.
A principal dificuldade reside na arquitetura financeira global, em que a livre circulação de capitais favorece a evasão de recursos e garante ganhos especulativos irreproduzíveis no investimento produtivo requerido pelas nações.
Eis uma dimensão do definhamento industrial quase nunca abordada pela pauta do ‘custo Brasil’, que prefere descarregar a conta nas costas das famílias assalariadas e da coleta de impostos.
Um dado resume todos os demais.
Estudo do departamento de competitividade da Fiesp, divulgado na última 5ª feira, mostra que, entre 2008 e 2010, o empresário que investiu na própria indústria obteve um retorno médio de 47%.
Já os que canalizaram capital equivalente para fundos financeiros ganharam 62% -- limpinho e sem risco.
Ao contrário dos operadores de Marina, a Unctad é abertamente favorável ao controle de capitais para reverter essa ciranda.
Sem reprimir a evasão de capitais, sugerem seus economistas, fica impossível baixar o juro e não arcar com instabilidade cambial e fuga de recursos.
Entre 8% e 15% da riqueza financeira mundial estão em paraísos fiscais, exemplifica o organismo da ONU.
A evasão nas nações em desenvolvimento acontece, sobretudo, em maquiagens praticadas no comércio exterior, com subfaturamento ou superfaturamento entre empresas e intra-empresas.
Países em desenvolvimento perdem mais de R$ 160 bilhões de dólares por ano nesse sumidouro que tem na integração do sistema financeiro global, e nos grandes bancos locais, as tubulações da sangria.
Uma candidatura que encontra nessas instituições a sua principal base de apoio financeira, e de sustentação política, talvez não tenha, de fato, outra coisa a propor ao país.
A relação carnal com os bancos impede Marina de sentir o cheiro do ralo para onde seu programa empurra o Brasil.
Só não vale dizer, como fazem agora seus operadores, que o condutor desse périplo, o ‘BC independente’, cuidará também de perseguir o pleno emprego.
Aí já é escárnio.
por: Saul Leblon
Exceto a fé cega nas propriedades curativas dos livres mercados, ninguém sabe, ao certo, o que os operadores de Marina Silva pensam sobre o chão mole da economia mundial.
A exemplo do colunismo especializado, sua visão sobre os flancos da economia brasileira é assertiva e doutoral.
Mas esse olhar de lince se torna míope quando se volta para o cenário externo.
O risco de abstrair determinações sistêmicas e desse modo jogar a economia brasileira em um ralo vulcânico existe. E não é pequeno.
Quem critica ‘o neodesenvolvimentismo do PT’ como autárquico, por resistir à purga benfazeja de uma drástica abertura comercial e financeira, deveria oferecer mais em troca do que mantras de um tatcherismo com prazo de validade vencido.
A ideia de que basta proceder à imersão do país em um banho de desregulação internacional para extrair daí uma sociedade capacitada para competir e promover a convergência da riqueza, envolve pressupostos discutíveis.
O principal deles diz respeito à capacidade terapêutica dessa jacuzzy global, na qual o PSDB quase afogou a nação nos anos 90, sem a pretendida conquista da ‘competitividade’ sustentável.
O fracasso levou o país ao FMI e os tucanos às sucessivas derrotas em 2002, 2006, 2010 e à liquefação em 2014.
Do que se depreende das propostas do PSB, agora –entre elas a de ceder a moeda, o câmbio e o juro à gestão independente dos mercados financeiros -- é justo presumir que derivam de um otimismo ainda mais excessivo que o dos antecessores.
A convalescença da maior crise do capitalismo desde 1929 não tem como atende-lo.
Há consequências dramáticas nesse erro de calibragem.
Mas elas não são honestamente debatidas pelo jornalismo especializado que, a exemplo dos bancos, enxerga em Marina uma candidata para chamar de sua.
Num mundo com 100 milhões de desempregados, demanda claudicante, baixo uso de capacidade instalada e apetites canibais aflorados na caça a novos mercados, o que dizer, por exemplo, da restauração em curso do espírito da Alca, o Acordo de Livre Comércio das Américas?
Namorado pelo PSDB nos anos 90, enterrado por Lula em 2003 ele ressurge agora nos planos dos operadores de Marina que não veem a hora de depenar o Mercosul em acordos bilaterais de um ‘comércio mundial onde tudo está acontecendo’.
Não é bem esse o cenário fotografado pela insuspeita Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE, em seu relatório de setembro.
Diferente do panglossiano neoliberal, a OCDE enxerga uma recuperação global anêmica, por isso mesmo desigual.
Mesmo os EUA, que vão bem, segundo o organismo, tiveram a previsão de seu crescimento ajustada de 2,6% para 2,1% este ano.
A zona do euro corre o risco de uma estagnação prolongada, diz o relatório.
Índia e China crescem, mas sem força para arrastar o mundo.
O Brasil, em linha com o baixo relevo do planeta, reverte a curva recessiva, mas também cresce pouco (0,3% este ano e 1,4% em 2015).
A própria boa vontade da OCDE com os EUA deve ser ponderada.
A indústria norte-americana patinou em agosto sem sair do lugar (queda de 0,1% em relação a julho).
As fábricas do país estão usando 79% da capacidade instalada.
O índice é idêntico ao do Brasil, onde o setor industrial também enfrenta dificuldades para exportar e não consegue concorrer com a manufatura chinesa que invade o mercado local.
O mercado de trabalho nos EUA cresce há seis meses gerando média superior a 200 mil vagas ao mês, é verdade.
