A regressão do Brasil é tamanha que a cena política traz à mente coisas de um passado que, afinal, era premonitório desta “sociedade do espetáculo” que em que tentam nos mergulhar, embora a realidade, ao contrário, tenha sombras e não holofotes, dramas e não comédias românticas.
Vendo esta torpeza praticada pela Globo com o “vai-não-vai” da candidatura de Luciano Huck recordei-me de um filme da juventude: Rede de Intrigas, do espetacular diretor Sidney Lumet, com um time de craques que teria nove indicações e quatro vitórias no Oscar daquele 1977.
Para quem não tiver idade ou memória para lembrar, a história narra o que se passa numa emissora de TV – e de resto em toda a mídia – quando um apresentado, demitido pelos baixos índices de audiência, anuncia, no ar, que vai “estourar os miolos” diante das câmeras, dali a uma semana. A audiência, claro, é o que explode, enquanto o país vive o drama de um governo fraco (Gerald Ford), tão fraco que perderia para Jimmy Carter, um Itamar Franco gringo, no ano seguinte.
Francamente, parece que se está se passando isso por aqui. O país está a 14 dias de um evento carregado de uma carga dramática como poucas vezes se viu na história, com um ex-presidente popularíssimo, líder disparado em todas as pesquisas eleitorais, prestes a ser alijado da disputa eleitoral por um “crime” que não se sabe bem o que teria sido, nem se conhece provas de que tenha acontecido e que, para a imensa maioria, teria a ver com “ganhar” um apartamento no Guarujá, o que não ganhou, claro.
Mas o foco da mídia é um apresentador de TV que desfila na Globo, como os cavalos de corrida desfilam no cânter, aquele passeio que dão diante dos apostadores, como se a eleição presidencial fosse uma carreira hípica, a discutir se ele vai ou não disputar o páreo. E ainda mais, um cavalo do qual não se conhece nada, exceto o haras de onde provém e que parece, dada a desgraça em que caíram seus amigos, a começar de Aécio Neves, com o anúncio feito ontem pela BRF, na Folha: BRF lança marca para baixa renda com sobras de Sadia e Perdigão.
Huck, afinal, é isso: uma farinata eleitoral, um candidato feito a partir de produtos rejeitados ou no final da validade, reciclados numa embalagem global para atrair os pobres e os simplórios, promovido em sessões de publieditoriais “da casa”, enquanto o personagem, lá dos hotéis de luxo de Dubai, onde passeia agora (talvez com o dinheiro de publicidade da Petrobras), não é cobrado por ninguém a dizer coisa alguma, exceto que é um bom moço.
A fina flor da elite nacional, a começar pelo luminoso farol da inteligência que se considera Fernando Henrique Cardoso não tem sequer um grão de pudor em embarcar – ou se manter com um pé no estribo – numa aventura oportunista, que nada visa senão o objetivo de ter alguém dócil e inofensivo no lugar que não poderá, nunca mais , ser ocupado por um filho do povo brasileiro.
Falta alguém completar a frase do Câmara Cascudo, de que o melhor do Brasil são os brasileiros. O pior, suas elites.
