Enquanto a maioria dos servidores mal fecha o mês, uma elite drena o orçamento público com salários acima do teto e sem base legal.
Chico Vigilante
É inadmissível que, em um país marcado por tantas desigualdades, o serviço público ainda conviva com verdadeiras aberrações salariais. Enquanto a imensa maioria dos servidores luta para fechar o mês com dignidade, aqueles que estão na ponta como o professor na sala de aula e o técnico de enfermagem no hospital, uma pequena casta se beneficia com os chamados "penduricalhos".
O presidente Lula acerta em cheio ao sinalizar o veto ao projeto que busca legalizar e perpetuar essas regalias. É preciso ter coragem política para enfrentar as corporações que se encastelaram no poder e se julgam acima da lei. O teto constitucional, hoje fixado pelo subsídio dos ministros do Supremo Tribunal Federal, não pode ser uma "sugestão" que se contorna com nomes técnicos e manobras jurídicas. Teto é teto, e quem ganha acima de R$ 46 mil sem a devida base legal está, na prática, confiscando o dinheiro que pertence ao contribuinte.
O recente levantamento mostrando contracheques que ultrapassam os R$ 330 mil no Distrito Federal não é apenas um erro administrativo. É um tapa na face do povo brasileiro e uma afronta direta à Constituição Federal. Sempre defendi o serviço público como o braço forte do Estado na proteção dos mais humildes. Mas o que estamos vendo com essa "festa dos supersalários" é o oposto disso.
Quando um único servidor recebe, em um só mês, o equivalente ao que centenas de trabalhadores levam anos para acumular, o sistema perde sua legitimidade. Esses valores astronômicos, inflados por licenças-prêmio convertidas em dinheiro e verbas extras obscuras, drenam o orçamento que deveria ser destinado a melhorar o atendimento à saúde e a segurança de toda a nossa população.

A decisão do ministro Flávio Dino, do STF, ao suspender esses pagamentos irregulares, vem em boa hora para colocar ordem na casa. É urgente que todos os órgãos da Federação revisem seus pagamentos e cortem o que não tiver respaldo legal. Não podemos permitir que o "jeitinho" brasileiro seja usado para garantir luxos a quem já ganha muito, enquanto o salário mínimo do trabalhador comum é calculado com base na escassez. A transparência não pode ser apenas um portal na internet; ela deve ser uma ferramenta de controle social e justiça fiscal.
É importante separar o joio do trigo para não cometermos injustiças. A maioria absoluta dos servidores do Distrito Federal — e do Brasil — é composta por pessoas honestas, dedicadas e que recebem salários modestos. No entanto, esses "marajás" modernos acabam jogando a opinião pública contra toda a categoria. Quando a população vê um bombeiro ou um gestor recebendo centenas de milhares de reais, ela se revolta com razão. Essa minoria privilegiada acaba sendo o maior inimigo da imagem do servidor público dedicado, que é quem realmente faz o Estado funcionar.
Entendo que a justiça social começa pela correta distribuição dos recursos públicos. Não há ideologia que sustente a manutenção de privilégios para poucos em detrimento do bem-estar da maioria. O orçamento público é finito e cada real gasto indevidamente com um penduricalho de luxo é um real a menos para a compra de medicamentos, para a reforma de escolas ou para o reajuste linear e justo de quem realmente carrega o piano na administração pública.
O momento exige firmeza e transparência total. Não aceitaremos que o Distrito Federal continue sendo palco dessas distorções que nos envergonham. A Secretaria de Economia e os órgãos de controle devem agir com rigor para garantir que a lei seja cumprida sem exceções. A era dos "puxadinhos" salariais e das interpretações criativas da lei precisa acabar. O povo está de olho e nós, como representantes da classe trabalhadora, não arredaremos o pé enquanto a moralidade administrativa não for a regra absoluta.
Por fim, reitero meu apoio ao veto presidencial e à fiscalização rigorosa do Judiciário. Precisamos de um Estado eficiente, mas também austero com os gastos supérfluos e generoso com quem mais precisa. Acabar com a farra dos penduricalhos é uma questão de princípios, de ética e, acima de tudo, de respeito ao povo que trabalha de sol a sol para sustentar esta nação. Chega de privilégios; é hora de cumprir a Constituição e governar para todos, não apenas para uma casta de protegidos.
Postar um comentário
-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;