“Não reconheceremos legitimidade em um governo que chegar ao poder por um golpe”, diz líder dos trabalhadores sem-teto, para quem conflitos sociais vão aumentar
por Sarah Fernandes,




São Paulo – O coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, afirmou hoje (18) que a aprovação da admissibilidade do impeachment da presidenta Dilma Roussef na Câmara dos Deputados, ontem, é um golpe sem sustentação popular e que vai aprofundar os conflitos sociais no país. “Não reconheceremos nenhuma legitimidade em um governo que chegar ao poder por um golpe parlamentar”, disse.

Boulos garantiu que a Frente Povo sem Medo (da qual faz parte do MTST) e a Frente Brasil Popular, aliados com outros movimentos sociais, iniciarão já nos próximos dias uma série de protestos contra o impeachment, que avança no Congresso. “A questão é: se o golpe ocorrer, o país sofrerá com um pacote brutal de devassa nos direitos e programas sociais. Então, é evidente que vai haver resistência popular intransigente pelo Brasil.”

Com 367 votos favoráveis e 137 contrários, além de sete abstenções e duas faltas, a Câmara aprovou a autorização para o processo de impeachment seguir para o Senado. A sessão durou quase dez horas e a votação, seis.
DANILO RAMOS/RBA'Maioria do Congresso é formada por ladrões, que representam os interesses mais atrasados', diz liderança


Às 23h08, faltando cerca de 40 minutos para o fim da sessão, o deputado Bruno Araújo (PSDB-PE) completou os 342 votos necessários para a autorização do impeachment. Parlamentares que defendem o processo comemoraram e os contrários apontaram ilegalidades. O processo deve ser entregue para o Senado ainda hoje.

A aprovação na Câmara não surpreendeu Boulos. “A maioria do Congresso hoje é formada por um sindicato de ladrões que representam os interesses mais atrasados e mais fisiológicos. Os princípios dos grupos políticos que estão lá são aliados com grandes grupos econômicos. Não é de se surpreender que o nível seja aquele mesmo e que eles votem pelas famílias, pelas igrejas evangélicas, pela renovação carismática católica, pela propriedade e por tudo mais”, diz.

Para o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), o Congresso eleito em 2014 é o mais conservador desde 1964, com o aumento do número de parlamentares ligados a militares, religiosos, ruralistas e outros segmentos considerados conservadores. O número de deputados ligados a causas sociais e trabalhistas caiu drasticamente em relação à legislatura passada.

“Eles defendem os interesses de quem financiou suas campanhas e representam os sentimentos mais conservadores e rasteiros da sociedade brasileira”, diz Boulos. “O impeachment é só parte das aberrações deste Congresso, que no ano passado já aprovou redução da maioridade penal, que esta semana vai votar a terceirização e que ataca constantemente direitos das mulheres, a liberdade sexual e as minorias.”

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