Apoiados pela SBPC, refugiados de Belo Monte dão uma aula sobre tempo e palavra – e exigem o direito de viver
Centenas de ribeirinhos vão à audiência pública exigir seus direitos violados pela hidrelétrica de Belo Monte. Lilo Clareto Arquivo Pessoal
– Vocês hoje vão pra casa de vocês. Quando vocês chegarem
lá, vocês têm empregada, a comidinha de vocês tá lá, os filhos de vocês
tão bem.
– Nós não.
Maria Francineide Ferreira dos Santos costumava segurar o
remo. Hoje, empunha o microfone. Ela quase grita. É uma mulher no
limite. Neste momento, a audiência pública já chega perto do fim no
centro de convenções de Altamira, no Pará. Maria Francineide pressente
que pode não haver conclusão, e o temor aumenta. Depois dali, ela, como
tantos, não têm para onde voltar. É uma audiência pública para garantir
que os ribeirinhos atingidos pela hidrelétrica de Belo Monte tenham uma vida. Mas o que está em jogo, neste momento, é que a “vida” não é um conceito abstrato, a vida é.
Este é o grito de Maria Francineide. Enquanto para uns, os
que têm casa para voltar, a vida pode ser discutida, e até filosofada,
para Maria Francineide e outras centenas a vida urge porque a morte
urge. O desespero de Maria Francineide é que aqueles que têm poder para
decidir sobre a sua vida não entendem – ou fingem que não entendem – que
a vida não é algo apenas sobre o que se fala, mas algo em movimento de
morte.
Havia pelo menos dois tipos de pessoas reunidas naquela
sexta-feira, 11 de novembro: aqueles para quem a fome é apenas uma
palavra; aqueles para quem a fome é. É nesta diferença que a tragédia se
instala no auditório da cidade amazônica: aqueles para quem a fome é
apenas uma palavra têm o poder de decidir sobre a fome daqueles para
quem a fome é.
1) O que Maria Francineide disse para os que sabem ler e escrever
Maria Francineide precisa que entendam. E o tom de sua voz se eleva um pouco mais:
– Tem autoridade aqui. Vocês sabem ler e escrever, eu não
sei. Mas eu sei falar. E eu quero os meus direitos. Eu não tenho mais
como pedir pra vocês: olhem o meu caso. Porque eu já falei tudo o que
tinha pra falar. O que mais querem que eu peça pra vocês? Esmola? Eu não
sou mendiga! Eu sou ribeirinha, eu sou pescadora. E eu quero os meus
direitos como mulher, como cidadã. Me perdoem, mas é meu grito de
socorro!
Maria Francineide faz na sua fala essa outra divisão:
aqueles que dominam a palavra escrita e aqueles que contam com a palavra
oral. Ela deixa explícito em qual palavra está o poder de decidir sobre
os destinos. Aqueles que, como ela, contam a vida pela oralidade, com
muita frequência não são contados na escrita. Sem ser contados, não
contam. Quando o governo federal decidiu construir Belo Monte, eles não
foram sequer ouvidos. Tampouco foram contemplados no mapa das
consequências do barramento do rio Xingu. Sem estar na letra, era como
se não existissem. Maria Francineide não lê nem escreve, mas sabe do que
fala.
Neste momento, Maria Francineide se dirige principalmente a
dois “que sabem ler e escrever”: Suely Araújo, a presidente do IBAMA
(Instituto Brasileiro do Meio Ambiente), e Amauri Daros, representante
da Norte Energia, a empresa concessionária de Belo Monte. Eles estão ali
chamados pela procuradora da República Thais Santi,
que há anos denuncia as violações de direitos humanos e ambientais
produzida pela construção de uma hidrelétrica conhecida na região como
“Belo Monstro”.
Qual é a monstruosidade de Belo Monte? Na arquitetura desenhada nos corredores de Brasília, o público e o privado se misturam.
A arquitetura financeira da obra, hoje estimada em 30 bilhões de reais,
a maior parte financiada por recursos públicos do BNDES, está sendo
investigada pela Operação Lava Jato.
Mas a catástrofe humanitária causada por ela segue se desenrolando no
Xingu com níveis cada vez maiores de desespero. O barramento do rio
barrou a vida de Maria Francineide e de milhares de outros. O que ela
grita – e é isso que precisa ser escutado – é que o barramento das vidas
não pode ser tratado apenas como metáfora. O barramento barra. E aquele
que quer viver é impedido de viver.