Mas a qualidade do emprego deixa a desejar, com forte predomínio de trabalho precário.
Dos 407 mil vagas criadas em junho, por exemplo, mais de 270 mil foram parciais.
O contingente de norte-americanos trabalhando meio período soma 7,5 milhões. É quase o dobro do registrado antes de 2008.
Quando se agrega a esse universo os que desistiram de buscar uma colocação chega-se a 13% da força de trabalho. É mais que o dobro da atual taxa de desemprego de 6%.
Não é apenas uma etapa incremental do pós- crise.
O quadro reflete a perda de qualidade estrutural de uma economia que viu necrosar sua principal usina geradora de produtividade e bons salários: a indústria, deslocada para o ‘baixo custo chinês’, literalmente ou através de importações.
Não por acaso, a economia capitalista mais poderosa do planeta luta agora para se reindustrializar. E o faz, por exemplo, como lembrou a Presidenta Dilma, na sabatina ao Globo, semana passada, com medidas protecionistas.
Entre elas, vendendo internamente seu gás de xisto às fábricas a US$ 4 dólares a unidade, contra uma cotação internacional da ordem de US$ 12 a US$ 15 dólares. A defasagem é de causar urticária no colunismo nativo que exige da Petrobrás a vinculação de seus preços à instabilidade do Oriente Médio.
‘A que interesses isso serve?’, questionou a Presidenta, arguindo os porta-vozes da República dos Acionistas.
O otimismo dos operadores de Marina, portanto, omite um íngreme relevo internacional de onde dificilmente vai jorrar a seiva da prometida regeneração livre mercadista.
Mais arrojada que a OCDE, a Unctad (Conferência Mundial das Nações para o Comércio e o Desenvolvimento) sugere, ademais, que a convalescença inconclusa do colapso de 2008 transitou direto para um ciclo de baixo desempenho global. Uma espécie de estagnação sistêmica, fundida em desemprego, arrocho fiscal e inexistência de crédito.
Desse torniquete, o comércio mundial não emergirá tão cedo em sua plena capacidade.
Se antes da crise ele crescia a taxas de 6% a 8%, a perspectiva agora é de que avance, no máximo, modestos 2% ao ano, diz a Unctad.
Emparedadas entre a moderação da demanda e a alta inercial da oferta, as cotações das commodities já sentem o baque.
A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, a FAO, prevê, por exemplo, que os próximos dois anos serão de quedas nos preços dos cereais no mercado mundial.
A deriva europeia adiciona gravidade a esse conjunto: o PIB das três maiores economias da zona euro –Alemanha, França e Itália-- fechou o mês de junho com um pé na estagnação, o outro na recessão.
A pergunta responsável que o glorioso jornalismo de economia não fará a Marina e a seus operadores, e nem a si mesmo é: o que o Brasil tem a ganhar com uma receita de arrocho fiscal, choque de juro e corrosão dos salários, que destrói o mercado interno e atira a economia nos braços de uma estagnação sistêmica?
Ao contrário dos xamãs do lacto purga recessivo, a Unctad recomenda cautela aos governos nesse horizonte embaçado da história.
Num quadro de esfriamento do comércio mundial, o melhor a fazer, indica seu ‘Relatório de Comércio e Desenvolvimento, 2014’, é transformar o mercado interno num chão firme de resistência para reordenar o crescimento e aprimorar a futura capacidade de competição.
A Unctad afirma que para romper a armadilha do baixo crescimento é necessário fortalecer a demanda agregada através do ganho real dos salários e da distribuição de renda.
Mas não é uma empreitada fácil, admite a organização.
A principal dificuldade reside na arquitetura financeira global, em que a livre circulação de capitais favorece a evasão de recursos e garante ganhos especulativos irreproduzíveis no investimento produtivo requerido pelas nações.
Eis uma dimensão do definhamento industrial quase nunca abordada pela pauta do ‘custo Brasil’, que prefere descarregar a conta nas costas das famílias assalariadas e da coleta de impostos.
Um dado resume todos os demais.
Estudo do departamento de competitividade da Fiesp, divulgado na última 5ª feira, mostra que, entre 2008 e 2010, o empresário que investiu na própria indústria obteve um retorno médio de 47%.
Já os que canalizaram capital equivalente para fundos financeiros ganharam 62% -- limpinho e sem risco.
Ao contrário dos operadores de Marina, a Unctad é abertamente favorável ao controle de capitais para reverter essa ciranda.
Sem reprimir a evasão de capitais, sugerem seus economistas, fica impossível baixar o juro e não arcar com instabilidade cambial e fuga de recursos.
Entre 8% e 15% da riqueza financeira mundial estão em paraísos fiscais, exemplifica o organismo da ONU.
A evasão nas nações em desenvolvimento acontece, sobretudo, em maquiagens praticadas no comércio exterior, com subfaturamento ou superfaturamento entre empresas e intra-empresas.
Países em desenvolvimento perdem mais de R$ 160 bilhões de dólares por ano nesse sumidouro que tem na integração do sistema financeiro global, e nos grandes bancos locais, as tubulações da sangria.
Uma candidatura que encontra nessas instituições a sua principal base de apoio financeira, e de sustentação política, talvez não tenha, de fato, outra coisa a propor ao país.
A relação carnal com os bancos impede Marina de sentir o cheiro do ralo para onde seu programa empurra o Brasil.
Só não vale dizer, como fazem agora seus operadores, que o condutor desse périplo, o ‘BC independente’, cuidará também de perseguir o pleno emprego.
Aí já é escárnio.

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