Em Moscou, 1921, mantendo viva a chama da revolução

Moniz Bandeira narra a epopeia bolchevista com um olhar sem estereótipos para o seu líder


A vida de Vladimir Ilyitch Ulianov tomou um novo curso, aos 17 anos, com a morte de seu irmão mais velho, Aleksandr. Estu­dan­te universitário, leitor de Marx, Aleksandr foi preso quando caminhava pela Perspectiva Nevsky, o amplo bulevar de São Petersburgo, carregando um insuspeito, mas volumoso, Dicionário de Medicina.




A polícia secreta de Alexandre III andava especialmente alerta após o atentado que matara, no dia 1º de março de 1881, o antecessor do czar, seu pai Alexandre II. O volume estava oco. Dentro dele, havia dinamite e cápsulas de estricnina.

O mais velho dos Ulianov fazia parte da organização Narodnaia Volia (Liberdade do Povo), que, no confronto com a autocracia dos Romanov, não via outra saída senão o terrorismo. Prometia: “Um Alexandre após o outro”.

Dificilmente o primogênito seria o líder da conspiração, mas assumiu sozinho a responsabilidade. Sua mãe o apoiou: “Coragem, coragem”, gritava para o prisioneiro atrás das grades. Aleksandr foi enforcado a 5 de maio de 1887, na Fortaleza Schlusselburg.

Foi nesse viveiro de cultura revolucionária que o futuro Lenin floresceu. Mas Volodia – seu apelido familiar – era bem diferente do irmão. Tinha a mesma energia dele, mas era alegre, sarcástico impulsivo (o pai ia além: cabeça dura). Apesar das dificuldades da vida da família de classe média laboriosa, ele conseguia ser terno e afetuoso.

Na escola, tornou-se um aluno exemplar, “aplicado, cuidadoso, sempre à frente de sua classe, medalha de ouro por sua atuação e conduta”, como escreveu, em 1887, seu mestre Fiodor Kerenski. Por ironia, o velho professor era o pai daquele Kerenski que o aluno Vladimir e seus companheiros bolchevistas iriam apear do poder 30 anos mais tarde.

A biografia de Lenin sofreu os ajustes ideológicos tanto dos desafetos quanto dos próprios correligionários.


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