Vamos combinar que a ruína precoce do governo Michel Temer era visível desde o primeiro dia. Num país que abriga 200 milhões de pessoas, hospeda a sétima economia do planeta e que na última década e meia atravessou um período de progresso social reconhecido, nenhum governo poderia sobreviver sem oferecer respostas a demandas urgentes de bem-estar social e sem apreço pelos valores valores democráticos consolidados pela Constituição de 1988.
Obra do talento e perseverança do repórter Rubens Valente, a revelação do espetacular conjunto de diálogos gravados entre o agora ex-ministro Romero Jucá e o empresário-senador tucano Sergio Machado está destinada a apressar o colapso de um pacto nascido de uma aliança entre o oportunismo absoluto e a irresponsabilidade total.
Num país habituado a escândalos abrigados no interior de tantos governos, temos a comprovação de que, desta vez, o governo em si é o próprio escândalo. Não há "problemas" no governo Temer. Ele é o problema, mostram os diálogos. Vem de dentro, como um mal interno.
Todos os passos que levaram a derrubada de uma presidente eleita com mais de 54,5 milhões de votos são explicados e muitas vezes explicitados numa conversa reveladora e chocante. O escândalo é este. É certo que Temer & Cia pretendem promover a regressão econômica, social e política do país, que tentam ecolonizar em prazo recorde e linguagem pedante, cuidados ideais para medidas às costas do povo.
Os grampos confirmam uma motivação final. Promoveu-se uma operação dramática, de imensas consequências históricas e traumas profundos na economia, na política, no destino do maior país da América do Sul, pelo puro interesse de salvar a pele de senadores, ministros e empresários acusados de corrupção.
Tentou-se a destruição de toda liderança autêntica que pudesse aparecer no meio do caminho, inclusive Lula, o mais popular político brasileiro, com esta finalidade. Manipulou-se a vontade política de um país inteiro.
Você escolhe a trapaça. A aliança entre Michel Temer e Eduardo Cunha surge como uma força real imbatível nos movimentos da turma – exatamente como se vê hoje em dia, em nomeações que envergonham e constrangem. A docilidade de Renan Calheiros aos golpistas, quando seria razoável aguardar uma postura menos submissa, se explica e se compreende pelos argumentos de Sérgio Machado, aliado e amigo.
Desde a posse do governo provisório era possível ouvir, num crescendo, o grito Fora Temer, modulado em vários ritmos e melodias, inclusive de caráter erudito. Fora Temer, agora, é pouco. Não expressa a gravidade da situação. Não há governo mas uma fraude e uma farsa.
Empossado sem a legitimidade que só o voto direto e secreto confere a qualquer autoridade política num país onde a Diretas-Já permanece como a mais profunda mobilização política desde a Abolição da escravatura, até agora a presença governo Michel Temer a frente da República podia ser justificado como um acidente de percurso. As gravações mostram que se trata de uma conspiração e um escárnio. O acidente foi provocado e o percurso era uma montagem.
São fatos que humilham analistas políticos que saudaram um suposto progresso ético prometido pelo impeachment de uma presidente honesta. Envergonham quem disse que a economia precisava da credibilidade de voltar a crescer. Confiança? Credibilidade. Por favor...
O sonho fajutíssimo da democracia sem povo acabou ontem.
Não duvide. Nos próximos dias, quem sabe semanas, a população, já descontente, já mobilizada, começa a reagir com mais força.

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