Já sabemos quem escapará das degolas. Salva-se quem tiver força para lutar por seus interesses
Flávia Marreiro
"Em cerca de 100 dias, o Governo permanente conseguiu aprovar a PEC que limita os gastos públicos e uma série de medidas que aperfeiçoam a exploração de óleo e gás”, diz a nota orgulhosa que o PMDB lançou nesta segunda-feira
para rejeitar as delações da Odebrecht vazadas pela imprensa. Os
vazamentos, como vários anteriores que marcam o pulso punitivo-midiático
da Lava Jato há mais de dois anos, atingem em cheio o coração do
Governo “permanente”, palavra no mínimo curiosa escolhida por Romero
Jucá, o líder do Planalto no Congresso, plagado de denúncias e ministro
honorário eterno do Governo Temer .
Senador Medeiros (PSD-MT) discute com a senadora Fátima Bezerra (PT-RN), que disse que Congresso não tinha moral para votar a PEC. Pedro França/Agência Senado
A confiança de Jucá,
horas antes ainda da votação final que aprovou a PEC 55, é o
reconhecimento explícito de que o que segura Michel Temer no poder, por
ora, é sua aliança carnal com um Congresso igualmente rejeitado pela
opinião pública. Há muito não se via uma base de apoio tão azeitada e
disciplinada no Parlamento. Nem a ausência do general Eduardo Cunha, agora preso em Curitiba, abalou seu passo.
A
PEC 55 foi aprovada sem uma concessão sequer. Nem mesmo ouvidos às
ponderações de economistas respeitados à direita no Brasil, como Monica de Bolle, Felipe Salto,
ou como a especialista em gestão Claudia Costin, agora no Banco
Mundial, sobre a extensão do tempo da PEC, a necessidade de retirar
saúde e educação do teto e os possíveis efeitos nefastos sobre a
valorização do salário mínimo, um dos motores da diminuição da
desigualdade antes da grande recessão. O Congresso aprovou a maior e
mais profunda mudança no regime fiscal brasileiro desde a Constituição
de 1988. A pretensão é, de fato, de um Governo que, sem a legitimidade
das urnas, se crê permanente, aliado a um Congresso desconectado e que
parece, pela primeira vez em anos, nem sequer preocupado com sua
sobrevivência eleitoral nas disputas futuras.
“Que autoridade moral tem esse Congresso?”, perguntou a senadora Fátima Bezerra (PT-RN), para citar depois
em plenário que boa parte dos colegas estão sendo acusados pela
Odebrecht de negociar emendas ao sabor dos interesses empresariais.
São esses parlamentares que decidiram o tamanho do Estado brasileiro por
nada menos do que 20 anos. Uma eternidade para uma população que
envelhece rápido e precisava de uma decisão estratégica de seus
governantes.
Podemos imaginar como serão as guerras futuras do Orçamento ou mesmo a discussão da Previdência. O Governo Temer tem sido exímio em escolher com quem falar grosso e com quem falar fino e como pagar as faturas que contraiu com o impeachment.
Esse é outro segredo da "permanência”. Se não consegue segurar a
sangria na classe política, como prometeu antes da queda de Dilma
Rousseff, mostra ao menos ser muito mais hábil do que os ocupantes
anteriores em seus tentáculos no Supremo, por exemplo. Também está
garantido que o seu braço de apoio entre o empresariado não será
molestado com alta de impostos ou reforma tributária.
O peemedebismo está em crise - para usar o termo do filósofo Marcos Nobre que descreve o arranjo presidencialista no Brasil -, mas ele se mostra em seu estado da arte para demonstrar força e ficar no poder enquanto pode.
O peemedebismo está em crise - para usar o termo do filósofo Marcos Nobre que descreve o arranjo presidencialista no Brasil -, mas ele se mostra em seu estado da arte para demonstrar força e ficar no poder enquanto pode.

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