Cada ribeirinho que sobe ao palco e empunha o microfone
carrega nos olhos aquela dureza que vem do desespero. Essa é uma sombra
nova no olhar dos xinguanos. “Vou dizer para vocês o que é direito. Nós
não queríamos a Norte Energia na nossa região. Hoje eu não consigo
sustentar a minha família com a pesca. Hoje eu tou mendigando o pão.
Sabe o que é mendigar o pão? Esperar que o vizinho dê um pouco de leite
pra minha filha?”, diz Gilmar da Silva Gomes. Dá as costas para o
público. Ele quer falar para os da palavra escrita: “Não tenho estudo.
Uso o meu português, o meu modo de falar. Mas tou com vergonha de seus
professores, acho que vocês precisam voltar pra escola um pouquinho.
Sabem o que é o Xingu pra nós? É o nosso banco, é a nossa vida. Vocês
estão ganhando bilhões. Como puderam botar fogo nas nossas casas sem nem
pagar indenização? Pelo amor de Deus, o que tá acontecendo? Querem
botar esse monte de pai de família na cadeia?”.
A tensão é crescente, ela sobe junto com o tom de voz. Os atingidos por Belo Monte esperam muito da audiência pública.
2) Como Thais Santi rompeu a barragem das palavras
Nenhuma das 26 ações movidas contra Belo Monte pelo
Ministério Público Federal conseguiu suspender a obra da usina por mais
do que alguns dias. Ou produzir reparação. Thais Santi decidiu então que
era imperativo atravessar a barreira entre os mundos. Era preciso que a
palavra escrita se encontrasse com a oral. Não como uma relação entre
subalternos, como é tão comum nestes casos, mas como um diálogo de
conhecimentos. Ainda no primeiro semestre, a procuradora embarcou num
avião para São Paulo. Tinha uma conversa marcada com a presidente da
Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Helena Nader.
Em um momento tão brutal do Brasil – e do mundo –, onde os
muros dos condomínios se erguem ainda mais altos e os arames farpados
ganham reforços, abriu-se ali uma das poucas janelas de 2016. A SBPC se
colocou a serviço dos refugiados de Belo Monte
para produzir um relatório que permitisse alcançar pelo menos dois
objetivos: um diagnóstico preciso da destruição humana e ambiental
gerada pela usina e uma proposta concreta para que os ribeirinhos possam
recuperar seu modo de vida – e voltar a viver. “Ficar na universidade,
de muros fechados, sem interferir na realidade, não vale nada”,
posicionou-se Thais Santi, que antes de se tornar procuradora foi
professora universitária na área do Direito.
Vinte e seis entre os melhores pesquisadores do país, de
diversas áreas e diferentes universidades, alcançaram o Xingu para
produzir um relatório com mais de 300 páginas. O grupo de trabalho foi
coordenado por duas das mais notáveis antropólogas brasileiras: Manuela
Carneiro da Cunha, professora aposentada da Universidade de São Paulo e
professora emérita da Universidade de Chicago, e Sonia Magalhães,
professora da Universidade Federal do Pará. O projeto foi apoiado pelo
MPF e pelo Instituto Socioambiental (ISA).

A procuradora Thais Santi, entre a presidente do IBAMA, Suely Araújo, e a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, da SBPC. Lilo Clareto Arquivo Pessoal
O ato de Thais, ao procurar a SBPC, provocou a primeira
ruptura do barramento. Aqueles que, como disse Maria Francineide, “são
autoridades, sabem ler e escrever”, atravessaram os muros: alcançaram o
Xingu e usaram a palavra escrita não para violentar, mas para produzir
conhecimento. A partir dos métodos da academia, mas também a partir da
experiência acumulada pelos ribeirinhos. O relatório produzido
materializa essa conversa entre saberes. Como na memória dos povos da
floresta “aqueles que sabem ler e escrever”, as “autoridades”, escrevem
para subjugá-los e expulsá-los, esta aproximação não acontece sem uma
tensão inicial.
