Eu ia escrever sobre o final da cena circense dos procuradores da Lava Jato, uns rapazes arrogantes, que não acusam com fatos, mas com uma adjetivação feroz e autoritária, transformando suas convicções (ou seus conceitos previamente formulados).
Mas, quando li no Blog do Marcelo Auler a carta aberta de do ex-vice-procurador geral e ex-Ministro da Justiça, Eugênio Aragão a Rodrigo Janot achei melhor publicá-la também, com um ligeiro comentário.
Poucas vezes o caráter de um homem foi tão reveladoramente desnudado como foi o do Procurador Geral da República.
Janot não é o chefe da PGR, escolheu reduzir-se a um homem que se subordina à um grupo de prepotentes que se assenhoreou da instituição.
Um documento para ficar para a história
Carta aberta de Eugênio Aragão a Rodrigo Janot
“Praecepta iuris sunt haec: honeste vivere, alterum non laedere, suum cuique tribuere” (Ulpiano)
“Os preceitos do direitos são estes: viver honestamente, não lesar a outrem, dar a cada um o que é seu.” (Ulpiano)
“Os preceitos do direitos são estes: viver honestamente, não lesar a outrem, dar a cada um o que é seu.” (Ulpiano)
“Disse o Senhor Procurador-Geral da
República por ocasião da posse da nova presidente do STF, Ministra
Carmen Lúcia, que se tem “observado diuturnamente um trabalho desonesto
de desconstrução da imagem de investigadores e de juízes. Atos
midiáticos buscam ainda conspurcar o trabalho sério e isento
desenvolvido nas investigações da Lava Jato”.
Visto a carapuça, Doutor Rodrigo
Janot. E lhe respondo publicamente, por ser esse o único meio que me
resta para defender a honestidade de meu trabalho, posta em dúvida,
também publicamente, pelo Senhor, numa ocasião solene, na qual jamais
alcançaria o direito de resposta.
O Senhor sabe o quanto tenho sido
ostensivamente crítico da forma de agir estrambólica dos agentes do
Estado, perceptível, em maior grau, desde a Ação Penal 470, sob a batuta
freisleriana do Ministro Joaquim Barbosa.
Aliás, antes de ser procurador-geral,
o Senhor compartilhava comigo, em várias conversas pessoais, minha
crítica, dirigida, até mesmo, ao Procurador-Geral da República de então,
Doutor Gurgel. Lembro-me bem de suas opiniões sobre a falta de noção de
oportunidade de Sua Excelência, quando denunciou o Senador Renan
Calheiros em plena campanha à presidência do Senado.
Lembro-me, também, de nossa inconformação solidária contra as injustiças perpetradas na Ação Penal 470 contra nosso (grifo do original) amigo José Genoíno.
“Não foi uma só vez que o Senhor
contou que seus antecessores sabiam da inocência de Genoíno, mas não o
retiraram da ação penal porque colocaria em risco o castelo teórico do
“Mensalão”, como empreitada de uma quadrilha, da qual esse nosso amigo
tinha que fazer parte, para completar o número”.
Por sinal, conheci José Genoíno em
seu apartamento, na Asa Sul, quando o Senhor e eu dirigíamos em parceria
a Escola Superior do Ministério Público da União. Àquela ocasião, já
era investigado, senão denunciado, por Doutor Antônio Fernando.
Janot, conforme explica Aragão na
carta, tinha consciência da inocência de José Genoino com quem
conversava e até oferecia almoços e jantares que o próprio Janot
cozinhava em sua casa.
Admirei a sua coragem, Doutor
Rodrigo, de não se deixar intimidar pelos arroubos midiáticos e
jurisdicionais vindas do Excelso Sodalício. Com José Genoíno travamos
interessantes debates sobre o futuro do País, sobre a necessidade de
construção de um pensamento estratégico com a parceria do ministério
público.
Tornou-se, esse político, então, mais
do que um parceiro, um amigo, digno de ser recebido reiteradamente em
seu lar, para se deliciar com sua arte culinária. De minha parte, como
não sou tão bom cozinheiro quanto o Senhor, preferia encontrar, com
frequência, Genoíno, com muito gosto e admiração pela pessoa simples e
reta que se me revelava cada vez mais, no restaurante árabe do Hotel das
Nações, onde ele se hospedava. Era nosso point.
