O debate de ontem, na Globo, não mediu menos idéias do que comportamentos.

Infelizmente, o povo brasileiro está submetido à ditadura da mediocridade, porque quem o assistiu não ficou sabendo coisa alguma sobre o rumo que este país deve ter e terá.

É irônico, aliás, que ele tenha começado com a já enfadonha questão sexista, com as “cascas” que se quis tirar por conta do energúmeno Levy Fidélix, um cidadão cuja profissão é ser candidato e que arranjou nas provocações aos homossexuais uma alternativa mais imbecil do que a história do aerotrem.

Porque o que se viu, durante duas horas, foi um desfile de “estranhos casais” – com o perdão dos clássicos Jack Lemmon e Walter Mathau - formados para atacar Dilma Rousseff. Aliás, um triângulo amoroso: Levy e Everaldo, Everaldo e Aécio, Aécio e Levy.

Um mimo.

Todos os telespectadores puderam ver que, no restante, eram todos “combinadinhos” contra Dilma, que se saiu bem.

Afora isso e a repetição nauseante das “pautas pautadas” pela grande mídia – Petrobras, Correios e – como o papagaio, “corrupção, corrupção, corrupção” - o resto do debate se mede mais por desempenho pessoal do que por ideias.

E nisso, o que se viu foi uma Marina Silva completamente atarantada, sem estatura para reagir ao “baixo astral” da queda de uma candidatura que só tinha de sólido a onda de um favoritismo construído à base do “conto de fadas” devidamente desmontado pelas idas, vindas e companhias da ex-senadora.

Marina apanhou de Dilma, de Aécio e de Luciana Genro. Mostrou – se quisermos fazer a gentileza de aceitar sua monótona argumentação de que “tem programa” – não tem recursos mentais para defender o que nele está escrito, embora com uma infinidade de rasuras e emendas.

Perdeu o prumo com a história do Banco Central, com o auxiliar envolvido em corrupção e foi amparar sua opção preferencial pela direita na barra da saia de Luciana Genro, ao dizer que suas propostas eram “parecidas com as dela”.

Reduziu-se ao que é: nada.

Na minha opinião, deu adeus ao segundo turno das eleições.

Como estamos falando apenas de comportamento no confronto, palmas para Luciana Genro, que usou e abusou lindamente das gauchadas, sobretudo a de mandar Aécio Neves abaixar o dedo na hora em que lhe respondia e ao por o dedo na ferida de um candidato que fala todo o tempo em corrupção e, além de estar sustentado pelas forças da privataria, ainda teve a história do aeroporto “privé”.

“Aécio, tu é tão fanático das privatizações, e da corrupção, que tu chegou ao ponto de fazer um aeroporto com o dinheiro público e entregar a chave para teu tio, e isso tu ainda não explicou devidamente para o povo brasileiro.”

O tucano tremeu na base, se descontrolou, apontou o dedinho e levou o “fora” que marcou o debate.

Mas como Luciana é uma “franco-atiradora”, que terá uma vitória imensa chegando a 1 ou 2% no domingo, o que vale são os enfrentamentos entre os candidatos que estão no jogo: Dilma, Aécio e Marina, de quem, a esta altura, quase já se pode dizer que “estava no jogo”.

E Dilma se saiu bem, adotando uma postura combativa ainda pouco ousada, própria de quem chega ao último (ou penúltimo) roundganhando a luta por pontos.

Compreende-se que não quisesse ousar mais para não abrir a própria guarda para um imprevisto.

Do ponto de vista eleitoral, o debate fez pouco.

Aliás, parece que o voto dos cidadãos é menos importante até que o combalido Campeonato Brasileiro de Futebol, cujos jogos a Globo empurra para as dez da noite, enquanto o destino do país pega da faixa das 23 horas.

Do ponto de vista da politização e do esclarecimento cívico dos brasileiros, porém, fez ainda menos.

Há um cenário de inegável mediocridade na vida política brasileira e a falta de densidade e brilho nos debates eleitorais é um retrato disso.

E este é um problema que, inevitavelmente, o segundo mandato de Dilma e Lula, como seu avalista, terão de tratar.

O povo brasileiro está indo ao extremo em seu maravilhoso instinto de nação que quer e vai se afirmar, definindo seu voto contra uma imensa e quase monolítica máquina de mentiras e manipulações.

Mas se isso não foi discutido e demonstrado claramente como uma forma de nos escravizar, não reconstruiremos uma organização política capaz de enfrentá-la.

E a política, tal como a temos hoje, será esta superficialidade e esta hipocrisia que, como sustenta este blog todo o tempo, acaba por torná-la a arma das elites.

Que, para a sorte do povo brasileiro, conseguem perder até quando têm a faca, o queijo e a marmelada nas mãos.

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