3) O que a pescadora Raimunda falou para Jansen, especialista em peixes, na escada:
Antes da audiência pública, houve encontros entre
pesquisadores, ribeirinhos e técnicos do IBAMA e da Agência Nacional de
Águas (ANA), entre outros. Ao final de um dia de conversas difíceis,
Jansen Zuanon, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da
Amazônia (INPA) e um dos principais estudiosos dos peixes da Amazônia,
descia a escada para ir embora. Já era noite, mas o calor desta época do
ano em Altamira produzia uma sensação de estufa. A pescadora Raimunda
Gomes da Silva, que conhece os peixes do Xingu na intimidade do
cotidiano e que, até Belo Monte ser construída, dependia deles para
gerar renda na feira, interceptou-o. Quem conhece Raimunda sabe que não
há como escapar se ela está decidida a esclarecer algum ponto. Era o
caso. A mão negra de Raimunda pescou Jansen por um braço bem branco:
– Não tem professor com 15 universidades que sabe mais do
que um colono. A gente não tem leitura, mas tem sabedoria. Escuta o que
estou lhe dizendo: é nós que sustentamos essa elite. É a mão grossa que
sustenta a mão fina.
Jansen a escutou com respeito. E respondeu:
– O mais bonito é que um não vive sem o outro. São duas visões de mundo.
Separaram-se. Um para o hotel, outra para a periferia de Altamira. Separaram-se um pouco mais juntos.
4) Como os documentos oficiais proporcionam uma releitura do realismo mágico
Mesmo antes de começar, a audiência pública precisou ser
transferida às pressas para um espaço maior porque os ribeirinhos
começaram a chegar às centenas, num número muito superior ao previsto.
No final da manhã já passavam dos 800, segundo os organizadores,
surpreendendo a própria procuradora. Vestidos com suas melhores roupas,
alguns com sapatos maiores do que os pés. Ao longo das mais de 10 horas
de embate, a dramaticidade foi crescendo. Tudo ali dizia respeito a qual
era a palavra que tinha valor.
Desta vez, os atingidos por Belo Monte contavam com um
aliado poderoso: as vozes da academia, a SBPC. Os “especialistas”, como
são apresentados na mídia. Ocorreu então um fenômeno que seria
fascinante, não fossem seus efeitos de catástrofe: a palavra dos
documentos oficiais se mostrou impermeável à palavra de quem vive a vida
descrita. Nem o amparo da SBPC foi suficiente para alterar, naquele
primeiro momento, um valor encravado nas raízes do Brasil.
Um a um os ribeirinhos subiram ao palco, pegaram o microfone
e contaram como o rio não é mais o mesmo rio, a água não é mais a mesma
água, os peixes não são mais os mesmos peixes e a pesca já não é mais a
mesma pesca. Jansen Zuanon e outros pesquisadores pegaram o microfone
para apresentar a análise dos dados colhidos, mostrando que o rio não é
mais o mesmo rio, a água não é mais a mesma água, os peixes não são mais
os mesmos peixes e a pesca já não é mais a mesma pesca. E que tudo isso
ainda poderá piorar muito. Mas os relatórios oficiais, conforme
sublinharam o chefe do escritório do IBAMA em Altamira, Hugo Loss, e o
representante da Norte Energia, Amauri Daros, afirmavam que o Xingu
seguia sem alterações significativas após Belo Monte.
Paisagem do reservatório de Belo Monte. Lilo Clareto Arquivo Pessoal
Jansen Zuanon (SBPC): “Vocês sabem muito mais do que eu
venho aprendendo nos últimos anos (dirigindo-se aos ribeirinhos, antes
de explicar que a variedade de peixes endêmicos na Volta Grande do Xingu
é extraordinária e não se repete em nenhum outro lugar). Mas aquele
Xingu da Volta Grande não vai mais existir. A recomposição do rio levará
entre dois e cinco anos. Neste período, é preciso encontrar uma maneira
de os pescadores sobreviverem”.
O pesquisador Jansen Zuanon, do Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas. Lilo Careto Arquivo Pessoa.
Gilmar Gomes (ribeirinho): “Ah, mas eu queria ter estudado na universidade deste homem!”.

O ribeirinho Gilmar Gomes desabafa diante do representante da Norte Energia, concessionária de Belo Monte. Lilo Clareto Arquivo Pessoal
Hugo Loss (IBAMA): “Há previsão de que a qualidade pode piorar, mas isso ainda não foi constatado”.