Cá para nós, Doutor Rodrigo Janot, o
Senhor jamais poderia se surpreender com meu modo de pensar e de agir,
para chamá-lo de desonesto. O Senhor me conhece há alguns anos e até me
confere o irônico apelido de “Arengão”, por saber que não fujo ao
conflito quando pressinto injustiça no ar. Compartilhei esse
pressentimento de injustiça com o Senhor, já quando era procurador-geral
e eu seu vice, no Tribunal Superior Eleitoral.
Compartilhei meus receios sobre os
desastrosos efeitos da Lava Jato sobre a economia do País e sobre a
destruição inevitável de setores estratégicos que detinham
insubstituível ativo tecnológico para o desenvolvimento do Brasil. Da
última vez que o abordei sobre esse assunto, em sua casa, o Senhor
desqualificou qualquer esforço para salvar a indústria da construção
civil, sugerindo-me que não deveria me meter nisso, porque a Lava Jato
era “muito maior” do que nós.
Mas continuemos no flash-back.
Tinha-o como um amigo, companheiro,
camarada. Amigo não trai, amigo é crítico sem machucar, amigo é
solidário e sempre tem um ouvido para as angústias do outro.
Lutamos juntos, em 2009, para que
Lula indicasse Wagner Gonçalves procurador-geral, cada um com seus
meios. Os meus eram os contatos sólidos que tinha no governo pelo meu
modo de pensar, muito próximo ao projeto nacional que se desenvolvia e
que fui conhecendo em profundidade quando coordenador da 5ª Câmara de
Coordenação e Revisão da PGR, que cuidava da defesa do patrimônio
público.
Ficamos frustrados quando, de última hora, Lula, seguindo conselhos equivocados, decidiu reconduzir o Doutor Antônio Fernando.
Em 2011, tentamos de novo, desta vez com sua candidatura contra Gurgel para PGR.
Na verdade, sabíamos que se tratava
apenas de um laboratório de ensaio, pois, com o clamor público induzido
pelos arroubos da mídia e os chiliques televisivos do relator da Ação
Penal 470, poucas seriam as chances de, agora Dilma, deixar de indicar o
Doutor Gurgel, candidato de Antônio Fernando, ao cargo de
procurador-geral.
Ainda assim, levei a missão a sério.
Fui atrás de meus contatos no Planalto, defendi seu nome com todo meu
ardor e consegui, até, convencer alguns, mas não suficientes para virar o
jogo.
Mas, vamos em frente.
Em 2013, quando o Senhor se
encontrava meio que no ostracismo funcional porque ousara concorrer com o
Doutor Gurgel, disse-me que voltaria a concorrer para PGR e, desta vez,
para valer.
Era, eu, Corregedor-Geral do MPF e,
com muito cuidado, me meti na empreitada. Procurei o Doutor Luiz Carlos
Sigmaringa Seixas, meu amigo-irmão há quase trinta anos, e pedi seu
apoio a sua causa.
Procurei conhecidos do PT em São
Paulo, conversei com ministros do STF com quem tinha contatos pessoais.
Enquanto isso, o Senhor foi fazendo sua campanha Brasil afora, contando
com o apoio de um grupo de procuradores e procuradoras que, diga-se de
passagem, na disputa com Gurgel tinham ficado, em sua maioria, com ele.
Incluía, até mesmo, o pai da
importação xinguelingue ( Gíria paulista: produto barato que vem da
China, geralmente de baixíssima qualidade) da teoria do domínio do fato,
elaborado por Claus Roxin no seu original, mas completamente deturpada
na Pindorama, para se transmutar em teoria de responsabilidade penal
objetiva.
Achava essa mistura de apoiadores um
tanto estranha, pois eu, que fazia o trabalho de viabilizar externamente
seu nome, nada tinha em comum com essa turma em termos de visão sobre o
ministério público.
Como o Senhor sabe, no início de
2012, publiquei, numa obra em “homenagem” ao então Vice-Presidente da
República, Michel Temer, um artigo extremamente polêmico sobre as
mutações disfuncionais por que o ministério público vinha passando.
Esse artigo, reproduzido no Congresso
em Foco, com o título “Ministério Público na Encruzilhada: Parceiro
entre Sociedade e Estado ou Adversário implacável da Governabilidade?”,
quando tornado público, foi alvo de síncopes corporativas na rede de
discussão @Membros.
