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| O músico, escritor e compositor Chico Buarque (Foto: Divulgação/ Mario Canivello) |
Eric Napomuceno
12 de março de 2010
2. São muitos os escritores que têm a música como eixo vital. García Márquez cantou a sério, na juventude. Mas, ao menos que eu saiba, jamais compôs canção alguma. Julio Cortázar disse e redisse que se pudesse escolher teria preferido ser músico de jazz do que escritor. Chico não precisou enfrentar a tensão da escolha: sempre viveu cercado de músicas e leituras, e agora compõe e escreve.
3. O Chico escritor é um obcecado. Os amigos se espantam com sua capacidade de disciplina radical, prussiana. E principalmente com seu nível de exigência. Perderam a conta do tempo em que Chico está mergulhado na escrita de seu novo livro. Desde o segundo semestre de 2001, pelo menos, ele está recolhido. Todo santo dia, ao final da tarde ele se desliga do mundo. E a partir das oito da noite, e até as duas da manhã, escreve de maneira obsessiva. Muitas vezes esquece o tempo, e vara a madrugada. Revisa, refaz, burila, rasga, num trabalho incessante. Escreve, revisa, rasga. Reescreve, revisa, rasga, mas avança um tanto. Uma espécie de Penélope que desfaz hoje o feito ontem, não à espera do improvável Ulisses, mas da palavra exata, da frase que contenha o que ele persegue. Não fala sobre o que está escrevendo. Às vezes, lança perguntas ao acaso, faz consultas sobre palavras. Lembro de quando estava terminando Estorvo: “Como é que você chama o sujeito que serve café no balcão de um bar?”. “Garçom”. “Não, garçom não. Garçom serve mesa”. E depois, soltou: “Servente”. Retruquei que servente até que é correto, afinal o homem serve café. Mas que a palavra estava condenada, pelo uso, ao peão de obra. No livro, está lá: “Servente”. Quando a escrita de Benjamim estava no fim, Chico encontrou um amigo num posto de gasolina. Levava no rosto uma barba de dias, um ar sorumbático, sombrio. Explicou ao amigo que seu personagem tinha acabado de morrer. E contou que sentia-se pavorosamente mal. Quer dizer: nos livros, como nas canções, Chico mergulha fundo, impregna-se na escrita, empapa-se de seu personagem, sua atmosfera. Seu destino.
4. Quando escreve, e não importa o quanto dure essa escrita, mantém poucos hábitos: caminha três vezes por semana, por volta da uma da tarde, em geral na companhia do cineasta Miguel Faria. Joga futebol outras três vezes por semana. E uma vez por semana, janta com amigos. São suas folgas. O resto do tempo, quase que sem intervalos, é dedicado a perseguir palavras. Qualquer interrupção é um risco. Um peso, uma aflição.
5. O apartamento é amplo e luminoso, e o terraço se abre generoso para o mar imbatível que se estende do final do Leblon até as pedras do Arpoador. Tão alto e isolado que ele chama o terraço de tombadilho: o apartamento parece flutuar sobre o mar. Há mais de um ano ele já não usa mais o estúdio para escrever. Desce um andar, para outro apartamento, de dois quartos, onde só existe uma mesa, o computador, duas cadeiras. Sem telefone, sem televisão, sem mais nada. O apartamento de cima é o tombadilho. O de baixo, o franciscano. Como quem se obriga a sair de casa e ir trabalhar, ele desce um andar e se tranca. Perguntei por que não abria a laje e punha uma escada. Achou a idéia estapafúrdia: afinal, a idéia é se isolar. Não existe no apartamento franciscano nada que possa distraí-lo, nenhuma tentação capaz de tirá-lo da palavra escrita ou da palavra perseguida. Quando senta-se para escrever um livro, Chico sabe que não há prazo à vista: pode levar um ou dois anos, dia a dia. Na reta final o trabalho pesa, mas ele não tem pressa. Agüenta.
6. Durante anos, Chico foi um leitor tão voraz quanto voluntarioso. Lia de tudo, sem muita ordem. Às vezes, as leituras vinham em rajadas: os autores franceses, os russos, os italianos, os norte-americanos. O resultado é uma base ampla e consistente do que de melhor se escreveu. Com o tempo, e depois de tanta leitura, foi ficando menos voraz, mas continuou sendo um leitor constante e incansável. Passa por períodos curiosos: recomenda um livro de determinado autor, mas admite que seria incapaz de descrevê-lo. Sabe apenas que sentiu o impacto, e ponto. Quando escreve, quase não lê. Aliás, como a imensa maioria dos escritores que conheço.
7. Num tempo em que o mundo parecia ser mais fácil, tudo dividia-se em bandos. Por exemplo: fumantes de Hollywood e de Luiz XV; bebedores de Brahma ou de Antártica; pilotos de Volkswagen ou de DKW. Como se a vida fosse uma espécie de Fla-Flu. Havia uma divisão clara entre os admiradores de Hemingway e os de Fitzgerald. Em geral, admirava-se – e muito – os dois. Mas havia a predileção. Dia desses, liguei para Chico, só para confirmar: ele era Fitzgerald? Riu muito da minha memória para coisas velhas. E confirmou: gostou do que leu de Hemingway, mas nada era comparável a Fitzgerald. Lembrou da emoção de ler O grande Gatsby. Eu também. Mas continuo na turma de Hemingway. Dia desses leio de novo, só para reforçar argumentos.
8. Quando se mudou para o tombadilho, Chico passou dias arrumando os livros na estante. Levou muito mais tempo do que seria razoável, porque volta e meia parava, abria um livro ao acaso, ficava relendo. Chico, no meio da tarde de uma quarta-feira qualquer, por telefone: “Você quer ficar do lado do Sérgio Sant’Anna?”. “Quando?”. “Agora mesmo: é que estou arrumando a estante e pensei em pôr você do lado dele”. “Acho ótimo. Mas quem vai ficar do outro lado?”. Como não chegamos a um acordo – as companhias que eu pedia já estavam acomodadas, e nenhum dos disponíveis me seduzia – Chico foi gentil: posto num canto da estante, fiquei com Sérgio, um vizinho solitário que, além de escrever contos absolutos, é meu amigo. Coisas de escritor.
Eric NepomucenoEscritor, autor dos livros de contos A palavra nunca, Coisas do mundo, Quarta-feira e O livro da Guerra Grande, entre outros
Revista Cult

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