Semear mentira para colher vantagem é trapaça manjada. Em 1996, ainda não havia redes sociais e robôs digitais para plantar cascatas. Nada que impedisse artimanhas eleitorais para confundir. O prefeito Cesar Maia lançara Luiz Paulo Conde para concorrer à sua sucessão no Rio. O antagonista mais robusto era Sérgio Cabral Filho – ele mesmo.

Cesar contratou mais de uma centena de pessoas para espalhar, no centro da cidade, que Cabral desistira da eleição.
Cesar contratou mais de uma centena de pessoas para espalhar, no centro da cidade, que Cabral desistira da eleição. De boteco em boteco, aglomeração em aglomeração, os boateiros a serviço do prefeito comentavam a “novidade”. Os incautos ouviam e compartilhavam a informação com os amigos. Com o rumor sobre o abandono chegando ao noticiário, Cabral teve de, em sinal de anemia política, esclarecer que persistiria. Persistiu e perdeu.

O trambique, hoje um case do marketing político nacional, não foi confidência de um desafeto de Cesar Maia. E sim dele, em livro.

Anos antes, em 1989, a campanha de Fernando Collor de Mello à Presidência disseminara o boato de que, se vencesse, Luiz Inácio Lula da Silva obrigaria todas as famílias a cederem um quarto de suas residências para grupos de sem-terra morarem. E que garfaria a sagrada poupança dos brasileiros.

Collor ganhou, e sua primeira medida foi bloquear os depósitos bancários.

Mais atrás, em 1960, os adversários de Carlos Lacerda na disputa para o governo da Guanabara, o equivalente geográfico do atual Município do Rio de Janeiro, soaram o alarme: o deputado e jornalista exterminaria as escolas públicas da cidade-Estado.

O ministro Gilmar Mendes teria sido grampeado em seu gabinete no Supremo.
Lacerda triunfou e, nos cinco anos vindouros, construiu centenas de colégios.

Completa uma década este ano a patacoada que certa imprensa embalou como fato consumado: o ministro Gilmar Mendes teria sido grampeado em seu gabinete no Supremo. Uma investigação metódica e obsessiva não encontrou indício de escuta ilegal.

A notícia falsa sobre o grampo custou a cabeça do delegado Paulo Lacerda, que dirigia a Agência Brasileira de Inteligência. Não era esse o objetivo?

O episódio dos marmiteiros

Costuma-se interpretar o confronto entre Hillary Clinton e Donald Trump, em 2016, como uma arena em que a engrenagem das “fake news” revelou-se potente, azeitada e daninha à democracia.

Mas uma campanha presidencial no Brasil antecipou em quase três quartos de século o cenário em que uma mentira pode influenciar decisivamente as escolhas dos cidadãos.

Os idos de 1945 ensinam como uma invencionice, mesmo resumida a uma só palavra, pode pesar nas urnas.

No caso, a palavra foi “marmiteiros”.

Depois do término da Segunda Guerra Mundial, um golpe de Estado depôs o chefe da ditadura do Estado Novo. Os militares, que oito anos antes haviam se associado ao presidente constitucional Getúlio Vargas no golpe, derrubavam agora, em 29 de outubro de 1945, o ditador Getúlio Vargas.

A eleição direta para presidente foi marcada para 2 de dezembro. Seria a primeira desde a de 1930, cujo primeiro colocado foi impedido de assumir – a Revolução de 30, também um golpe, entregou o poder a Getúlio. Do quarteto de candidatos, dois duelavam com chances de vitória: o brigadeiro Eduardo Gomes, da União Democrática Nacional; e o general Eurico Gaspar Dutra, do Partido Social Democrático.