Faltaram querer me linchar, porque
nossa casa não é democrática. Ela se rege por um princípio de omertà
muito próprio das sociedades secretas. Mas não me deixei intimidar.
Depois, ainda em 2013, publiquei
outro artigo, em crítica feroz ao movimento corporativo-rueiro contra a
PEC 37, também no Congresso em Foco, com o título “Derrota da PEC 37: a
apropriação corporativa dos movimentos de rua no Brasil”.
(N.R. A PEC 37, derrotada na Câmara em
junho de 2013, determinava que o poder de investigação criminal seria
exclusivo das polícias federal e civis, retirando esta atribuição de
alguns órgãos e, sobretudo, do Ministério Público (MP).
Sua turma de apoio me qualificou de
insano, por escrever isso em plena campanha eleitoral do Senhor. Só que
se esqueceram que meu compromisso nunca foi com eles e com o esforço
corporativo de indicar o Procurador-Geral da República por lista
tríplice.Sempre achei esse método de escolha do chefe da instituição um
grande equívoco dos governos Lula e Dilma.
Meu compromisso era com sua indicação
para o cargo, porque acreditava na sua liderança na casa, para mudar a
cultura do risco exibicionista de muitos colegas, que afetava
enormemente a qualidade de governança do País.
No seu caso, pensava, a coincidência
de poder ser o mais votado pela corporação e de ter a qualidade da
sensibilidade para com a política extra-institucional, era conveniente,
até porque a seu lado, poderia colaborar para manter um ambiente de
parceria com o governo e os atores políticos.
Não foi por outro motivo que, quando
me deu a opção, preferi ocupar a Vice-Procuradoria-Geral Eleitoral a
ocupar a Vice-Procuradoria-Geral da República que, a meu ver, tinha que
ser destinada à Doutora Ela Wiecko Volkmer de Castilho, por deter,
também, expressiva liderança na casa e contar com boa articulação com o
movimento das mulheres. Este foi um conselho meu que o Senhor
prontamente atendeu, ainda antes de ser escolhido.
Naqueles dias, a escolha da
Presidenta da República para o cargo de procurador-geral estava entre o
Senhor e a Doutora Ela, pendendo mais para a segunda, por ser mulher e
ter tido contato pessoal com a Presidenta, que a admirava e continua
admirando muito.
Ademais, Doutora Ela contava com o
apoio do Advogado-Geral da União, Doutor Luís Inácio Adams. Brigando
pelo Senhor estávamos nós, atuando sobre o então Ministro da Justiça,
José Eduardo Cardozo e o amigo Luiz Carlos Sigmaringa Seixas.
Quando ouvimos boatos de que a
mensagem ao Senado, com a indicação da Doutora Ela, estava já na Casa
Civil para ser assinada, imediatamente agi, procurando o Ministro
Ricardo Lewandowski, que, após recebê-lo, contatou a Presidenta para
recomendar seu nome.
No dia em que o Senhor foi chamado
para conversar com a Presidenta, fui consultado pelo Ministro da Justiça
e pelo Advogado-Geral da União, pedindo que confirmasse, ou não, que
seu nome era o melhor. Confirmei, em ambos os contatos telefônicos.
Na verdade, para se tornar
Procurador-Geral da República, o Senhor teve que fazer alianças
contraditórias, já que não aceitaria ser nomeado fora do método de
escolha corporativista.
Acendeu velas para dois demônios que não tinham qualquer afinidade entre si: a corporação e eu.
Da primeira precisou de suporte para
receber seus estrondosos 800 e tantos votos e, de mim, para se
viabilizar num mundo em que o Senhor era um estranho. Diante do meu
receio de que essa química poderia não funcionar, o Senhor me acalmou,
dizendo que nós nos consultaríamos em tudo, inclusive no que se tinha a
fazer na execução do julgado da Ação Penal 470, que, a essa altura, já
estava prestes a transitar.
O dia de sua posse foi, para mim, um
momento de vitória. Não uma vitória pessoal, mas uma vitória do Estado
Democrático de Direito que, agora, teria um chefe do ministério público
enérgico e conhecedor de todas as mazelas da instituição. Sim, tinha-o
como o colega no MPF que melhor conhecia a política interna, não só
pelos cargos que ocupara, mas sobretudo pelo seu jeitão mineiro e
bonachão de conversar com todos, sem deixar de ter lado e ser direto,
sincero, às vezes até demais.
