MICHEL TEMER É UM GOVERNANTE que não teve a chancela das urnas e não se sente amarrado a este importante contrato democrático com a população. Com apoio maciço do Congresso e da grande imprensa, o não eleito parece bastante à vontade para tomar medidas impopulares e cruéis como a PEC do Apocalipse e a reforma da Previdência. O discurso de que essas medidas são um mal necessário para recuperar a economia escamoteia a opção política de botar a crise no lombo da maioria da população que depende do Estado – e esta não é uma questão de opinião, mas um fato. Umaex-diretora de Educação do Banco Mundial, analistas alemães e até o aliadoGeraldo Alckmin (PSDB) observam a gravidade que é o congelamento de gastos nos serviços públicos.
Temer tem se apresentado como o médico da nação que está tendo peito para enfiar goela abaixo do povo um remédio amargo. Ele não estaria preocupado com sua popularidade, mas com o futuro do Brasil, tanto que tem feito questão de ressaltar sua própria coragem em discursos públicos:
“Hoje, no Brasil, se você não tiver coragem, você não consegue governar. Se você não tiver coragem, para que eu vou restringir os gastos num governo de dois anos e pouco? Nenhum sentido teria essa restrição.”
“Nós precisamos reformar a Previdência hoje para garantir a Previdência amanhã. E por isso nós temos coragem. Coragem para fazer coisas aparentemente impopulares, mas que gerarão popularidade logo ali adiante.”
“Se não tivéssemos coragem, para que eu vou mexer na questão da Previdência?”
É sobre essa coragem de quem ostenta o verbo “temer” no sobrenome que vamos nos debruçar. Ela pode ser facilmente comprovada através de manchetes dos grandes jornais. Apreciemos a bravura indômita do não eleito:
Com receio de crise, Temer não quer novas eleições para Presidência da Câmara uol.com/bmjKvs
Painel: Com medo de greve na Olimpíada, Michel Temer encaminha projeto de reajuste a delegados da PF. folha.com.br
Com receio de nova vaia, Michel Temer resiste a participar de encerramento da Olimpíada bit.ly/2aKrYOB #Rio2016
Com medo de guerra entre poderes, Temer busca ganhar tempo.uol.com/brjWGZ
Com receio de vaias, Temer só deve ir ao aeroporto em Chapecó. bit.ly/2gRjCnS
Com medo de protestos, Temer evita viajar pelo Brasil para inaugurar obras bit.ly/2g7x0pr
Com receio de ambiente de 'esquerda', Temer não deve ir a velório de d. Paulo bit.ly/2hRwxG3
Antes de colocar sua turma para aprovar a PEC do Apocalipse e impulsionar a reforma da Previdência, Temer aumentou salário do Judiciário, as verbas para as Forças Armadas e as verbas para a imprensa — não é à toa que alguns veículos o considerem o Brasileiro do Ano. O Maquiavel de Tietê (falo da sua cidade natal, não do rio) afagou muito bem essas elites antes de mandar a conta da crise para os mais pobres pagarem — o que me parece muito mais um ato de covardia do que de coragem.
Com um presidente fraco, decorativo, ilegítimo, rejeitado pela maioria da população e sem perspectivas de melhora na economia, cresce a possibilidade de Temer não conseguir terminar o governo. Até um importante aliado como Ronaldo Caiado (DEM) já anda pedindo “um gesto maior” do presidente: a sua renúncia e “antecipação do processo eleitoral”.
Eleições diretas parecem ser o único caminho possível para tirar a democracia brasileira do buraco e lhe dar legitimidade, mas o núcleo político de Temer já se apressou para barrar a possibilidade do povo escolher o seu presidente caso haja renúncia. Eles querem, na pior das hipóteses, eleições indiretas. Aí, meus amigos, é só aguardar qual será o próximo homem branco, rico e de fibra que será escolhido pelo congresso mais conservador desde 1964.
The Intercept Brasil














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