Movimento Brasil Agora
Assaltantes do poder em tocaia contra estudantes e trabalhadores
por J. Carlos de Assis
Se eu integrasse como ministro da Justiça um governo que não tem
plano, não tem estratégia, não tem objetivos claros, eu faria tudo para
aproveitar situações sociais críticas para justificar medidas
coercitivas e duras. Por exemplo, eu aproveitaria o fato de que alguns
jovens revoltados com medidas provisórias destinadas a liquidar com
qualidade do ensino do segundo grau ocupassem pacificamente algumas
escolas para criar um conflito violento e, eventualmente, provar à
sociedade que a culpa seria exclusivamente deles.
Poderia também aproveitar algumas legítimas manifestações de
trabalhadores para protestar contra as pretensas reforma trabalhista e
previdenciária para criar tumulto e, eventualmente, justificar uma
intervenção policial mais dura. Claro que há também a hipótese de fazer
debandarem alguns integrantes de movimentos sociais que se manifestam
contra o governo por motivos justificados, mas que podem ser acusados de
perturbar a ordem pública. Em qualquer hipótese, o Estado de Defesa
estaria à vista.
A presidenta do Supremo Tribunal Federal, Carmen Lúcia, acusada pelo
presidente do Senado, Renan Calheiros, de ser uma das pessoas mais
inteligentes de sua geração, já deu ao hipotético ministro da Justiça
razão suficiente para se preparar para endurecer. Convocou os militares
para participarem de uma reunião onde se debateu segurança interna. Em
outras palavras, manifestações de trabalhadores ou iniciativas
estudantis, como ocupação de escolas, podem acabar sendo resolvidos
pelas Forças Armadas, e não pela polícia.
Até as pedras sabem que Forças Armadas visam a liquidar o inimigo
externo. São preparadas para isso. Seu método de intervenção é o
combate. Só mesmo pela cabeça da inteligentíssima ministra se
justificaria a eventual convocação dos militares para cuidar de ordem
interna. Na verdade, esse expediente deriva de outra situação tensa: as
Polícias Militares de praticamente todos os Estados estão à míngua,
mesmo porque os próprios Estados também estão, de forma que é melhor
confiar nas Forças Armadas do que nelas.
A rigor, estamos numa situação clara de busca de um caminho para uma
ditadura civil com apoio militar. Esse detalhe é importante porque, na
medida em que seja estimulada uma convulsão social, os militares não
terão como negar apoio ao poder civil “legalmente” estabelecido. E como
se sabe, uma vez entrando no caminho da ditadura é muito difícil sair. O
Estado de Defesa tem prazo definido, mas a crise social não. Portanto,
atenção estudantes e trabalhadores: máxima cautela para não turvarmos o
caminho para 2018, quando teremos oportunidade de acertar as contas com
os assaltantes do poder nacional.
J. Carlos de Assis - Economista, professor, doutor pela Coppe/UFRJ.

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