A indignação diante da morte hedionda do cachorro Orelha recoloca em ação diversos valores cívicos e coletivos que hoje fazem falta à nossa vida pública: união, engajamento, participação e sensibilidade
Se o assassinato do cão Orelha provocou patente revolta na sociedade, também suscitou uma contrarreação ignóbil por parte daqueles que julgam as manifestações de indignação exageradas ou desproporcionais. Nas redes sociais, tais indivíduos expõem seu desprezo ao afirmar que Orelha era “apenas um cachorro” e que a sociedade deveria se ocupar de questões mais importantes, minimizando, assim, o caráter hediondo do crime.
Em primeiro lugar, ninguém com engajamento político verdadeiramente apurado desmereceria uma mobilização nacional em prol de um pedido de justiça. A indignação diante da morte hedionda do cachorro Orelha recoloca em ação diversos valores cívicos e coletivos que hoje fazem falta à nossa vida pública: união, engajamento, participação e sensibilidade. É a partir das mobilizações atualmente existentes que conseguimos expandir nosso escopo de atuação para outras áreas e assuntos; por isso, tentar descredibilizar os esforços presentes é improdutivo e nos conduz de volta à inércia. Pelo contrário, o que um ativista realmente politizado deve fazer nunca é desmerecer as agitações populares atuais, e sim expandi-las.
Vladimir Lenin, por exemplo, em O que fazer?, defende que a consciência política e a atividade revolucionária das massas podem se formar a partir da denúncia de arbitrariedades e opressões cotidianas, como o caso Orelha, transformando experiências imediatas de injustiça em uma compreensão mais ampla do funcionamento da sociedade.[1]
Por isso, além de estarem cegos pelo véu da apatia moral, os defensores (geralmente ligados à direita) da tese de que a reação popular é exagero também estão cegos pelo véu da superficialidade. De fato, o caso não se resume à morte de um cachorro: trata-se das falhas do sistema judiciário, das tentativas de obstrução da investigação, da violação do princípio da isonomia, da naturalização da violência e dos privilégios de classe.
Em segundo lugar, pretendo demonstrar que o assassinato do cão Orelha não se trata apenas do assassinato de um cachorro, mas, por incrível que pareça, do assassinato de uma pessoa, em um sentido sustentado pela ciência e pela filosofia.
Orelha era um cão comunitário, capaz de criar laços sociais e vínculos afetivos no ambiente em que vivia. Segundo relatos, ele tinha uma vida efetiva no seio de uma comunidade, e por meio dela participava de uma existência coletiva compartilhada, acolhendo banhistas nas praias e interagindo com outros cães. Orelha era um verdadeiro membro de sua comunidade e manifestava comportamentos que revelavam decisões, preferências e sentimentos próprios.
Com efeito, Orelha não apenas coexistia com os humanos e outros animais, mas exercia plenamente sua personalidade, demonstrando agência, individualidade e uma capacidade de socialização que ultrapassava a mera reação instintiva. Sua existência comprova que a vida animal pode ser vivida de forma significativa e intersubjetiva, conferindo aos cães dimensões éticas e sociais comparáveis às atribuídas tradicionalmente a “pessoas”.
Essa linha de pensamento é compartilhada não apenas por célebres filósofos e defensores da causa animal, como Jane Goodall[2], mas também por cientistas e filósofos materialistas, como Mario Bunge. Como afirma o físico:
“Qualquer um que já tenha lidado com animais sabe que alguns membros de determinada espécie de vertebrados superiores são mais curiosos, espertos, dóceis, gregários, brincalhões, afeiçoados ou glutões do que outros: eles possuem diferentes personalidades, portanto, para começar, são pessoas, embora, é claro, não necessariamente pessoas humanas. Eu sugiro, dessa forma, a seguinte definição alternativa: uma pessoa é um animal dotado de mente, i.e., capaz de apresentar processos mentais. Não o tempo todo, sem dúvida: não renunciamos aos nossos eus (selves) e nem cessamos de ser pessoas quando estamos bêbados, em sono profundo, ou sob anestesia geral. A bem dizer, as pessoas, assim como todas as outras coisas concretas, estão sempre em estado de fluxo, mas elas perdem seus eus (selves) unicamente quando em morte cerebral: quando não estão mais aptos a ter vida mental.”[3]
Por isso, a morte do cão Orelha é também a morte de uma pessoa (não-humana), no sentido de que ele era um ser dotado de personalidade e individualidade, que se manifestavam no seio de uma vida pública, local, social e comunitária. Os comentários que tentam minimizar a indignação diante do assassinato do cachorro, portanto, não se limitam a subestimar um sofrimento: eles reforçam uma visão retrógrada que nega aos animais qualquer forma de dignidade e perpetuam, na sociedade, a naturalização da violência e da insensibilidade moral.
Agora, voltemos ao caso.
Segundo vídeo divulgado pela jornalista Patrícia Calderón e relatos de um porteiro anônimo, jovens estavam fazendo arruaça na noite do assassinato do cão Orelha. O porteiro relata ainda episódios de depredação perpetrados pelos garotos, além de ter sido alvo de ofensas, como “porteiro de merda” e até mesmo “CLT”. Em outro vídeo, um grupo de jovens se reúne para perseguir e arremessar o cachorro Caramelo ao mar, por diversão — o que a polícia descreve como uma tentativa de afogamento. Quanto ao cão Orelha, o laudo veterinário e o inquérito policial concordam que a morte decorreu de um trauma craniano grave, causado por uma agressão com força suficiente para provocar lesões irreversíveis. Ao menos um adolescente está sendo indiciado por agredir o animal com uma “pancada contundente na cabeça, que pode ter sido um chute ou o impacto de algum objeto rígido, como madeira ou garrafa”.