Giacomo Dall Acqua Shaffer (ribeirinho): “Eu não estudei,
mas o governo me deu carteira de pescador. Desde oito anos pesco pra
sobreviver, e eu vivia muito bem obrigado antes de a Norte Energia
chegar aqui. E hoje eu tou passando fome. Mas se tem um culpado é o
IBAMA. Não somos nós pescadores. Não é a Norte Energia. Falo com toda
certeza: nós somos invisíveis pra vocês”.
Amauri (Norte Energia): “Vou me apropriar da expressão que a
Thais (Santi) usa, a da invisibilidade. (E cita ações da empresa para a
realocação dos ribeirinhos que, na sua opinião, deveriam ter sido
levadas em conta na audiência.) Ficaram também invisíveis as questões
relacionadas a todos os outros projetos que vamos implementar após o
reassentamento. Ficou invisível também que há quatro anos se estuda o
estoque pesqueiro. Para que a coisa não fique tão invisível assim
gostaria de apresentar essas contribuições”.
Amauri Daros, representante da Norte Energia. Lilo Clareto Arquivo Pessoal
Suely Araújo (IBAMA): “Em seis meses de IBAMA é a segunda
vez que estou aqui. Não estou despencando no tema. Toda obra como essa
tem impactos seríssimos, que são mitigados nas condicionantes. Eu vi a
quantidade de condicionantes com problemas e pedi ao pessoal para fazer
um levantamento completo. Isso vai ser resolvido ponto a ponto. Os dados
até agora não apontam a redução do volume dos peixes. Vamos tentar
entender o que está acontecendo. Não estou dizendo que não diminuiu.
Estou dizendo que, nos relatórios, pelo que me informaram até agora, não
está dando isso”.
Suely Araújo, presidente do IBAMA, e Hugo Loss, gerente do IBAMA em Altamira. Lilo Clareto Arquivo Pessoal
Amauri (Norte Energia): “A discussão está tomando um rumo complicado. Faço um apelo à senhora... (referindo-se à procuradora).
Grito de um ribeirinho: “Na próxima vez vou trazer água pra eles beberem!”.
Jansen (SBPC): “Os ribeirinhos reclamam no dia, o relatório
do IBAMA é de sete meses atrás. A fome não segue este ritmo. A
burocracia segue. A fome é de todo dia. O ritmo da fome é em tempo
real”.
Anoitece. E a ideia de que sairão dali sem nenhuma garantia
vai transformando desespero em raiva. Antes de começar a falar, alguns
batem com o punho ou a palma da mão na mesa “dos que sabem ler e
escrever”. Fazem perguntas diretas, com o rosto bem perto da
“autoridade”: “A senhora tem filhos?”. Ou: “Sabe o que é uma
malhadeira?”. Um ribeirinho sobe no palco, pede ajuda para abrir uma
rede de pesca toda esburacada.
– Vi que reclamou de cansaço porque tá o dia todo sentado
aqui numa cadeira (referindo-se ao representante da Norte Energia). A
gente pesca a noite todinha, porque o peixe diminuiu. E de dia a gente
remenda esses buracos aqui da malhadeira. Sabem o que são estes buracos?
É jacaré. O rio não tem mais oxigênio!
5) Um minuto de silêncio para Jarliel Juruna
Entre tantas vozes alteradas ao longo das horas, houve um
minuto de silêncio. Bel Juruna, a vice-cacique da Aldeia Mïratu, na
Terra Indígena Paquiçamba, subiu ao palco. Pediu um minuto de silêncio
para lembrar a morte de Jarliel Juruna. Em 26 de outubro, ele pescava um
peixe ornamental chamado acari marrom. A Volta Grande do Xingu, onde
vivia, é uma das mais afetadas pela construção da usina. Lá o rio está
transtornado, e os peixes que antes se encontravam no raso já não estão.
Para alcançá-los, Jarliel teria mergulhado em águas profundas. E lá
mesmo, no fundo do Xingu que não é mais Xingu, o indígena parou de
respirar. Tinha 20 anos. Os jurunas da Volta Grande culpam a Norte
Energia pela morte de Jarliel. “Ele morreu afogado”, afirma Bel. “Agora,
me digam, como um indígena vai morrer afogado?”
A interrogação fica sem resposta.
Bel Juruna, ao pedir um minuto de silêncio pela morte do indígena de sua aldeia. Lilo Clareto Arquivo Pessoal
– Eu preciso de um sim!
