Foto: Maurício Rummens/Divulgação
Quem vendeu o apartamento ao ex-chefe da Casa Civil de Geraldo Alckmin, Edson Aparecido - hoje, secretário da gestão João Dória - foi um empresário que tem contratos milionários com o governo do Estado.
O enredo é digno de Lava Jato. Até nasceu em portais de notícias ligados à Globo, como ocorreu com o triplex atribuído a Lula.
Só que no caso em tela, a investigação não é criminal, não cita em nenhum momento o histórico de Aparecido com o PSDB nem questiona a ligação entre o antigo proprietário do apartamento com o governo Alckmin.
O que a Promotoria do Patrimônio Público de São Paulo pôde apresentar contra Aparecido foi uma ação civil por improbidade administrativa.
O relatório (em anexo) aponta que a investigação surgiu a partir de matéria do UOL, com o título "Número 1 do governo Alckmin comprou imóvel de empreiteiro por 30% do valor."
O MP-SP apurou que, em 2001, o imóvel foi adquirido por Luiz Albert Kamilos e Sarah Maria Giffalli de Moura pelo valor de R$ 1 milhão, já "abaixo do valor venal de referência". “Em 2007, seis anos depois, Edson Aparecido dos Santos adquiriu o mesmo imóvel pelo valor de R$ 620 mil."
“Noutras palavras, mesmo considerada a valorização anual do imóvel, (...) Edson Aparecido dos Santos adquiriu o apartamento por aproximadamente 40% a menos do valor de aquisição."
Quando o inquérito veio à tona, o G1 divulgou que Luiz Albert Kamilos é dono da construtora Kamilos. "De acordo com o Portal da Transparência do próprio governo [Alckmin], entre 2014 e o início de 2016, a Kamilos recebeu mais de R$ 45 milhões por serviços prestados ao DER - o Departamento de Estradas de Rodagem."
O pedido para processar Edson Aparecido não contém informações sobre a construtora.
Em depoimento ao MP, Aparecido explicou que comprou o imóvel com um cheque de R$ 200 mil, mais um empréstimo de aproximadamente R$ 110 mil em espécie (sem comprovante da transação) e com a troca de um apartamento que dispunha em São Paulo, avaliado em pouco mais de R$ 300 mil.
Para o promotor, Aparecido não conseguiu provar a origem dos recursos. Além disso, com o salário de deputado, à época da compra do apartamento, ele não teria condições financeiras de custear outras despesas mensais e viver com dignidade.
Sem contar que o fato de ter adquirido o imóvel por quase metade de seu valor configurou enriquecimento ilícito, na visão do MP.
Ao propôr a ação civil, a Promotoria do Patrimônio pediu o bloqueio de bens de Aparecido e solicitou medidas para impedir dilapidação de patrimônio.
Aparecido deixou a Casa Civil de Alckmin tão logo a denúncia surgiu na mídia. À época, parte da imprensa ajudou a disseminar a ideia de que existia uma "saia justa" entre o governador e Aparecido, que havia se recusado a fazer campanha para João Doria.
Ironicamente, foi a gestão Doria que aceitou dar um cargo para Aparecido, na cúpula da Cohab (Companhia Metropolitana de Habitação), já depois que o tucano passou a ser investigado.
Aparecido, aliás, tem trajetória de prestígio dentro do PSDB, tendo sido, inclusive, vice-presidente nacional.
Veja o perfil que o governo de SP publicou sobre ele, em meados de 2011.
Embora a história seja muito similar a outras que foram abraçadas na Lava Jato (tem empreiteiro, tem patrimônio transferido à agente público que não explica a diferença de valores, e tem também contratos com o Estado), a investigação passou longe de fazer todas as conexões que caberiam em um Power Point.
Que o leitor menos íntimo da cobertura que este blog faz da Lava Jato não se engane: não se está aqui afirmando que o rigor da força-tarefa que atingiu a Petrobras é maior ou que deveria ser parâmetro para outras autoridades.
Só é curioso o gritante e costumaz pudor de investigações sobre escândalos envolvendo tucanos em São Paulo enquanto, no Estado vizinho, a criatividade (ou falta de limites) para traçar ligações supostamente criminosas impera.
GGN


