Os jovens e os maduros, os ricos e os pobres — antagônicos. A classe média paulistana não é necessariamente antipetista. Está dividida entre o apoio e a oposição ao PT. Mas com um claro viés de renda e idade.


A Folha de São Paulo em suas edições de 14 de março e 20 de março de 2016 fez um belíssimo trabalho traçando os perfis dos manifestantes a favor e contra o governo.

Pena que o golpismo que apequena a sua redação tenha a feito desperdiçar um trabalho tão bom.

Uma insinuação maldosa

A matéria de 20 de março traz como manchete uma insinuação maldosa: “Em SP, 15% dos manifestantes em ato pró-Dilma eram funcionários públicos”.

A insinuação de uso da máquina administrativa é clara, assim como a tentativa de desmerecer quem lá compareceu para defender o governo federal. Óbvio que a Folha não declara se os funcionários eram estaduais do governo do PSDB ou federais e municipais do governo do PT. Deixa que o preconceito faça o serviço sujo.



Pois bem, tanto na manifestação de domingo contra o governo federal quanto na manifestação a favor, na sexta-feira, houve a presença de funcionários públicos em maior proporção do que a que tem na população. Na população, segundo a Folha, há uma proporção de 3% de funcionários públicos. Na manifestação a favor do governo Dilma a Folha levantou a presença de 15% de funcionários públicos. Ocorre que na manifestação contra o governo Dilma a Folha estimou a presença de 5% de funcionários públicos. Claramente há uma diferença muito grande entre 15% e 5 %, mas em ambos os casos a presença é maior do que na população em geral.

Mas como explicar a desproporção entre 5% contra Dilma e 15% a favor?

Poderíamos dizer simplesmente que funcionários públicos são mais politizados e apoiam o PT.

Mas não, basta uma análise dos dados da própria Folha sobre o perfil dos participantes estratificado por renda para perceber-se que o funcionário público de alto escalão e alto salário esteve na manifestação dos contra e o funcionário público comum esteve na manifestação dos que são a favor. E este último, por óbvio, representa um contingente muito maior.

Os jovens e os maduros, os ricos e os pobres

Feito esse preâmbulo, qual o perfil dos que são a favor de Dilma e dos que são contra?

Não há dúvida, são distintos.

A favor estão os mais jovens e as pessoas de classe média a baixa. Contra, as pessoas de classe média e alta e os mais velhos.

77% dos contra têm mais de 36 anos e 40% tem mais de 50 anos. 48% dos que apoiam o PT têm menos de 35 anos e 74% tem menos de 50 anos.



63% dos contra têm renda de mais de 5 salários mínimo e 13% têm renda acima de 20 salários mínimos.

A favor de Dilma e do PT, 44% ganham até 5 salários mínimos e 72% ganham até 10 salários mínimos.



E esse é um dado muito interessante, a classe média paulistana não é necessariamente antipetista, se divide entre o apoio e a oposição ao PT. Mas com um claro viés de renda e idade.

A Folha parece não ter perguntado aos que apoiam o PT qual a etnia a que se filiam. Entre os antipetistas, 77% se declararam brancos.

O apedeuta e o doutor

Quando se estratifica os participantes por escolaridade, talvez surja o dado mais interessante de todos. Não há diferença alguma entre o perfil do contra e do a favor. Todos têm boa formação acadêmica. A grande maioria, curso superior.



Talvez seja uma característica paulistana, a escolaridade de média acima. Mas é sempre possível que as pessoas de baixa escolaridade não estejam entendendo o que está em jogo ou simplesmente não tenham se motivado com ele.

De qualquer sorte, é o único estrato social que não se fez presente contra ou a favor. Em um quadro polarizado, eis talvez um público a ser conquistado.

Contrassenso e consequências eleitorais

O perfil traçado pela Folha mostra que, pelo menos em São Paulo, os contra são pouco significativos como contingente eleitoral. Mais uma vez, vai se comprovando que o antipetismo é a voz grossa dos poucos.

Porém, em uma cidade reconhecida pelo seu antipetismo, isso é um contrassenso. Um contrassenso com enorme potencial eleitoral para o grupo que decifrá-lo.

PS: esta Oficina apoia o Movimento Golpe Nunca Mais.

Sérgio Saraiva
No Oficina de Concertos Gerais e Poesia

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