Movimento Brasil Agora
Divagações em torno da dialética do processo político brasileiro
por J. Carlos de Assis
Os
romanos tinham um provérbio segundo o qual “in medio virtus”, ou seja, a
virtude está no meio. Esse conceito foi refinado ao mais alto nível da
cultura ocidental por Hegel, e posteriormente por Marx, o primeiro
mediante o método dialético no plano ideal e o segundo por meio da
praxis dialética. Em termos simples, a dialética expõe os fatos
históricos como uma sequência de situações que se opõem radicalmente, e
que se resolvem por uma síntese em nível superior que contém elementos
de ambas, embora não absolutamente de nenhuma.
Nos
termos da dialética, a história rejeita soluções de domínio absoluto de
correntes de pensamento ou de ação, exceto em situações
revolucionárias. Mesmo nessas situações o sistema dialético se
reconstitui em correntes contraditórias, sempre evoluindo para novas
sínteses. Em qualquer hipótese, o predomínio absoluto de uma corrente
num processo eventual gera uma violenta reação em sentido contrário que
se manifesta cedo ou tarde. Ao fim sempre prevalece uma síntese que pode
trazer ou não marcas de luta violenta.
Todas
essas premissas teóricas, certamente estranhas num artigo de blog, é
para descrever o que se passa atualmente na sociedade brasileira,
refletida no Congresso. Por força dos conflitos em torno do impeachment
formou-se na Câmara e no Senado uma maioria absoluta de parlamentares
que literalmente vem esmagando a oposição, que se tornou um mero objeto
decorativo no Congresso Nacional. É claro que se um polo dialético se
tornou absoluto, haverá inexoravelmente uma oposição absoluta, até
realizar-se uma síntese.
Descreverei
esse processo em termos de reforma previdenciária e trabalhista. O
sistema previdenciário atual é vergonhoso no que diz respeito aos
privilégios que cria para as elites, especialmente de funcionários
públicos. Essa situação reclama uma profunda reforma, mas o que o
governo oferece não é mudança de privilégios mas cortes gastos em
direitos adquiridos na previdência privada, o extremo oposto do
privilégio. É claro que o processo histórico cuidará de encontrar uma
síntese, mas, até lá, se contestará a vontade do mais forte.
Também
em relação à legislação trabalhista há excessos cristalizados no
sistema. Por exemplo, os tribunais trabalhistas costumam ser uma fonte
de corrupção; trazer as questões trabalhistas para serem resolvidas em
tribunais comuns seria uma forma de arejar a legislação. Contudo, o que o
Governo propõe, com esmagadora maioria, é uma virtual destruição da CLT
herdada de Getúlio Vargas. Não acredito que, historicamente, toda a CLT
será preservada. Alguma coisa terá que ser atualizada. Isso sairá,
porém, como síntese dialética.
Fora
do Congresso, a fúria executiva do Governo pôs em marcha um
retalhamento radical da Petrobrás em confronto direto com tudo que
poderia ser indicado como vontade nacional e defesa do interesse
público. Nesse caso, dada a velocidade da iniciativa, está havendo uma
reação em sentido oposto também imediata do próprio Tribunal de Contas
da União, que já paralisou, pelo menos em parte, a aventura do
presidente da Petrobrás, que está tratando a maior empresa do Brasil e
da América Latina como botequim da esquina.
Esses
exemplos rápidos explicam a dinâmica do processo parlamentar. Já há
evidências de que, como é normal em qualquer bloco político majoritário,
ele começa a rachar. Isso já aconteceu ontem na votação do projeto de
criação de empresas independentes para a negociação – ou negociatas – de
debêntures com dívidas públicas. O passo seguinte é, dado o racha no
bloco majoritário, formar-se uma outra maioria. E essa maioria, não
sendo absoluta, em confronto com a antiga maioria que se tornou minoria,
terá que se entender com ela em torno de uma síntese.

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