“Policia Federal – foi mal aí…” – esse deveria ser o verdadeiro nome do filme sobre a prisão do presidente Lula.


Há um aspecto do filme “Polícia Federal – a lei é para todos” que talvez tenha sido pouco explorado. Trata-se de um prematuro revisionismo histórico.

Isso porque a condução coercitiva do presidente Lula – ordenada pelo juiz Moro – além de um enorme erro de avaliação, resultou em uma grande cagada.

O jornal Folha de São Paulo – no dia seguinte a tentativa de prisão – trazia o editorial ”Vitimização” em que, ao mesmo tempo em responsabilizava Lula pelo seu próprio constrangimento, deixava claro o fracasso da Operação Aletheia – pelo menos quanto ao intento de prender o ex-presidente.

“… as circunstâncias da operação deram algum fôlego à militância do PT. Não apenas de setores aliados ao partido surgiram críticas ao episódio. Vozes diversas no meio jurídico argumentam que o ex-presidente poderia ter sido intimado a dar suas explicações sem o recurso a aparatos de força e à pirotecnia que os acompanha. Abriu-se … a oportunidade para que Lula pudesse reforçar, com renovado calor e reanimada audiência, o discurso da vitimização”.

Não havia sido a primeira cagada de Moro, pouco tempo antes, ele havia investido contra a Mossak-Fonseca acreditando que pegaria Lula e acabou expondo a Família Marinho – dona da Rede Globo.

Prender o Lula. Escrevi, na ocasião, que Moro era o melhor amigo de Lula, tamanho o erro de estratégia contido na condução coercitiva.

Tirando de memória.

Acordamos no dia 04 de março de 2016 com uma bomba – o presidente Lula acabara de ser preso pela Polícia Federal. Fora levado para o aeroporto de Congonhas, onde um avião estaria preparado para transferi-lo para Curitiba.

Executada a prisão em uma sexta-feira, somente na segunda-feira seguinte os advogados de Lula poderiam entrar com algum recurso. E, com Lula em Curitiba, qualquer recurso deveria ser primeiramente buscado na vara do Moro. Uma semana de grandes emoções, no mínimo. Mais um recorde de audiência para a Lava-Jato. Se não um fato consumado.


A ação, por certo, já era de conhecimento da imprensa, desde a madrugada. Uma inusitada nota na coluna Painel da Folha de São Paulo, às duas da manhã desse dia, já insinuava o que ocorreria assim que o dia amanhecesse. Não são mais permitidas prisões noturnas – é necessário esperar o dia amanhecer.


Que Moro tinha a intenção de prender Lula se revela no fato de tê-lo conduzido a um aeroporto e não à sede da Polícia Federal em São Paulo – uma das suas maiores e mais modernas unidades.


Aliás, a certeza de prisão era tanta que os indefectíveis Bolsonaro e Francischini – alguém ainda se lembra dele? – já comemoravam com rojões, naquele mesmo momento, em Curitiba.


Mas Lula não foi preso. Ficou algum tempo dando depoimento e saiu para os braços da militância em festa. E para um longo pronunciamento no Jornal Nacional em que denunciava a sua perseguição política.


Por que a operação foi abortada?

Houve um início de tumulto no aeroporto de Congonhas e atritos entre a militância petista e coxinhas. Mas foram de pequena monta. Isso não impediria a captura de Lula.

Falam na intervenção de um coronel da aeronáutica cercando a PF com suas tropas e exigindo a libertação de Lula. Romântico.

O que aconteceu talvez jamais saberemos. Mas Moro foi desautorizado e teve que voltar atrás. Não seria ele quem prenderia Lula. Lembrei-me novamente disso quando, um ano após, Moro condenou Lula e não pediu sua prisão.

Não sei se o filme trata desse assunto. Vou precisar que alguém o assista e me conte. Mas creio que não trata.

De qualquer modo, o tom épico da ficção que narra a ação da prisão do presidente Lula pela Polícia Federal contrasta com a realidade da nota, emitida na época, onde Sergio Moro reconhece a derrota e lamenta.



Oficina de Concertos Gerais e Poesia

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