As notícias do final de semana sobre a impopularidade do vice-presidente Temer e sobre as bombas da Lava Jato que começam a cair sobre sua cabeça ampliaram a resistência do PSDB a embarcar na canoa do virtual futuro governo. “Temos o dever de apoiá-lo e sustentá-lo, politicamente, mas sem cargo e sem pasta. Repito: sem cargo e sem pasta”, disse ontem ao Globo o governador Geraldo Alckmin. Nem por isso o senador José Serra, que pensa o contrário, deixou de encontrar-se ontem à noite com Temer. O senador Aécio Neves não se posicionou claramente mas ele já colocou sua digital no golpe ao indicar como relator da comissão especial que o Senado elege hoje alguém que quase se confunde com ele: Antônio Anastasia, que foi seu vice, sucessor e é seu leal seguidor.

A canoa de Temer ainda está atracada no Jaburu mas já inspira desconfiança nos próprios aliados. Não é por aversão ao fisiologismo que o PSDB resiste. É por temer que o barco afunde. De fisiologismo entendem tanto quanto o PT. Fernando Henrique precisou lotear o governo com PFL, PTB e outros para governar. Lula e Dilma também foram compelidos a se compor com o PMDB e o rebotalho partidário para formar maioria. Este é o sistema. O PSDB elegeu pouco mais de 20% da Câmara em 1994 e em 1997. O PT, nas quatro eleições presidenciais que venceu, nunca elegeu mais de 18% dos deputados.

Com uma desenvoltura chocante para quem ainda não sentou na cadeira, Temer passou o final de semana em conversas sobre a composição da equipe econômica: Meirelles, Skaf e Serra estiveram no Jaburu. Certamente não entraram em conversa tão elevada notícias sobre a pesquisa IBOPE ou sobre a delação do dono da Engevix, de que lhe pagou através de terceiro uma propina de um milhão de reais pelo ingresso num contrato com a Eletronuclear. Sem falar em confronto de manifestantes na paulista, advertência da Unasul, repercussão negativa do golpe continuada na mídia internacional e outros augúrios.

A pesquisa IBOPE antecipada pelo colunista Lauro Jardim constatou que apenas 8% dos entrevistados acreditam que o governo Temer solucionará as crises política e econômica. Para 62%, melhor seria a saída dele e de Dilma com a realização de nova eleição presidencial. E isso antes de ele colocar em prática as medidas anti-populares que anda discutindo com empresários e candidatos a ministro. Também por isso os tucanos estão evitando o barco.

Embora já tenha aparecido pelo menos quatro vezes nas delações da Lava Jato, a matéria de Época sobre as revelações de José Antunes Sobrinho, um dos donos da Engevix, foi que empurrou com mais força o vice para o circulo de Sergio Moro. O empresário teria dito que pagou propina de um milhão a emissário de Temer como forma de agradecimento pela participação numa licitação de R$ 162 milhões da Eletronuclear para operar na usina de Angra 3.

Procurado pela revista, Temer admitiu o encontro com o emissário – o dono de uma pequena empreiteira que venceu a licitação e se associou à Engevix par a execução do contrato – mas negou a propina. No sábado precisou soltar uma nota, que pode ter sido só a primeira a tratar do assunto, “repudiando com veemência” as informações publicadas.

Segundo “Época”, a proposta de delação cita ainda o presidente do Senado, Renan Calheiros, o senador e presidente do PP Ciro Nogueira, o ministro Edinho Silva e a ex-ministra Erenice Guerra. Ciro Nogueira negociou uma aliança com o governo para garantir votos do PP contra o impeachment na Câmara mas o partido acabou fechando questão a favor e descarregando votos que ajudaram a selar o destino de Dilma. Segundo o delator, o consórcio Inframérica, do qual a participa a Engevix, enfrentava problemas financeiros por causa do atraso na liberação de um empréstimo pela Caixa. Ele diz ter sido procurado por dois lobistas ligados a Ciro e a Renan, com os quais acertou uma propina de R$ 2 milhões, pagos em parcelas de R$ 400 mil. Os lobistas ficariam com 1% e o resto seria dos políticos.

Mas sem dúvida neste folhetim o personagem principal é Temer. E também por isso, os tucanos evitam sua canoa.

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