por Paulo Moreira Leite

Identificado com a política econômica que permitiu a Lula-Dilma acumular vitórias eleitorais, novo presidente da Petrobras recebe críticas já esperadas dos porta-vozes do mercado

A indicação de Aldemir Bendine para a presidência da Petrobras é mais positiva do que parece.

Bendine representa uma novidade na melodia exibida pela equipe econômica de Joaquim Levy. Não tem uma história ligada ao mercado, mas à política econômica que permitiu ao Brasil resistir ao colapso do capitalismo na crise de 2008-2009.

Na época, ele assumiu o Banco do Brasil para realizar uma bem sucedida política de ampliação do crédito, redução de juros e conquista de clientes que o setor privado decidira abandonar para não rebaixar seus lucros.

Nos telejornais, fala-se da queda dos papéis da Petrobras, após a nomeação de Bendine. como se este movimento, de caráter essencialmente especulativo, fosse diminuir a quantidade de arroz e feijão na mesa dos brasileiros.

É uma tentativa de despolitizar um debate importante.

A indicação do presidente da Petrobras, ainda mais numa conjuntura como a atual, tem um componente político inevitável. É um posto que define rumos, fortalece determinadas opções e pode enfraquecer outras.

Do ponto de vista dos mercados, só interessava um presidente capaz de encaminhar medidas privatizantes no futuro da empresa — e até a mudança no controle, se fosse possível.

Para este ponto de vista, essa mudança seria — e é — a chave de ouro para a Lava Jato, investigação que, muito além de qualquer desvio, propina ou irregularidade, criou um ambiente artificial de catástrofe e inquisição na maior empresa brasileira. Foi isso o que ocorreu com a ENI, estatal italiana de petróleo, no capítulo final da Operação Mãos Limpas, assumida fonte inspiradora do juiz Sergio Moro.

Imagine que, em oposição a Bendine, os jornais até noticiaram que o economista Paulo Leme chegou a ser incluído entre os possíveis candidatos a dirigir a empresa.

Era uma proposta apenas risível. Não há objeção à formação de Leme, um brasileiro que fez carreira como executivo do Goldman Sachs, e tem uma experiência profissional reconhecida. A questão é que se trata de um adversário agressivo do governo desde 2002, quando Lula tornou-se favorito na sucessão de Fernando Henrique Cardoso.

Sob sua guarda, um economista do Goldman Sachs chegou a produzir uma peça de campanha antipetista chamada Lulômetro. Tratando Lula com um candidato que merecia usar o chapéu de bôbo entre os concorrentes, o Lulômetro fazia previsões apocalípticas sobre a inflação e cambio que, com o passar dos anos, tornaram-se pura anedota.




Paulo Moreira Leite

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