Por Augusto Maia, de Curitiba, especial para o Escrevinhador
O tucano Beto Richa tenta a reeleição no Paraná e se firma, aos trancos e barrancos, como um quadro jovem da já pouco consistente safra nacional de lideranças do PSDB. Mas a manutenção em primeiro lugar nas pesquisas, com mais de 40% dos votos, é inversamente proporcional ao desempenho de Richa nos debates entre os candidatos e nas entrevistas dadas pelo atual governador.
O tucano comete erros sérios e seguidos. E admite, muitas vezes sem pudor, desconhecimento em várias áreas da sua gestão. Há um consenso na fala dos cinco candidatos opositores, entre os sete que concorrem com Richa no pleito: trata-se de um dos piores governos da História do estado.
Rivaliza diretamente com Richa o senador Roberto Requião, do PMDB, com cerca de 30% nas intenções de voto. A ex-ministra Gleisi Hoffmann, do PT, está estacionada em cerca de 10%.
Uma das marcas da gestão Richa foi o abandono dos serviços públicos. Na área de saúde, Richa seguidamente não atingiu o percentual mínimo previsto em Lei, de 12% de investimento na pasta. Para 2015, os números apontam que não alcançará, outra vez, a meta.
O sistema prisional paranaense teve episódios recentes de rebeliões no Oeste do estado e insatisfação dos trabalhadores do sistema. No episódio dos presídios, Richa alegou desconhecimento da situação. E a Defensoria Pública do Paraná já espera há quatro anos por recursos e convocação dos concursados, para finalmente sair do papel.
Em que pese ter se aproveitado de diversas políticas do governo federal, Richa apoia-se nos debates eleitorais no discurso da eficiência e do anti-petismo. Ele aproveitou em anos recentes das benesses econômicas do neodesenvolvimentismo, mas reforça o discurso ideológico anti-corrupção e anti-petista, que predomina nas suas falas nos debates.
Em segundo lugar nas pesquisas eleitorais, Requião pleiteia o seu quarto mandato. O mais recente governo, no período 2006 a 2010, foi marcado por polêmicas, enfrentamentos contra o cultivo de transgênicos e por interlocução com os movimentos sociais, sobretudo do campo.
Requião, que precisou derrotar o próprio partido para enfrentar Richa, ainda sofre as consequências disso, uma vez que vários nomes do PMDB no estado estão próximos do atual governador.
Com o humor ácido de sempre, Requião aponta o imobilismo do atual governo, tem o debate focado no retorno dos investimentos, na contenção das tarifas de água e luz via estatais, entre outras medidas. As pesquisas têm variado sobre a possibilidade dele passar ao segundo turno.
O terceiro lugar parece consolidado para a candidatura de Gleisi Hoffmann, que certamente esperava uma melhor posição, devido à ótima votação que teve ao Senado e pela experiência no cargo de ministra da Casa Civil.
No entanto, o cargo parece, na verdade, tê-la desgastado. Questiona-se se a figura da presidenta Dilma não deveria estar presente desde o início na campanha de Gleisi. A opção parece ter sido evitar essa exposição para um eleitorado conservador. Porém, Dilma apresenta bom percentual no estado, ao passo que Gleisi não avança nas pesquisas.
Gleisi escolheu apresentar-se como uma alternativa de gestão mais competente do que Beto Richa, pela sua própria experiência como ministra. Mesmo tendo subido o tom e partido para o ataque, ficou longe da maneira incisiva de Requião, que conseguiu polarizar o debate com Richa.
Entre as candidaturas restantes – restam cinco, entre os partidos menores –, a campanha mais interessante é a de Bernardo Pilotto, jovem liderança do PSOL, trabalhador da área de saúde, mas que não encontrou um discurso preciso e o espaço em um cenário já ocupado pelas três lideranças.
Um exemplo dessa limitação ocorreu no momento do último debate eleitoral, quando o tema discutido com Gleisi foram as políticas sociais. A ex-ministra elencou as medidas dos doze anos de governo do PT, tal como a expansão das universidades, o programa Minha Casa Minha Vida, entre outras, classificadas por Pilotto apenas como programas de “mercado”. Em lugar disso, deveria reconhecer os avanços desses programas e a identificação da população com eles, mas apontando a necessidade de se exigir mais.
O Psol deve seguir sem eleger um parlamentar no Paraná. A eleição de um deputado do Psol seria salutar para a democracia do estado, onde há uma Assembleia Legislativa marcada pelo aparelhamento de Richa. E também daria um acréscimo importante de visibilidade ao partido.
Por mais debate, um segundo turno necessário
Fato curioso, mesmo com o estigma de pior governo da história recente entre os formadores de opinião, Richa chega ao dia da eleição com 50% dos paranaenses considerando o seu governo ótimo ou bom, um recorde no cenário pós manifestações.
Seu correligionário de partido, o candidato ao Senado Álvaro Dias, também segue disparado na disputa ao Senado, com mais de 60% dos votos, mantendo-se como referência nacional do tucanato.
Pela própria dinâmica da campanha, de certa forma os três candidatos com melhor pontuação – Richa, Requião e Gleisi – estão reféns de um debate focado em denúncias de gestão, gastos pessoais e ataques violentos.
Uma ida ao segundo turno de Roberto Requião contra Beto Richa seria fundamental. Além de tirar de cena as candidaturas laranja, o senador peemedebista pode unificar a esquerda contra Richa e polarizar mais, forçando-o a enfrentar o debate. E, talvez, desobrigando Requião a apenas atacar com virulência o desgoverno de Richa, como vem fazendo, podendo apontar o programa que o Paraná e o Brasil necessitam.

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