Premiado pelo Cofecon, presidente do BNDES aponta riscos da dependência tecnológica e defende soberania, indústria e Estado estratégico

Ao receber o prêmio Personalidade Econômica do Ano, concedido pelo Conselho Federal de Economia (Cofecon), o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, usou seu discurso para fazer uma análise da crise da ordem econômica internacional e do reposicionamento do Brasil nesse cenário.
Mercadante alertou para o risco de uma nova dependência estrutural, associada ao avanço das big techs e da inteligência artificial, e defendeu a construção de um projeto nacional baseado em soberania, reindustrialização, fortalecimento do Estado e desenvolvimento de longo prazo.
Com a premiação, ele passa a integrar um seleto grupo de economistas que marcaram a história recente do pensamento econômico brasileiro, ao lado de nomes como Maria da Conceição Tavares, Ladislau Dowbor, Tania Bacelar, Leda Maria Paulani e Gabriel Galípolo.
Na mesma cerimônia, o BNDES também foi homenageado pelo Cofecon, recebendo pelo segundo ano consecutivo o prêmio Destaque Econômico, na modalidade Desempenho Técnico, reconhecimento que reforça o papel do banco como instrumento estratégico do Estado brasileiro na formulação e execução de políticas de desenvolvimento.
Ruptura da ordem global e erosão do multilateralismo
Mercadante situou sua análise no cenário internacional, caracterizando o momento atual como uma ruptura histórica do sistema econômico e político global. Para ele, há uma erosão dos organismos multilaterais e das instituições construídas no pós-guerra para mediação de conflitos e proteção dos países mais frágeis.
“Estamos vivendo uma ruptura da ordem econômica internacional e uma erosão dos organismos multilaterais, que são instituições construídas pela civilização para valorizar a diplomacia, a solução dos conflitos e criar regras que protejam os mais fracos. Na relação entre fortes e fracos, a liberdade oprime, é a lei que protege.”
Segundo o presidente, esse processo se aprofundou com décadas de hegemonia neoliberal, que fragilizaram a capacidade dos Estados nacionais de planejar, investir e regular. “Esses 40 anos de neoliberalismo e insistência na ortodoxia neoliberal levaram o Ocidente a esta situação.”
Ele também descreveu o deslocamento do eixo de poder global, apontando o declínio relativo do Ocidente e a ascensão da Ásia, especialmente no campo econômico, tecnológico e industrial.
Big techs, inteligência artificial e nova dependência
Um dos eixos centrais do discurso foi o alerta sobre a transformação tecnológica acelerada e seus impactos geopolíticos. Para Mercadante, o avanço das big techs e da inteligência artificial pode produzir uma nova forma de dependência estrutural, mais profunda do que as anteriores.
“Se não nos movimentarmos rapidamente para produzir inteligência artificial e não sermos apenas consumidores passivos, viveremos uma nova forma de neocolonização cultural.”
O economista defendeu que os países do Sul Global precisam formular estratégias próprias de soberania digital, ciência e inovação, sob risco de se tornarem apenas mercados consumidores de tecnologias produzidas no centro do sistema.
“O avanço das big techs exige uma resposta estratégica. Não podemos ser apenas usuários de tecnologias produzidas fora.”
Soberania, Estado forte e projeto nacional
No discurso, a soberania nacional foi apresentada como indissociável da capacidade do Estado de liderar projetos estratégicos e induzir o desenvolvimento.
“Precisamos de instituições fortes, regras claras e um Estado capaz de liderar projetos estratégicos. Sem isso, não há desenvolvimento, não há soberania e não há inclusão social duradoura.”
Para Mercadante, o papel do BNDES está justamente nesse eixo estrutural. “O BNDES é a casa do desenvolvimento do Brasil. Sempre foi. Um banco público não pensa no curto prazo, pensa no futuro do país, na indústria, na inovação, na sustentabilidade e na soberania nacional.”
O BNDES se consolida como instrumento estratégico do Estado brasileiro, com atuação decisiva em áreas como reindustrialização, transição energética, inovação tecnológica e enfrentamento às mudanças climáticas. Nesse desenho, democracia, soberania e desenvolvimento são apresentados como pilares inseparáveis de um projeto nacional sustentável. “Sem instituições fortes, não há soberania, não há desenvolvimento e não há inclusão social duradoura”, disse Mercadante.
Em sua fala, Mercadante também destacou as transformações no acesso às universidades e nos espaços de poder no país. Ao lembrar sua entrada na USP, afirmou que havia apenas um estudante negro na época e vinculou essa mudança às políticas públicas de inclusão, especialmente às ações afirmativas e às cotas para estudantes da escola pública, defendidas por ele durante sua atuação no governo.
Publicado originalmente por: GGN
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