O golpe de 16 não é um golpe tanto quanto o golpe de 64 não foi um golpe – durante 21 anos, os golpistas o chamaram de “revolução”. Não é estranho, portanto, que os golpistas atuais se incomodem que o golpe atual seja chamado de golpe tal qual.
Por Sérgio Saraiva
Não que eu creia na isenção jornalística. Isenção não existe sequer nos livros de história. Tampouco a acho essencialmente necessária para que seja feito um bom jornalismo. Jornalismo é atividade humana, logo, política em sua essência – ideológica no mais das vezes.
O jornal ter uma posição política definida e explicitada aos seus leitores em nada reduz o valor de suas matérias. Talvez ao contrário. A única regra é que o jornal não brigue com os fatos.
E de há muito que a Folha e os fatos se relacionam em cenas do mais explicito pugilato.
Pois bem, após várias primeiras páginas com manchetes de júbilo pela derrubada da presidente Dilma, às quais não faltou o pior uso do fotojornalismo como forma de ridicularizar pessoas, a Folha deu para implicar-se com uso do termo “golpe” utilizado para descrever ”o golpe de 16”.
Incomoda-lhe principalmente que o seja utilizado em terras estrangeiras onde não pode simplesmente esconder a notícia como o faz com as multidões que têm recepcionado Dilma Rousseff, Brasil afora.
Caso único na história, que Sérgio Dávila, editor-executivo da Folha, me corrija, uma presidente afastada do cargo por improbidade administrativa “num processo político-jurídico legítimo, amparado pela Constituição e supervisionado por uma suprema corte insuspeita” receber do povo, após o afastamento, o apoio entusiasmado que antes não recebia.
Já deveria ser o suficiente para um jornalista desconfiar do tal “processo político-jurídico legítimo”.
Somem-se a isso as cenas da votação da aceitabilidade do processo de impeachment pela Câmara dos Deputados serem uma das mais constrangedoras da nossa atividade política, desde que dela lembro-me. Iguala-se talvez a de 1964 que declarou a vacância do cargo presidencial legitimando o golpe que a Folha hoje chama de golpe. O qual apoiou e levou cinquenta anos para reconhecer. Dois anos depois reincide.
É natural que o uso da palavra golpe lhe seja incômodo. Tal qual o uso da palavra vício é incômodo para o viciado. Reconhecendo-se, a bem do viciado, que o viciado é uma vítima de circunstâncias que não teve poder para dominar. Poder e domínio jamais faltaram a Folha.
É com esse pano de fundo que se dá o artigo do editor-executivo da Folha de São Paulo de 22 de maio de 2016. Recendendo à arrogância dos que se sabem donos da verdade, critica o posicionamento do elenco do filme “Aquarius” que em Cannes chamou o golpe de golpe.
Que motivo teria o elenco em denunciar como golpe um golpe inexistente é coisa à qual o artigo não se dedica.
Talvez seja o elenco formado de vagabundos que mamavam nas tetas do governo tal qual blogueiros chapas brancas e que agora protestam pela perda da sua sinecura. A acusação aos blogueiros faz parte das paranoias da Folha.
Quanto à denúncia do golpe em si, tratar-se-ia de uma criação de mentes cinematográficas.
A realidade, mais feia e nuançada, é que Dilma é culpada.
Teria contra si a culpa que o cordeiro tinha por sujar a água do lobo ao beber do rio abaixo do ponto onde o lobo bebia:
“se não roubou, não impediu que roubassem. Presidiu sobre a pior crise econômica em décadas, em parte resultado de decisões erradas que ela tomou. Foi alvo das maiores manifestações de rua do país desde as Diretas-Já. Bateu recordes de impopularidade. Isolou-se.”
Falta a Folha apresentar onde em seu argumento está o crime de responsabilidade que justificaria o pedido de impeachment de uma presidente democraticamente eleita.
E quanto à alegada supervisão do processo “por uma suprema corte insuspeita”, uma corte constitucional que se escusa de apreciar a existência de mérito no processo e permite que esse processo seja conduzido por um réu dessa mesma corte, inimigo figadal da presidente e principal beneficiário do seu afastamento é uma corte insuspeita?
Que se volte aos vários golpes que este país já sofreu, quando o STF foi um empecilho a eles?
O golpe de 16 não é um golpe tanto quanto o golpe de 64 não foi um golpe – durante 21 anos, os golpistas o chamaram de “revolução”. Não é estranho, portanto, que os golpistas atuais se incomodem que o golpe atual seja chamado de golpe tal qual.
Não se trata de autoengano, senão de exercício do poder de intimidação. A própria presidente está sendo demandada na “insuspeita suprema corte” pelo delito do uso do termo golpe para designar o golpe do qual foi vítima.
Quanto ao autoengano no qual a Folha considera ter caído o elenco de “Aquarius”: “uma elite econômica não se conforma com o resultado das urnas e passa a conspirar com o pior da política e da imprensa para fazer o impeachment de uma presidente cujo único erro foi ser honesta demais, num partido que ousou tirar os pobres da miséria”, por mais que incomode a Folha, os poetas como cegos sabem ver na escuridão.
E como poetas, são fingidores capazes de chamar de golpe o golpe que deveras o é.
PS.: Oficina de Concertos Gerais e Poesia, um lugar onde não se chama cachorro de caixa, nem Jesus de Genésio.

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