Barack Obama deve cumprir a promessa e encerrar o Campo de Detenção da Baía de Guantânamo, mas o presidente dos EUA não tem vontade e não pretende fazê-lo, disse à Voz da Rússia o antigo prisioneiro de Guantânamo, Murat Kurnaz.
AFP / Getty Images Prisioneiros no centro de detenção ilegal dos EUA na base militar em Guantânamo.
No campo americano destinado para suspeitos de terrorismo, Kurnaz foi sujeito a maus tratos e torturas. Libertado da prisão de Guantânamo em agosto de 2006, Kurnaz descreveu seus tormentos no livro “Cinco anos da minha vida”.
Estamos propondo aos nossos leitores uma entrevista exclusiva de Murat Kurnaz à Voz da Rússia, concedida em Berlim.
Como se sente após todos esses anos?
Falando de saúde, não muito bem. Não posso dizer que fui bem tratado. De resto, estou bem.
Fala de vida quotidiana?
Sim, faço simplesmente o que quero, por isso posso dizer que tudo está normal.
Qual foi sua primeira reação ao relatório da CIA sobre torturas?
Não foi para mim uma novidade especial. Mas estou satisfeito com a divulgação desses dados. Isso, possivelmente, ajudará a uns ou outros advogados a defender a posição e a chamar à justiça os responsáveis.
Tem a certeza que sejam chamados à justiça?
Não, não tenho, mas espero.
A prisão de Guantânamo continua a funcionar, embora Barack Obama prometesse encerrá-la. A seu ver, será possível fazê-lo, por exemplo, com a ajuda da pressão sobre o governo dos EUA?
Simplesmente, Obama deve cumprir sua promessa, embora se entenda que o presidente não tem vontade de fazê-lo. Em qualquer caso, a pressão deve crescer em todo o mundo. E não apenas contra Guantânamo, mas contra todas as prisões de torturas em princípio. Em termos gerais, se o presidente de qualquer Estado prometeu algo e não está cumprindo sua promessa, considero que o povo já tem motivos para exercer uma forte pressão. Para tal há muitos métodos que se utilizam por algumas pessoas, mas isso é insuficiente.
O governo alemão diz que confia nos EUA. Pensa que todos esses entendimentos verbais visam simplesmente tranquilizar a opinião pública?
– Em qualquer caso, há tentativas de tranquilizar, porque isso é uma parte da política. Ou, mais exatamente, não é uma parte… Isso é a política.
Tem compaixão em relação a pessoas que se encontram presas em Guantânamo?
Sim e muito forte.
Não pretende organizar uma campanha por sua libertação? O senhor poderia encabeçar tal campanha?
Não sei. Tendo em conta que o interesse em relação a torturas como a um fenômeno é ínfimo, é pouco provável que isso tenha sentido. Mas eu faço tudo que posso na luta contra as torturas e espero que isso vai ajudar, mas, infelizmente, é pouco provável.
Continua a considerar que os EUA sejam um Estado de direito ou já tem outra opinião?
Que posso dizer… Claro que não considero assim. Se dissesse que considero, mentiria. Os EUA respondem por torturas, eles começam guerras sem razão, como, por exemplo, no Iraque, alegadamente por causa de armas químicas, embora fosse um absurdo. Hoje é conhecido que a prova foi fabricada pelo próprio Bush. Mas isso não preocupa os americanos, eles podem viver com isso. Por isso, em qualquer caso, os EUA não são um Estado de direito.
E a última pergunta – sobre o perigo do Estado Islâmico. Agora os americanos estão lutando contra o Estado Islâmico no Oriente Médio. Muitas pessoas dizem que o Estado Islâmico é produto final da política dos EUA dos dez últimos anos. Que pensa sobre isso?
É assim mesmo. É resultado da política dos EUA. Se eles não começassem a guerra no Iraque e não enforcassem Saddam Hussein, o Estado Islâmico, no mínimo, não estaria naquela parte. Tenho certeza disso em 99 por cento. Mas essas guerras foram desenlaçadas e muitas pessoas estão sedentas por vingança, por exemplo, os filhos dos pais mortos por americanos. Estão tomados pelo desejo de matar americanos. Se o Estado Islâmico tem ligações ao Islã, isso já é uma outra questão. Seus combatentes simplesmente têm a vontade de matar. Mas não foram eles, mas sim os americanos que criaram o Estado Islâmico.
Fonte: Voz da Rússia
Portal Vermelho

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