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| O diretor Luiz Bolognesi (d) na Berlinale acompanhado de dois membros da tribo Paiter Suruí para a apresentação do documentário Ex-Pajé em BerlimDivulgação |
O filme Ex-Pajé, de Luiz Bolognesi, fez sua estreia mundial na noite deste sábado (17) no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Durante sua apresentação na mostra “Panorama” da Berlinale, o diretor leu um manifesto pela proteção dos índios brasileiros, ao lado de dois membros da tribo Paiter Suruí.
Por Silvano MendesEnviado especial a Berlim
O documentário apresentado na Berlinale tem como personagem principal Perpera, o antigo pajé da tribo, que perdeu sua função com a chegada dos brancos, principalmente os pastores das igrejas evangélicas. "O conflito principal é justamente essa evangelização, essa cristianização dos índios, que bate de frente com o saber dos pajés", comenta o diretor.
Aspirina substitui pajés
O filme também aborda a questão da saúde dos índios, cada vez mais imposta pelos brancos e negligenciando as tradições locals.“Antes as pessoas vinham me ver, hoje elas compram aspirina”, diz Perpera no documentário.
Esse aspecto, aliás, é tratado em vários momentos, como quando a mãe de Ubiratã é hospitalizada. “Quase a perdemos e eu acho que se ainda tivéssemos o pajé em nossa aldeia, ela não teria precisado ter ido para um hospital”, relatou, emocionado, o jovem índio.
Redes sociais ajudam os índios
O filme também mostra como outros aspectos da modernidade, como a internet, mudaram a vida de toda a tribo. “A tecnologia vem de uma forma intensa e entra nas aldeias sem freio. Mas a gente tenta se adaptar e usar como uma ferramenta, pois com ela a gente pode registrar a nossa cultura”, explicou Ubiratã. “Com toda a pressão do desmatamento em nosso território, a gente tenta divulgar em redes sociais para que o mundo conheça o que esta acontecendo de verdade”.
“As pessoas não lêem bem a Amazônia como ela é hoje. Há um olhar muito romântico, muito clichê”, aponta Bolognesi. “Os índios atualmente têm motocicletas, pickups, estão nas redes sociais, estudam em universidades, mas não deixar de ser índios por causa disso. E o filme mostra como um grupo indígena está vivendo essas questões da modernidade. Eles lidam e enfrentam madeireiros e garimpeiros que entram na terra deles não mais dando flechadas, e sim tirando fotos, marcando no GPS e fazendo denúncias nas redes sociais.
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| Perpera, o antigo pajé da tribo, perdeu sua função com a chegada dos brancos.© Pedro J. Marquez/ berlinale 2018 |
“Os espíritos da floresta estão bravos, pedindo socorro, pois cada árvore derrubada, cada rio contaminado, faz com que desapareçam. Assim disse um sábio pajé: a floresta é um portal cristalino, e todos nós humanos precisamos dela. Se acabar a floresta, também acabará nosso espírito. Os pajés precisam existir e, para existir, precisam ser respeitados. Antes que seja tarde demais, que o mundo esteja esvaziado de espiritualidade e o Céu caia sobre nossas cabeças! Basta de etnocídio! Mais pajés! Menos intolerâncias!”, leu o diretor diante do público da Berlinale.
RFI

