Justiça alemã também processa três responsáveis do hospital suspeitos de saber o que acontecia


ENRIQUE MÜLLER
Berlim

Nils Högel tapa o rosto durante o julgamento em Oldenburg, em 2015. CARMEN JASPERSEN AFP

Há dois anos, o enfermeiro Nils Hölger foi condenado à prisão perpétua por um juiz do Tribunal Regional de Oldenburg (norte da Alemanha) por ter matado dois pacientes e ter tentado matar outros três. A sentença, porém, não pôs fim às investigações realizadas por uma equipe especial da polícia diante da suspeita de que o enfermeiro poderia ser o autor de outras dezenas de mortes. E os piores temores parecem, agora, se confirmar.

Nesta segunda-feira, o chefe da polícia de Oldenburg, Johann Kühme, afirmou à imprensa que o profissional, de 40 anos, é suspeito de ter matado 84 pacientes entre 2003 e 2005, quando trabalhou na clínica Delmenhorst e no hospital de Oldenburg. Essa revelação faria de Hölger o pior assassino em série da história do país.

“A Comissão especial de investigação registrou pelo menos 84 mortes”, afirmou o representante da polícia. “Esse número é excepcional, único, na história da República Federal da Alemanha”, acrescentou, por sua vez, o chefe da comissão especial de investigação, Arno Schmidt.


A Comissão de Investigação iniciou seus trabalhos pouco depois da emissão da sentença condenatória que levou o enfermeiro à prisão. Durante seu julgamento, foi divulgado um relatório psiquiátrico em que Hölger confessava ter matado outras 30 pessoas.

Nos últimos dois anos, a polícia exumou mais de 100 cadáveres e analisou os prontuários de cerca de 200 pacientes, trabalhou que agora estaria próximo de sua conclusão, mas com um resultado ainda pior do que o revelado nesta segunda-feira pela chefe da polícia de Oldenburg.

O número exato de pacientes assassinados pelo enfermeiro jamais poderá ser estabelecido. “Os resultados obtidos até o momento podem ser apenas a ponta do iceberg”, disse Arno Schmidt. “Cerca de 130 pacientes que morreram nas clínicas tiveram seus corpos cremados, razão pela qual não se consegue produzir mais provas”, acrescentou.

De acordo coma polícia, Hölger costumava injetar nos pacientes uma overdose de um fármaco para o coração e, quando apresentavam sintomas graves, os reanimava para se apresentar como um herói perante seus colegas. Durante o julgamento realizado em fevereiro de 2015, em Oldenburg, Hölger pediu desculpas aos familiares das vítimas, admitiu ter matado dois pacientes e, em um outro gesto tardio de sinceridade, disse que o teria feito para evitar “aborrecimentos”.

Mas o julgamento de 2015 trouxe à tona um outro problema. Vários familiares acusaram as autoridades de não terem investigado todos os indícios existentes sobre as mortes registradas nas duas clínicas, fato que fez o caso ser reaberto.

Na clínica de Delmenhorst, foram encontrados sinais concretos de que o pessoal sabia que Hölger matava seus pacientes, uma convicção que convenceu a procuradoria, levando-a a abrir as respectivas investigações contra dois médicos chefes e o diretor da unidade de terapia intensiva.

Os três deverão comparecer diante da Justiça acusados de ter cometido o crime de homicídio por omissão. “Eles poderiam ter evitado os assassinatos”, afirmou o chefe da polícia de Oldenburg, Johann Kühme. “Os então responsáveis poderiam ter agido mais rapidamente e procurado ajuda. As irregularidades eram conhecidas no hospital de Oldenburg”, disse, observando, também, que foram abertas investigações contra os responsáveis pelo hospital.

EL PAÍS Brasil

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