Torcendo as mãos, ela de tempos em tempos olha pra um lado,
olha para o outro, e repete: “Eu preciso de um sim”. A mulher pequena,
sozinha, doente, passa o dia sentada no auditório esperando que, ao
final, digam a ela que, sim, ela é o que é. Chama-se Maria Iolanda
Pereira do Nascimento. Mais cedo ela também tinha pegado o microfone
para dizer que não tem casa desde que a expulsaram da ilha onde vivia e,
pra “não mexer em nada de ninguém”, está trabalhando na casa dos
outros. Outra Maria lembrou no palco de uma dimensão da vida que se
perdeu: “Desde que a Norte Energia chegou, acabou a alegria e o amor de
todo mundo”.
Desde que os ribeirinhos começaram a ser expulsos das ilhas e
beiradões do Xingu pela Norte Energia, para o enchimento do
reservatório de Belo Monte, abriu-se um novo capítulo da palavra escrita
como instrumento de opressão. Muitos foram coagidos a assinar, com o
dedo, papéis que não eram capazes de ler, nos quais se comprometiam a
deixar suas casas, ilhas e terras em troca de quantias em dinheiro ou de
cartas de crédito, em valores considerados insuficientes – ou de uma
casa num conjunto habitacional urbano que nada tinha a ver com seu modo
de vida. No processo, os laços comunitários foram rompidos e a ligação
com o rio, cortada. Estes foram os mais afortunados.
Outros não tiveram sua casa reconhecida como casa. E outros
ainda sequer foram reconhecidos como impactados pela hidrelétrica, mesmo
que já não consigam viver no rio depois do barramento. Alguns apenas
tinham saído para pescar ou para resolver algo na cidade quando os
funcionários da empresa passaram para fazer o cadastro. Foi o suficiente
para não constarem nos registros oficiais. São os desaparecidos que
todo mundo vê, mas que a Norte Energia não reconhece a existência.
Muitos deles estão ali, na audiência, pedindo socorro no microfone.
A violência do processo provocou adoecimentos e misérias em
grande escala na região de Altamira. Como todos que acompanham
minimamente a implantação da hidrelétrica no Xingu sabem, o governo de
Dilma Rousseff revolucionou a língua portuguesa ao mudar o sentido da
palavra “condicionar”, para que a usina fosse construída e liberada para
operação. Em vez de ser algo que condiciona o acontecimento, as
condicionantes passaram a ser algo a ser cumprido depois do acontecido.
Assim, a Licença de Operação da usina foi concedida, no final de 2015,
sem que a totalidade das condicionantes tivesse sido cumprida.
Para entender bem: no caso de Belo Monte, as condicionantes
não condicionaram. Este é um dos momentos em que os ribeirinhos costumam
perguntar em qual universidade os técnicos do governo estudaram. Na
audiência pública, a atual presidente do IBAMA, Suely Araújo, reconheceu
que há problemas e afirmou que as condicionantes estão sendo revisadas
uma a uma, para que as irregularidades sejam solucionadas “ponto a
ponto”.
Com a denúncia sistemática das violências, iniciou-se um
processo de retorno dos ribeirinhos ao rio. Mas o que deveria ter sido o
começo de uma reparação, ainda que tardia, adicionou à palavra escrita
uma nova camada de horror. Para fazer o reassentamento na área do
reservatório, quem determinava – e ainda determina – quem é ribeirinho e
quem não é ribeirinho é a Norte Energia. Em resumo: se já tinha sido
possível expulsar os ribeirinhos do território em que viviam, tornou-se
possível expulsá-los também do território de si, ao dizer que não são o
que são. Assim, os ribeirinhos foram arrancados de dois territórios
indissociáveis de pertencimento: o da vida e o da identidade. A
audiência pública se deu em tempos de perdição no Xingu que já não é o
mesmo Xingu.
Movidos pelo desespero e pela fome, os ribeirinhos não
reconhecidos como ribeirinhos passaram a voltar ao rio do jeito que
conseguem. Colocam uma lona, abrem uma clareira de roça, agarram-se à
terra. Na véspera da audiência, o gerente do IBAMA, Hugo Loss, encontrou
Fernando da Silva, morador de uma ilha que sumiu. Fernando então
agarrou-se à outra, o mais perto que pôde. Não tem mais casa, só uma
lona onde amarra a rede para dormir. Já abriu roça e mostra orgulhoso
sua macaxeira, seu maxixe, sua melancia. Um dos seus filhos desabafa: se
quiserem que vá morar na cidade, que lhe deem uma metralhadora para que
possa viver. O ribeirinho recebe então a orientação do representante do
governo: “O procedimento agora é ir lá na DPU (Defensoria Pública da
União) e juntar a documentação, aí eles vão instruir o processo”. O
ribeirinho responde contando a sua história. As autoridades vão, e
Fernando fica lá, agarrado.
