Derrotada a maré vermelha do PT, o novo governo há de restaurar aquele patriarcado viscoso e bacharelesco da república do café com leite
por Nirlando Beirão
A Era Temer, a quem quiser aderir a ela, é
um mergulho retrô, busca suas referências no mobiliário emocional de
antanho, recua ao paradigma azinhavrado daquela República velhíssima dos
cortesãos de polainas, de um Campos Salles, de um Prudente de Moraes, e
das barganhas eleitorais da política do café com leite. A escravidão,
por ora, não será restabelecida.
O bacharel de Tietê há de inspirar, nos
adeptos, seu estilo de enfatuação empolada, de mesóclises pernósticas e
de um primarismo rudimentar. Figurino ideal para ganhar assento naquele
Parnaso das Letras onde bebericam seus chazinhos luminares tais como
Merval Pereira, escritor sem escrita. O que a Academia está esperando
para aclamar o poetaço-presidente?
Outro padrão cultural há de implantar a
Era Temer. Saem os favorecimentos das leis de incentivo às minorias
alternativas e a artistas pervertidos e a nação instaurará a solenidade
dos saraus e recitativos à moda antiga, desde que não desviem as demoiselles do lar, belas e recatadas, dos deveres da maternidade e de seus cursos de caligrafia e de ponto cruz.
Nada de pensadores complicados, liberais
da Rive Gauche ou subversivos teutônicos, já que agora a inteligência
brasileira viverá seu esplendor sob a égide dos eméritos eruditos que o
presidente usurpador guarda na algibeira: Gaudêncio Torquato, Denis
Rosenfield, Bolivar Lamounier e Luis Felipe Pondé.
Esse Pondé talvez se esgueire, ora e vez,
para outro tipo de atividade, não só as do espírito, mas também as do
físico, com amparo de Alexandre Frota.
A Frota será destinada a missão de formatar a têmpera viril da mocidade
nativa, em esportes de muito contato, o que pode servir de consolo a
Pondé em sua carência afetiva e sua intermitente queixa de que as
meninas bonitas, invariavelmente de esquerda, recusam seus favores
sexuais à direita.
O canarinho CBF passa a vigorar como colorido obrigatório
da alma nacional, proscrevendo aquele vermelho PT, que, aliás, fazia
tempo que já tinha virado pink. O canastrão de plantão, condottiere do
rigor patriarcal, perfumado numa alfazema que recende a naftalina,
insistirá em suas fatiotas talhadas em gótico funéreo, assim como José
Sarney, outro presidente do PMDB a não chegar lá pelo voto, não
conseguia largar seu ridículo jaquetão preto.
As mulheres do impeachment podem se sentir, elas, motivadas pela moda pombagira da advogada Janaína Paschoal,
mas na República dos carolas e dos hipócritas os descontroles
libidinosos devem ser, cruz-credo, preservados atrás das portas.
A pamonha
assume o papel de pitéu número 1 no cardápio dos pamonhas e o pato será
proscrito da mesa, com medo das ilações que lembrem os sonegadores da
Fiesp. No cenáculo das beaux-arts, as reminiscências do passado vão
recuperar o Brasil profundo da arte de raiz, docemente ingênua, com a
reabilitação dos pintores acadêmicos de capiaus e violeiros.
Nos lares de família, por inspiração dos Bolsonaros,
saem as poltronas modernistas inspiradas pelos comunas da laia de um
Niemeyer e passa a imperar aquele décor de estatuetas equestres em
bronze que tanto encantam os oficiais da ativa – e da passiva. Bibelôs
com a mimosa figura do senador Anastasia serão igualmente bem-vindos.
Ideologicamente, o País será abençoado
pelo retorno aos nobres valores do catolicismo, com o devido cuidado de
não incomodar a sempre gulosa e ciosa bancada evangélica e
dispensando-se, é claro, aquele mandamento – não roubar – tão pernicioso
ao PMDB cleptomaníaco. Cristianismo, sim, pio, devoto, de boa cepa,
nada que se assemelhe às ideias perturbadoras externadas pelo
bolivariano papa Bergoglio, discípulo do belzebu.
Cristianismo vigoroso, como o da época em
que a gente sacrificava alegremente, sem culpa declarada, as bruxas
que, como esta que estava aí, vítima expiatória do Santo Ofício do
Planalto Central, atormentavam nossa fé.
A música passa a dispensar o Chico e o
Caetano e os palcos farão, enfim, justiça ao abnegado Lobão, que andava
pagando o preço de sua convicta militância em auditórios invariavelmente
vazios.
Recompensa semelhante esperam os amantes
do teatro, a serem brindados, à sombra do regozijo verde-amarelo, não
mais com as obscenidades de um Zé Celso, e sim com as tortuosas peças kafkianas de Octávio Frias Filho, o editor daquela Folha de S.Paulo tão enternecida, nas páginas editoriais, com os arautos da marcha à ré.
O óleo de fígado de bacalhau, os purgantes, o Leite de Rosas e o bicho-de-pé farão seu estrepitoso revival
com o patrocínio da Era Temer. O Brasil cordial triunfará sobre os
ativistas do ódio de classe. A indagação sobre qual será a obra de
cabeceira mais representativa da nova velha ordem é capciosa.
Podia ser, por exemplo, um dos textos de Olavo de Carvalho, mas O Imbecil Coletivo
soaria autorreferente. Adentrando essa fase de operosa produtividade, a
Bolsa bombando, a indústria trabalhando, os investidores investindo e o
maná da prosperidade caindo do céu da pátria amada, quem é que terá
tempo de se distrair com leitura? O Paulo Skaf da Fiesp, por exemplo, nunca abriu um livro.

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