Maurício Dieter, professor de criminologia na USP MARCOS SANTOS USP IMAGENS

Maurício Dieter, professor de criminologia da USP, conversa sobre punitivismo a partir da série
Especialista discute justiçamento nas redes sociais e espetacularização de prisões no Brasil



ANDRÉ DE OLIVEIRA
A série Black Mirror é um dos maiores sucessos de público e crítica da Netflix. O êxito alcançando se deve, muito provavelmente, ao fato de que os enredos distópicos trabalham com situações extremamente tangíveis no horizonte da humanidade. Carros voadores estão fora de questão, o que torna o mundo assustadoramente diferente são tecnologias que já usamos hoje em dia. Em três episódios específicos, White Bear, Hated in The Nation e White Christmas, a ideia de Justiça como a conhecemos hoje no mundo Ocidental é sacudida. O que aparece em seu lugar é um justiçamento com requintes de crueldade que desrespeita direitos fundamentais e é possibilitado pela tecnologia.


Para refletir sobre os três enredos, o professor de Criminologia da Universidade de São Paulo Maurício Stegemann Dieter participou de uma palestra no Sesc em abril deste ano. A ideia era entender, a partir da criminologia – campo que engloba disciplinas como filosofia, direito e ciências sociais – a motivação por trás do traço latente de punitivismo das sociedades, em especial da brasileira. Com o lançamento neste dia 29 de dezembro da quarta temporada de Black Mirror, o EL PAÍS conversou com Dieter por telefone para falar sobre esse que tem sido um dos traços mais marcantes da era das redes sociais: a substituições dos meios tradicionais de Justiça por um justiçamento virtual express, mas, não por isso, mais justo.


Pergunta. Por que os três episódios tocam tanto a nossa sensibilidade?

Resposta. Eles fazem isso porque trabalham no campo da hipérbole. No White Bear, por exemplo, uma personagem é usada como exemplo de pena em um martírio público a partir da espetacularização da dor. O episódio leva o argumento da pena ao máximo e o que nos choca é que percebemos que essa espetacularização da pena e da prisão já existe no nosso próprio cotidiano. A questão é que isso aparece no dia a dia em doses homeopáticas e, por isso, não nos incomoda tanto quanto ao vermos isso levado ao extremo na série. Contudo, as pessoas celebram o fato de que criminosos sejam presos, algemados, expostos, tenham o cabelo raspado e usem uniformes. É o caso, por exemplo, do Fantástico mostrando um conhecido empresário brasileiro sendo desmascarado com sua peruca. O que isso interessa? Toda essa encenação punitivista é parecida com a do White Bear. A única diferença é que no episódio a coisa é levada ao extremo. A distopia nos faz rever as práticas do nosso cotidiano e como, de alguma forma, elas naturalizaram essa função simbólica da pena, que vê, pelo sofrimento alheio, a forma de expiar nossa insatisfação.


P. O episódio Hated in The Nation mostra que assassinatos em série estão acontecendo por causa do uso de um programa de vigilância secreto do Governo britânico que permite o reconhecimento facial. A privacidade tem sido cada vez mais devassada e menos valorizada, por que ela é tão importante?

R. Há uma publicização do privado cada vez maior por causa das ferramentas que usamos na Internet, esse novo espaço público virtualizado. Cada vez mais, a sociedade tem revelado questões que eram de foro estritamente íntimo, então fica parecendo que a violação do direito fundamental à privacidade já não é algo assim tão importante. Daí que nascem os clichês “eu não tenho nada a esconder” ou “eu faço questão de abrir meu sigilo bancário”. Parece que as pessoas dão cada vez menos valor para essa prerrogativa fundamental, para ter uma vida íntima e privada que esteja a salvo do escrutínio público. E por que a vida privada é assim um valor tão alto? O que não se percebe é que sem a possibilidade de termos os nossos segredos, a nossa vida autônoma, podendo definir nosso destino de maneira íntima, ficamos sujeitos a um controle social absurdamente violento. A construção de nossa subjetividade depende de um espaço privado, reservado, onde podemos definir nossos afetos, destinar nossos recursos. O mais terrível é que estamos perdendo esse direito por causa de uma forma de colaboracionismo ingênuo.

P. O senso comum diz frases como “eu não tenho nada a esconder”, mas ele realmente acredita nisso. Tanto que isso é dito repetidamente.



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