Seu déficit em conhecimento do
ambiente externo seria suprido com o exercício do cargo e poderia, eu,
se chamado, auxiliá-lo, assim como Wagner Gonçalves ou Claudio Fonteles.
Meu susto se deu já no primeiro mês
de seu exercício como procurador-geral. Pediu, sem qualquer explicação
ou conversa prévia com o parceiro de que tanto precisou para chegar lá, a
prisão de José Genoíno. E isso poucos meses depois de ele ter estado
com o Senhor como amigo in pectore.
Eu não tenho medo de assumir que
participei desses contatos. Sempre afirmei publicamente a extrema
injustiça do processo do “Mensalão” no que toca aos atores políticos do
PT. Sempre deixei claro para o Senhor e para o Ministro Joaquim Barbosa
que não aceitava esse método de exposição de investigados e réus e da
adoção de uma transmutação jabuticaba da teoria do domínio do fato.
Defendi José Genoíno sempre, porque,
para mim, não tem essa de abrir seu coração (e no seu caso, a sua casa) a
um amigo e depois tratá-lo como um fora da lei, sabendo-o inocente.
Tentei superar o choque, mas confesso que nunca engoli essa iniciativa do Senhor.
Acaso achasse necessário fazê-lo,
deveria ter buscado convencer as pessoas às quais, antes, expressou
posição oposta. E, depois, como José Genoino foi reiteradamente comensal
em sua casa, nada custava, em último caso, dar-se por suspeito e
transferir a tarefa do pedido a outro colega menos vinculado
afetivamente, não acha?
Como nosso projeto para o País era
maior do que minha dor pela injustiça, busquei assimilar a punhalada e
seguir em frente, sabendo que, para terceiros, o Senhor se referia a mim
como pessoa que não podia ser envolvida nesse caso, por não ter
isenção.
E não seria mesmo envolvido. Nunca
quis herdar a condução da Ação Penal 470, para mim viciada ab ovo, e
nunca sonhei com seu cargo. Sempre fui de uma lealdade canina para com o
Senhor e insistia em convencer, a mim mesmo, que sua atitude foi por
imposição das circunstâncias. Uma situação de “duress”, como diriam os
juristas anglo-saxônicos.
Mas chegou o ano 2014 e, com ele, a
operação Lava Jato e a campanha eleitoral. Dois enormes desafios.
Enquanto, por lealdade e subordinação, nenhuma posição processual
relevante era deixada de lhe ser comunicada no âmbito do ministério
público eleitoral, no que diz respeito à Lava Jato nada me diziam, nem
era consultado.
O Senhor preferiu formar uma dupla
com seu chefe de gabinete, Eduardo Pelella, que tudo sabia e em tudo se
metia e, por isso, chamado carinhosamente de “Posto Ipiranga”. Era seu
direito e, também por isso, jamais o questionei a respeito, ainda que me
lembrasse das conversas ante-officium de que sempre nos consultaríamos sobre o que era estratégico para a casa.
Passei a perceber, aos poucos, que
minha distância, sediado que estava fora do prédio, no Tribunal Superior
Eleitoral, era conveniente para o Senhor e para seu grupo que tomava
todas as decisões no tocante à guerra política que se avizinhava.
Não quis, contudo, constrangê-lo.
Tinha uma excelente equipe no TSE. Fazia um time de primeira com os
colegas Luiz Carlos Santos Gonçalves, João Heliofar, Ana Paula Mantovani
Siqueira e Ângelo Goulart e o apoio inestimável de Roberto Alcântara,
como chefe de gabinete. Não faltavam problemas a serem resolvidos numa
das campanhas mais agressivas da história política do Brasil. Entendi
que meu papel era garantir que ninguém fosse crucificado perante o
eleitorado com ajuda do ministério público e, daí, resolvemos, de comum
acordo, que minha atuação seria de intervenção mínima, afim de garantir o
princípio da par conditio candidatorum.