O ribeirinho Fernando da Silva e o chefe do escritório do IBAMA em Altamira, Hugo Loss, no reservatório de Belo Monte. Lilo Clareto Arquivo Pessoal
A Norte Energia diz “sim” ou “não”. Só tem direito ao
reassentamento – e à possibilidade de recriar uma vida no Xingu – se a
empresa disser “sim”. Se a empresa disser “não”, a alternativa é levar o
caso à justiça. A questão é: como pessoas cuja segurança alimentar está
ameaçada poderão esperar o tempo do judiciário no Brasil? “Insegurança alimentar” é o nome elegante para fome.
Há poder maior do que aquele de dizer se uma pessoa é ou não
é aquilo que é? Como uma empresa pode ter esse poder num empreendimento
público? Essas interrogações atravessam a audiência.
A Norte Energia tem esse poder porque o governo federal permite que tenha esse poder. A concessionária de Belo Monte
é composta em grande parte por fundos de pensão e empresas estatais e
privadas do setor elétrico. Ela contratou o Consórcio Construtor Belo
Monte, que ergueu a hidrelétrica, e é formado pelas principais
empreiteiras do país, parte delas investigada pela Operação Lava Jato.
É da Norte Energia, hoje, a prerrogativa de dar a palavra final, em
documento escrito, determinando quem é e quem não é ribeirinho.
Em caso de “não”, é pela negação de si que ribeirinhos têm
ingressado no mundo do papel. Essa experiência é tão violenta que as
pessoas sobem ao palco do auditório com toda a papelada que conseguem
reunir para dizer que são o que são, mesmo que não possam ler os
documentos que mostram. “Eu era um ribeirinho”, diz Raimundo Berro
Grosso, mostrando uma foto. “Eu era um pescador”, e mostra outra foto
para as “autoridades”. “Quando surgiu o empreendimento, eu fui arrancado
pela Norte Energia.” Gilmar grita: “Eu nasci e me criei no remo. Eu sou
pescador, eu não sou pedreiro!”.
Diante desta violência, a SBPC construiu uma proposta junto
com os atingidos por Belo Monte: a criação de um conselho de
ribeirinhos. Quem dirá quem é será o único que pode dizer quem é: o
próprio ribeirinho. E seus pares, como são aqueles que o conhecem, são
também os únicos capazes de reconhecê-lo e ampará-lo na autodeclaração.
“São os ribeirinhos que sabem quem são os ribeirinhos. É simples como
isso”, manifestou-se a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha.
A proposta retoma o valor da palavra. Hoje, é o documento
escrito, produzido pela empresa, que determina se uma experiência
existiu ou não. A palavra é desencarnada. Com a criação do conselho, é a
experiência, transmitida pela oralidade, que passa a dar carne,
conteúdo, ao documento escrito. O valor da palavra, da transmissão oral
de conhecimento e de reconhecimento, que estava deslocado, retornaria ao
seu lugar no Xingu.
Mas, para que a palavra volte a ter valor, é preciso que o
governo federal reconheça o conselho de ribeirinhos, que está sendo
formado, como uma instância de poder. “Quem define ou não quem é
ribeirinho não pode ser a empresa. Está é a preocupação central”, diz
Francisco Nóbrega, defensor público da união e representante do Conselho
Nacional de Direitos Humanos.
7) Como imaginar um futuro depois que um meteoro chamado Belo Monte atingiu o Xingu?
A SBPC propõe um território ribeirinho, com a reocupação da
terra por quem a ela pertence. As áreas não poderiam ser vendidas e
haveria espaços de uso coletivo, respeitando os laços de parentesco e
vizinhança já consolidados ao longo das décadas de convivência
comunitária. A partir de um extenso trabalho de pesquisa coordenado pela
antropóloga Ana de Francesco, chegou-se a um número de cerca de 300
famílias que, para poder voltar ao modo de vida ribeirinho, precisam
retornar ao Xingu. Este número poderá ser maior ou menor, dependendo do
que for confirmado pelo conselho de ribeirinhos. Para que isso se
realize, é preciso uma decisão de Estado.
