Exército faz segurança do Palácio do Planalto durante manifestação em 2016: Foto: Evaristo Sá/AFP
A Câmara dos Deputados aprovou – com 340 votos favoráveis, 72 contrários, uma abstenção e 100 ausências – a ''Guerra de Temer'' no Rio de Janeiro. Com isso, o decreto de intervenção federal que colocou as Forças Armadas no comando da área de segurança pública do Estado segue para votação no Senado Federal, onde não deve encontrar grande resistência.

Acompanhei os discursos dos parlamentares – por dever de ofício, não por masoquismo. Para variar, foi um festival de aberrações – da pregação de envio de tropas a todo o país, passando pela apologia à violência de Estado até acusações de que a oposição é aliada à Coreia do Norte. A transmissão mais uma vez mostrou que uma boa parte dos representantes políticos não faz ideia das causas da violência e, portanto, não consegue discutir consequências de forma estrutural. Outros sabem muito bem, mas ganham com o controle social sob a justificativa de combate ao crime. Infelizmente, os deputados que eram contra e a favor da intervenção e tinham elementos relevantes para o debate acabaram soterrados diante do baixo nível coletivo.

Mas também não faltaram discursos na tribuna que criticaram a falta de planejamento e o caráter marqueteiro da medida para, logo depois, conceder o voto a favor da intervenção.

Afinal, não queriam se indispor com o eleitor, considerando que a população, desesperada com os 60 mil homicídios anuais no país, está em busca de qualquer solução que prometa reduzir a violência e o medo. Mesmo aquelas soluções com cara de ''passe de mágica'', forjadas no autoengano, que desconsiderando ações estruturais, podem, na melhor das hipóteses, funcionar como paliativos.

Ou seja, um pacote que inclua a melhoria tanto nas condições de trabalho da polícia (com o desenvolvimento dos setores de inteligência) quanto da remuneração dos policiais. Mas também geração de empregos e educação profissionalizante, a fim de afastar os jovens da criminalidade, e a introdução de serviços públicos de qualidade a fim de estabelecer a presença do Estado nos territórios dominados pelo tráfico. E, antes de tudo isso, a convocação das comunidades afetadas para construir um plano de ação conjunto com o governo. Sem esquecer da alteração da fracassada política de ''guerra às drogas'', que serve para alimentar facções criminosas, políticos e policiais corruptos e os mercadores da morte – que inclui a indústria de armas e da segurança pública.

Vendo os discursos críticos seguidos de votos apoiando à intervenção, constata-se que o governo se beneficiou da proximidade com as eleições – o mesmo processo que o derrotou na engavetada Reforma da Previdência. Michel Temer não conseguiu colocar a proposta em votação, como queria o poder econômico, devido ao medo dos parlamentares de serem punidos nas urnas por aprovarem algo extremamente impopular em ano eleitoral. Há deputados em número suficiente que concordam com a Reforma da Previdência, mas isso não se traduzirá em votos – pelo menos, até garantida sua reeleição.

Por conta disso, aliados do governo vieram a público reclamar do ''populismo'' dos colegas quanto à Previdência. Contudo, a mesma reclamação não se ouviu dos governistas na votação da madrugada desta terça (20) que chancelou a intervenção.

O número de ausências na madrugada desta terça (100) reforça a percepção de que havia parlamentares não queriam se indispor com o eleitorado ao votar contra um projeto de uma pauta que, ao lado do emprego, irá estar no centro das preocupações populares na campanha.

Gostando ou não, esse jogo parlamentar faz parte da democracia.

O que não faz parte é rifar a vidas das pessoas (moradores, policiais, soldados), através de um plano feito às pressas com objetivo eleitoreiro, que dificilmente conseguirá trazer paz duradoura ao Rio, apesar de seus altos custos financeiros e institucionais. Mas que provavelmente irá trazer dor a inocentes que morrerem ou tiverem seus direitos tratorados no meio do caminho. E pode desequilibrar a delicada hegemonia de civis sobre militares, fragilmente garantida desde 1985.


Blog do Sakamoto
Postagem Anterior Próxima Postagem

ads

ads