Quando alguma posição a ser tomada
era controversa, sempre a submeti ao Senhor e lhe pedi reiteradamente
que tivesse mais presença nesse cenário. Fiquei plantado em Brasília o
tempo todo, na posição de bombeiro, evitando que o fogo da campanha
chegasse ao judiciário e incendiasse a corte e o MPE. As estatísticas
são claras. Não houve nenhum ponto fora da curva no tratamento dos
contendentes.
Diferentemente do que o Senhor me
afirmou, nunca tive briga pessoal com o então vice-presidente do TSE.
Minha postura de rejeição de atitudes que não dignificavam a
magistratura era institucional.
E, agora, que Sua Excelência vem
publicamente admoestá-lo na condução das investigações da Lava Jato,
imagino, suas duras reações na mídia também não revelam um conflito
pessoal, mas, sim, institucional. Estou certo? Portanto, nisso estamos
no mesmo barco, ainda que por razões diferentes.
Passada a eleição, abrindo-se o
“terceiro turno”, com o processo de prestação de contas da Presidenta
Dilma Rousseff que não queria e continua não querendo transitar em
julgado apesar de aprovado à unanimidade pelo TSE e com as ações de
investigação judicial e de impugnação de mandato eleitoral manejadas
pelo PSDB, comecei, pela primeira vez, a sentir falta de apoio.
Debitava essa circunstância, contudo,
à crise da Lava Jato que o Senhor tinha que dominar. As vezes que fui
chamado a assinar documentos dessas investigações, em sua ausência, o
fiz quase cegamente. Lembrava-me da frase do querido Ministro Marco
Aurélio de Mello, “cauda não abana cachorro”.
Só não aceitei assinar o parecer do
habeas corpus impetrado em favor de Marcelo Odebrecht com as terríveis
adjetivações da redação de sua equipe. E o avisei disso. Não tolero
adjetivações de qualquer espécie na atuação ministerial contra pessoas
sujeitas à jurisdição penal.
Não me acho mais santo do que ninguém
para jogar pedra em quem quer que seja. Meu trabalho persecutório se
resume à subsunção de fatos à hipótese legal e não à desqualificação de
Fulano ou Beltrano, que estão passando por uma provação do destino pelo
qual não tive que passar e, por conseguinte, não estou em condições de
julgar espiritualmente.
Faço um esforço de me colocar
mentalmente no lugar deles, para tentar entender melhor sua conduta e
especular sobre como eu teria agido. Talvez nem sempre mais
virtuosamente e algumas vezes, quiçá, mais viciadamente.
Investigados e réus não são troféus a
serem expostos e não são “meliantes” a serem conduzidos pelas ruas da
vila “de baraço e pregão” (apud Livro V das Ordenações Filipinas). São
cidadãos, com defeitos e qualidades, que erraram ao ultrapassar os
limites do permissivo legal. E nem por isso deixo de respeitá-los.
Fui surpreendido, em março deste ano,
com o honroso convite da senhora Presidenta democraticamente eleita
pelos brasileiros, Dilma Vana Rousseff, para ocupar o cargo de Ministro
de Estado da Justiça.
Imagino que o Senhor não ficou muito
feliz e até recomendou à Doutora Ela Wiecko a não comparecer a minha
posse. Aliás, não colocou nenhum esquema do cerimonial de seu gabinete
para apoiar os colegas que quisessem participar do ato. Os poucos (e
sinceros amigos) que vieram tiveram que se misturar à multidão.
A esta altura, nosso contato já era
parco e não tinha porque fazer “mimimi” para exigir mais sua atenção. Já
estava sentindo que nenhum de nossos compromissos anteriores a sua
posse como procurador-geral estavam mais valendo.
O Senhor estava só monologando com
sua equipe de inquisidores ministeriais ferozes. Essa é a razão, meu
caro amigo Rodrigo Janot, porque não mais o procurei como ministro de
forma rotineira. Estive com o Senhor duas vezes apenas, para tratar de
assuntos de interesse interinstitucional.
E quando voltei ao Ministério Público
Federal, Doutor Rodrigo Janot, não quis mais fazer parte de sua equipe,
seja atuando no STF, seja como coordenador de Câmara, como me convidou.
Prontamente rejeitei esses convites, porque não tenho afinidade nenhuma
com o que está fazendo à frente da Lava Jato e mesmo dentro da
instituição, beneficiando um grupo de colaboradores em detrimento da
grande maioria de colegas e rezando pela cartilha corporativista ao
garantir a universalidade do auxilio moradia concedida por decisão
liminar precária.
