Para compreender a importância do mais novo prisioneiro da Lava Jato, os brasileiros precisam entender que o almirante Othon Pinheiro da Silva é um pesquisador especialíssimo, capaz de travar batalhas na fronteira do conhecimento científico no plano mundial e sair-se vitorioso apesar de todas as condições difíceis de um país da periferia do capitalismo.

A prisão não é só uma derrota para os direitos humanos e as garantias individuais, como acontece com as dezenas de detidos levados para os cárceres de Curitiba, que contrariam a visão mais recente sobre detenções, que recomenda um uso ainda mais criterioso e prudente do que prevê o Código Penal. No caso de Othon, acrescente-se a derrota política à vergonha cultural.

Equivale, na Lava Jato, a um dos mais grotescos gestos de marketing do governo Fernando Collor, que se deu ao trabalho de ir até o poço de Cachimbo para jogar uma pá de cal num local apontado como área de testes do programa nuclear brasileiro -- alvo permanente de pressão por parte de Washington. Para quem recorda o esforço de Collor para se reaproximar da diplomacia norte-americana, pela abertura das importações e até condenando o voto brasileiro na ONU sobre sionismo, a cena de Cachimbo foi um pedido de benção dirigido aos EUA.

Pioneiro do programa nuclear brasileiro, o almirante Othon tem uma história com poucas semelhanças no país. Mas, para efeitos didáticos, e com todas as distâncias que precisam ser consideradas, pode ser definido como um Santos Dumont que deu certo. Não é exagero.

Explico: na Paris do início do século XX, que na época abrigava os principais pesquisas de aeronáutico do planeta, o pai brasileiro da aviação foi um pioneiro genial dos voos mais pesados do que o ar. Fez inovações consideradas fundamentais, injustamente diminuídas mais tarde. Mas Santos Dumont enfrentou condições adversas que impediram que tivesse um papel relevante quando o transporte aéreo se firmou e tornou-se um dos motores da economia mundial, nas primeiras décadas do século passado.

O almirante Othon fez sua parte na busca do conhecimento para uso da energia nucelar, uma das necessidades essenciais das sociedades humanas de nossa sociedade.

Claro que ele não inventou o enriquecimento de urânio, mas ajudou na criação de uma tecnologia mais eficaz para isso, a partir de centrífugas desenvolvidas no país. Era uma medida essencial para o desenvolvimento brasileiro, já que não se trata de uma mercadoria que se possa comprar em supermercado.

Ao contrário do que ocorreu com Santos Dumont, inventor numa época em que não tinha uma noção plena da riqueza que estava sendo criado nos céus da capital francesa, o trabalho do Almirante Othon ocorreu numa situação em que todo mundo reconhece a importância da energia nuclear.

Abastecendo mais de metade da energia dos países europeus -- na França, a porcentagem supera 70% -- ela é essencial na vida de todos os dias, numa necessidade que cresce na mesma proporção em que uma sociedade eleva seu grau de desenvolvimento.

Num mundo conflituoso e tenso, o conhecimento atômico também é um fator de relevo para um país interessado em defender-se pela estratégia da chamada dissuasão militar -- a ameaça de destruição mútua que bloqueia todo passo inicial num conflito atômico.

Nessa situação, as potências mundiais, lideradas pelos Estados Unidos, tentam assegurar o monopólio exclusivo do conhecimento e produção de energia nuclear. O controle é essencialmente político.

Um aliado estratégico de Washington, o Estado de Israel, não é incomodado em suas pesquisas, inclusive para uso militar. Já as pesquisas do Irã, como nós sabemos, só avançam contra ameaças, chantagens e atos de guerra e terrorismo.

O programa nuclear brasileiro, que é parte de um esforço nacional de soberania, sempre foi alvo de pressões dessa natureza. O bloqueio à compra de material estratégico é histórico. As suspeitas de sabotagem a pesquisas que poderiam ser bem sucedidas também. Atuando nessa situação adversa, determinadas compras precisavam ser feitas de forma encoberta para evitar que os fornecedores fossem rastreados e retaliados.

Sem conhecer todos os detalhes da delação premiada de Dalton Avancini, que teria dado base à acusação contra o almirante, não é possível ter uma opinião sobre a denúncia, em si. Qualquer que seja sua consistência, o pouco que se pode conhecer indica algo semelhante ao disse-que-disse de sempre, muito empregado por executivos interessados em garantir uma pena baixa depois de se envolverem em esquemas altos.

Se ninguém está acima de todas as suspeitas, o almirante Othon tem o direito -- como os outros réus, aliás -- de explicar-se em liberdade. Deve ser ouvido, lealmente.

Não podemos esquecer que toda pessoa é inocente até que se prove o contrário. Vivemos e queremos viver sob um Estado Democrático de Direito, onde as pessoas vivem em liberdade e só podem ser presas após julgamento, quando sua culpa está demonstrada após o contraditório e o amplo direito de defesa.

PML

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