O caso ainda não aponta para uma conclusão, mas isso não nos impede de extrair do desenrolar desta história, que acontece em tempo real, o retrato de uma sociabilidade falida. As evidências reunidas já trazem uma imagem evidente, e irei desenvolver com maior profundidade a impressão que a situação nos deixa. Parece que delinquentes de classe alta, certos da impunidade, apropriam-se do espaço público como se fosse seu: um palco particular para perpetrar vandalismo e atrocidades. A partir das informações disponíveis, vemos que a diversão desses garotos consiste em colocar em prática, em espaços coletivos, o falso senso de permissão e superioridade fornecido por sua posição social. Com efeito, a “elite”, com merecidas aspas, sente-se mais autorizada a se colocar acima de normas, regras e condutas sociais que deveriam delimitá-la. Limites? Não devem existir. Os funcionários? São subordinados, passíveis de ofensas e discriminação. E as vidas não humanas que compartilham os mesmos espaços públicos? São tratadas como objetos, destituídas de status ou posição social, passíveis de serem massacradas pela mera futilidade.
O que está sendo exposto não é apenas um ato de crueldade, mas um modo de operar e de existir na sociedade, possibilitado pelos privilégios de uma posição social. Não à toa, Orelha e Caramelo eram cães humildes, desprovidos de status, cuja existência era viabilizada por cuidados coletivos. Por suas posições de vulnerabilidade, tornaram-se o alvo perfeito da covardia daqueles que necessitam demonstrar seu poder sobre os demais, vistos como inferiores e subordinados. Não obstante, é possível que a atrocidade seja também fruto do tédio e da mediocridade de uma elite que não sabe ocupar o tempo de que dispõe com algo elevado ou produtivo. Pelo contrário, a demonstração do poder pelo poder vira entretenimento.
O caso piora diante da inoperância e da letargia do sistema policial e judiciário. Evidências são ignoradas, testemunhas são desconsideradas e, dia após dia, a polícia apresenta resoluções e versões da história que se alteram de forma incongruente. Tal movimentação certamente favorece a impunidade, dando tempo para os acusados se organizarem e preverem os próximos passos. Em contraposição, o caso só avança graças aos esforços jornalísticos e à pressão popular. Assim, testemunhamos, em tempo real, um sistema que deveria ser isonômico e democrático se mobilizar para aquilo que parece ser um favorecimento dos ricos. É importante lembrar que a primeira juíza declarou a própria suspeição por ter vínculos com os acusados; e a segunda negou a quebra do sigilo dos celulares.
A imagem que fica de Orelha é de um cãozinho dócil e maltrapilho que, mesmo desprovido de abrigo e status, era amado e mantido pelo esforço coletivo. Por isso o seu assassinato, possivelmente encoberto por endinheirados, é também fortemente simbólico.
Dessa forma, se seguirmos a sugestão de Lenin de partir das denúncias de injustiças para o desenvolvimento de uma consciência social acerca do funcionamento da sociedade de classes em sua totalidade, podemos enxergar, na questão em pauta, uma profundidade muito maior do que aquela encoberta pela superficialidade da apatia.
Do ponto de vista prático, a mobilização popular pelo Orelha deveria engajar mais agitadores sociais e políticos de esquerda, já que a questão está sendo deixada de bandeja para políticos de direita que se colocam como antissistema e surfam na onda da causa animal.
Gabriel Dantas Romano é autor de “Fúnebre Névoa” e ativista ambiental.
[1] “De outra maneira que não seja com base nessas denúncias, não se poderão formar a consciência política e a atividade revolucionária das massas. Por isso, a atividade desse gênero constitui uma das mais importantes funções de toda a social-democracia internacional, pois mesmo a liberdade política não elimina de modo algum essas denúncias, mas apenas desloca um pouco a esfera a que são dirigidas. (…) A consciência da classe operária não pode ser uma verdadeira consciência política se os operários não estão acostumados a reagir contra todo e qualquer caso de arbitrariedade e opressão, de violências e abusos de toda a espécie (…)”. Capítulo 03, parte C, O Que Fazer?, Boitempo, Trad. de Paula Vaz de Almeida.
[2] No prefácio do livro Dogs Demystified, Jane Goodall comenta sobre a importância de seu cachorro Rusty: “Foi graças à minha relação com Rusty que consegui confrontar os professores da Universidade de Cambridge que me disseram, depois de eu ter estudado chimpanzés selvagens por mais de um ano, que eu não podia falar sobre suas personalidades, mentes ou emoções — porque essas eram exclusivas dos humanos. Rusty me ensinou, muito antes de eu começar a estudar nossos parentes mais próximos, que os humanos não eram os únicos seres sencientes e sapientes do planeta.”
[3] Mario Bunge. Matéria e Mente, Ed. Perspectiva, p. 304.
Publicado originalmente por: Le Monde Diplomatique

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