Na crítica à Lava Jato, entretanto,
tenho sido franco e assumido, com risco pessoal de rejeição interna e
externa, posições públicas claras contra métodos de extração de
informação utilizados, contra vazamentos ilegais de informações e
gravações, principalmente em momentos extremamente sensíveis para a
sobrevida do governo do qual eu fazia parte, contra o abuso da coerção
processual pelo juiz Sérgio Moro, contra o uso da mídia para exposição
de pessoas e contra o populismo da campanha pelas 10 medidas, muitas à
margem da constituição, propostas por um grupo de procuradores
midiáticos que as transformaram, sem qualquer necessidade de forma, em
“iniciativa popular”.
Nossa instituição exibe-se, assim,
sob a sua liderança, surfando na crise para adquirir musculatura, mesmo
que isso custe caro ao Brasil e aos brasileiros.
Vamos falar sobre honestidade, Senhor Procurador-Geral da República.
A palavra consta do brocardo citado no título desta carta aberta.
O Senhor não concorda e não precisa mais concordar com minhas posições críticas à atuação do MPF.
Nem tem necessidade de uma aproximação dialógica. Já não lhe sirvo para mais nada quando se inicia o último ano de seu mandato.
Mas , depois de tudo que lhe disse
aqui para refrescar a memória, o Senhor pode até me acusar de
sincericídio, mas não mais, pois a honestidade (honestitas), que vem da
raiz romana honor, honoris, esta, meu pai, do Sertão do Pajeú, me
ensinou a ter desde pequeno. Nunca me omiti e não me omitirei quando
minha cidadania exige ação.
Procuro viver com honra e, por isto,
honestamente, educando seis filhos a comer em pratos Duralex, usando
talheres Tramontina e bebendo em copo de requeijão, para serem
brasileiros honrados, dando valor à vida simples.
Diferentemente do Senhor, não fiquei
calado diante das diatribes políticas do Senhor Eduardo Cunha e de seus
ex-asseclas, que assaltaram a democracia, expropriando o voto de 54
milhões de brasileiros, pisoteando-os com seus sapatinhos de couro
alemão importado. Não fui eu que assisti uma Presidenta inocente ser
enxovalhada publicamente como criminosa, não porque cometeu qualquer
crime, mas pelo que representa de avanço social e, também, por ser
mulher.
O Senhor ficou silente, apesar de
tudo que conversamos antes de ser chamado a ser PGR. E ficou aceitando a
pilha da turma que incendiava o País com uma investigação de coleta de
prova de controvertido valor.
Eu sou o que sempre fui, desde menino
que militou no Movimento Revolucionário 8 de Outubro. E o Senhor? Se o
Senhor era o que está sendo hoje, sinto-me lesado na minha boa fé (alterum non laedere, como fica?). Se não era, o que aconteceu?
“A Lava Jato é maior que nós”?
Esta não pode ser sua desculpa.
Tamanho, Senhor Procurador-Geral da República, é muito relativo. A Lava
Jato pode ser enorme para quem é pequeno, mas não é para o Senhor, como
espero conhecê-lo. Nem pode ser para o seu cargo, que lhe dá a
responsabilidade de ser o defensor maior do regime democrático (art. 127
da CF) e, devo-lhe dizer, senti falta de sua atuação questionando a
aberta sabotagem à democracia. Por isso o comparei a Pilatos. Não foi
para ofendê-lo, mas porque preferiu, como ele, lavar as mãos.
Mas fico por aqui. Enquanto trabalhei
consigo, dei-lhe o que lhe era de direito e o que me era de dever:
lealdade, subordinação e confiança (suum cuique tribuere, não é?). E, a
mim, o Senhor parece também ter dado o que entende ser meu: a acusação
de agir desonestamente. Não fico mais triste. A vida nos ensina a
aceitar a dor como ensinamento. Mas isso lhe prometo: não vou calar
minha crítica e, depois de tudo o que o Senhor conhece de mim, durma com
essa.
Um
abraço sincero daquele de quem esteve anos a fio a seu lado,
acreditando consigo num projeto de um Brasil inclusivo, desenvolvido,
economicamente forte e respeitado no seio das nações, com o Ministério
Público como ativo parceiro nessa empreitada.
gg

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