Hoje, o reassentamento em áreas destinadas pela Norte
Energia produz vários conflitos. Há famílias que foram colocadas em
terras que, antes de Belo Monte, eram ocupados por outras famílias.
Estas, por sua vez, ficaram sem nada. Há famílias em que os membros
foram espalhados pelo reservatório, impedindo a organização do trabalho e
rompendo a rede de afetos. Há famílias ameaçadas pelos antigos
proprietários, que venderam a terra à Norte Energia mas a querem de
volta. Muitos destes ex-proprietários já entraram na justiça. Há quem
foi assentado sobre pedras ou sobre pasto, em floresta degradada. Há
quem divide o espaço com fazendeiros que mandam o gado avançar sobre a
roça dos ribeirinhos. Os conflitos de terra na Amazônia paraense já
deixaram um rastro de cadáveres. A possibilidade de que isso se repita
deveria ser mais um motivo de urgência.
Deucilene Gomes da Silva tem só 23 anos, um filho de oito. A
mãe, Maria das Graças, está doente. Ela acampa na terra que a Norte
Energia destinou à família. Fica embaixo da lona enquanto a casa é
construída. Não tem medo de bicho nem da solidão. Há três semanas,
porém, uma parente da antiga proprietária apareceu. Mandou parar com a
construção da casa e sair de imediato porque a terra estava na justiça.
“É muita incerteza. E se fazendeiro vem aqui com a polícia e a gente
perde tudo o que já fez? A casa, a roça, tudo?”, questiona a ribeirinha.
Deucilene seguiu com a construção da casa, seguiu plantando roça. Sabe
que corre risco, mas escolhe entre desesperos.
A ribeirinha Deucilene Gomes da Silva tenta reconstruir a vida, mas tem medo de ser expulsa da terra em que foi reassentada. Lilo Clareto Arquivo Pessoal
Há dois fatos que precisam ser compreendidos: um aponta para
o passado, outro para o futuro. Segundo a lei, para que Belo Monte
fosse construída, era obrigatório que os atingidos tivessem o seu modo
de vida assegurado antes de qualquer alteração no território. Não
aconteceu. Em vez disso, Belo Monte produziu refugiados de seu próprio país.
O que acontecer com estes homens e mulheres, adultos e crianças, vai
determinar não só a vida deles, mas também a forma como o Brasil se
relaciona com a Amazônia e com ameaça representada pela mudança
climática. Só existe floresta em pé porque existem os povos da floresta.
Só continuará existindo floresta em pé se continuarem existindo os
povos da floresta.
O futuro é já. Para os ribeirinhos, porque muitos deles têm
fome – e muitos adoeceram pela violência do processo de implantação da
usina. Para o conjunto dos brasileiros, porque em tempos de aceleração, o
futuro é um presente expandido em que a vida é corroída dia após dia.
Como afirmou o professor Jansen Zuanon: “Eu também sou atingido por Belo
Monte”. Neste sentido mais amplo, todos são atingidos por Belo Monte.
Diante da proposta do território ribeirinho, a presidente do
IBAMA afirmou na audiência pública: “O que prometo fazer é levar o
relatório (da SBPC) a Brasília para ser analisado. E então dar uma
resposta”. O representante da Norte Energia disse: “Vejo com muita
preocupação que não esteja se levando em conta todo o processo de
licenciamento até agora. Há possibilidade de que tenha se vendido algo
aqui que não caiba no licenciamento”. E aconselhou os ribeirinhos a
terem cuidado com o que aplaudem.
O representante do Conselho Nacional de Direitos Humanos foi
fortemente aplaudido ao dizer: “A necessidade de novas áreas para
reassentamento é ponto pacífico. Quem dá as normas é o poder público.
Mas a sensação é de que quem decide é a Norte Energia. É isso que não
pode acontecer. É do Estado o dever de proteger todos os direitos
humanos da população”.
Mais tarde, quando a audiência acabou, um ribeirinho
comentou com outro na porta do salão de eventos: “Estou saindo
decepcionado. Só veio empregado de Brasília. Ninguém que decide. Tem que
trazer quem decide”.
E outro disse à presidente do IBAMA: “O tempo de vocês não é o mesmo que o nosso”.








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